Em março passado, o livro A Riqueza das Nações, do escocês Adam Smith, completou 250 anos. A obra deu origem à moderna teoria econômica e contestou duas ideias sobre as fontes da prosperidade. A primeira, o “mercantilismo”, desenvolvida na França no século XVII, dizia que a riqueza de uma nação se explicava pelo estoque de metais preciosos. Priorizava-se o controle rigoroso das importações, o que permitia gerar superávits comerciais e, assim, a acumulação daqueles metais.
A segunda ideia era a dos “fisiocratas” franceses do século XVIII. Para eles, a agricultura era a única fonte de riqueza de um país. Criticavam o mercantilismo e defendiam o liberalismo econômico com o lema laissez faire, laissez passer (deixai fazer, deixai passar).
Para Smith, o acúmulo de ouro não era o que enriquecia uma nação, mas um ambiente favorável às trocas no mercado e à concorrência. Ele concordava com o liberalismo econômico dos fisiocratas, mas não com a ideia de que a origem da riqueza seria a agricultura. Esse papel cabia à divisão do trabalho.
Ele percebeu a relevância dessa divisão quando observou uma fábrica de alfinetes. Constatou que um operário dificilmente conseguiria produzir vinte alfinetes por dia. Se o processo fosse dividido em etapas (um puxa o fio, outro endireita, um terceiro corta e assim por diante), um pequeno grupo produziria milhares de alfinetes por dia. A divisão do trabalho aumentava a eficiência e dela derivaria a produtividade, que seria o motor fundamental da geração de riqueza.
Em uma das mais famosas frases do livro, Smith afirma que “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm por seus próprios interesses”. Assim, o autointeresse e a busca por lucro impulsionam a atividade econômica. Essa ação, guiada por uma “mão invisível”, promove o bem-estar.
“Roberto Campos disse: ‘produtividade’ aparece uma vez na Constituição, ‘eficiência’, duas vezes, e ‘direitos’, 76”
Smith explicou o papel do lucro numa economia de mercado. Ele o definiu como a remuneração do capital, diferenciando-o do salário (pago ao trabalho) e da renda (paga ao empresário). O lucro não serve apenas para financiar o consumo do capitalista. Sua função mais importante é permitir o investimento. Do lucro depende a formação de recursos para contratar mais trabalhadores ou comprar novas máquinas. O lucro é, destarte, o “combustível” que promove o aumento da produção nacional.
Smith refletiu sobre outros aspectos importantes, que o espaço não permite abordar. Por exemplo, analisou os males dos oligopólios. Suas ideias demoraram a chegar aqui, inclusive por serem escritas em inglês. Até hoje, muitos brasileiros veem o lucro como algo pecaminoso.
A produtividade é quase ausente do discurso da classe política, principalmente do PT, para quem o que impulsiona a economia é o gasto público e a intervenção na economia. Como disse Roberto Campos, a palavra “produtividade” aparece apenas uma vez na Constituição, “eficiência” duas vezes e “direitos” 76 vezes. Triste.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992





