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Histórias de Sucesso

Por Fabiana Monteiro Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Chairman & CEO | Editora Global Partners; especialista em liderança, educação e impacto ESG. Lideranças que formam o futuro

Adaptar-se sem perder a essência

Após mais de duas décadas de carreira, Rafael Barros mostra como adaptação, aprendizado e equilíbrio moldaram sua forma de liderar

Por Fabiana Monteiro 25 ago 2026, 19h09 | Atualizado em 25 ago 2026, 19h11
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Muito antes de chegar ao comando de operações industriais em quatro países da América Latina — Argentina, Brasil, Colômbia e México —, Rafael Barros associava o trabalho a uma imagem: o pai saindo de casa, na zona sul de São Paulo, de terno, gravata e pasta. Ainda criança, via naquela rotina uma forma de responsabilidade. Não sabia que construiria uma trajetória entre fábricas, sistemas e projetos internacionais, mas já imaginava uma carreira em multinacionais.

Nascido em São Paulo em 1975, Rafael cresceu em uma família de classe média na qual tudo era resultado de esforço. O pai, Orlando, hoje já falecido, trabalhava nas áreas administrativa e financeira de uma indústria. A mãe, Vera, dedicou-se à educação dos filhos. Dele, veio a dedicação; dela, a atenção ao estudo, aos valores e ao bem-estar.

Aos 51 anos, Rafael é vice-presidente de Operações Taste na América Latina da dsm-firmenich, um negócio de ingredientes e soluções para alimentos e bebidas. Está na companhia desde 2000, quando entrou na então Firmenich, que concluiu sua fusão com a DSM em maio de 2023. Casado com Patrícia desde 2000 e pai de Rodrigo, estudante de Direito, ele resume a carreira em uma palavra: resiliência. Crescer, afirma, exige constância e adaptação sem perder o rumo.

A engenharia como base

A afinidade com matemática e raciocínio lógico conduziu Rafael à Engenharia. Começou na Química, mas mudou para a Mecânica, curso que concluiu em 2000 na Universidade São Judas Tadeu. A troca não o afastaria da química: quase toda a sua carreira seria construída na indústria de fragrâncias, aromas e ingredientes.

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Durante a graduação, passou a estudar à noite para estagiar em período integral. Começou em 1997, na Brasilata, na manutenção. No mesmo ano, foi para a Avon, onde se aproximou da manufatura e do planejamento. Vieram depois vendas técnicas na Bosch e engenharia de processos na Ford. As passagens lhe permitiram conhecer diferentes ambientes industriais e entender como uma decisão chega à fábrica e ao cliente.

Em maio de 2000, recém-formado, Rafael entrou na Firmenich como planejador de produção. Recebia pedidos, verificava estoques e conciliava matérias-primas e capacidade de fábrica com os prazos de entrega. Hoje, lembra aos jovens da empresa que começou na base antes de assumir a liderança regional.

Aprender pela operação

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No início dos anos 2000, o trabalho dependia de papel, telefone e acompanhamento presencial. Rafael conciliava a operação com a formação acadêmica. De 2001 a 2003, fez pós-graduação em Administração Industrial pela Escola Politécnica da USP e pela Fundação Vanzolini. De 2009 a 2010, cursou MBA em Gestão Empresarial na Fundação Getulio Vargas.

Estudar, para ele, era preparar-se para oportunidades que ainda não tinham aparecido. A fábrica ensinava a urgência; os cursos ampliavam sua visão de finanças, estratégia e gestão. A combinação o ajudaria a passar de especialista a líder de negócios.

A primeira grande virada ocorreu no fim de 2005. A Firmenich implementava globalmente o SAP, sistema que integra planejamento, compras, produção, estoques, finanças e logística. Escolhido por sua experiência na cadeia de suprimentos, Rafael mudou-se com a família para Genebra, sede mundial da empresa.

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Quando a carreira ganhou o mundo

Em Genebra, Rafael integrou um projeto com cerca de 150 pessoas de 26 nacionalidades. Precisava negociar ideias e interpretar diferentes maneiras de trabalhar. Foi nesse período que conheceu Petra Langer, consultora alemã com quem trabalhou em Genebra, na Suíça. Certa vez, Petra lhe disse que ele havia se tornado um global player, profissional capaz de atuar entre mercados, culturas e negócios. A expressão ficou com ele.

Fora do escritório, a adaptação foi mais difícil. O inglês resolvia o trabalho, mas a vida cotidiana era em francês, idioma que Rafael não dominava. Ele permaneceu na Suíça por cerca de dois anos e meio, até o início de 2008, participando do desenho e da implantação global do sistema.

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Em 2008, surgiu outra missão ligada ao SAP, em duas unidades nos Estados Unidos. Como o trabalho em Princeton, Nova Jersey, duraria cerca de um ano, Rafael e Patrícia não transferiram novamente a família. Ele passou a vir ao Brasil um fim de semana por mês e a viver entre os dois países. A experiência lhe mostrou que adaptação vai além de idioma e processos: exige entender como culturas diferentes decidem e constroem confiança.

Permanecer sem se acomodar

Em 26 anos na empresa, Rafael ocupou 12 funções, passando por áreas como logística, planejamento, excelência de processos, demanda, cadeia de suprimentos e gestão industrial. Também atuou com S&OP (Planejamento de Vendas e Operações), processo que integra as demandas comerciais à capacidade operacional da empresa. Para ele, permanecer tanto tempo na mesma companhia nunca significou acomodação: enquanto houver aprendizado, novos desafios e oportunidades de evolução, há espaço para continuar crescendo.

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De 2011 a 2014, liderou um trabalho que reduziu em 30% os estoques na América Latina e recebeu reconhecimento global. Também ajudou a implantar o SAP na região e a estruturar processos de planejamento de demanda e integração entre vendas e operações. Mais tarde, assumiu responsabilidades por operações e cadeia de suprimentos em fábricas na Argentina, no Brasil, na Colômbia e no México.

Para Rafael, é na operação que a estratégia se prova na prática. Uma decisão não pode funcionar apenas na planilha: precisa se traduzir em segurança, qualidade, disponibilidade de matéria-prima, cumprimento de prazos e relação com o cliente. Foi nesse encontro entre estratégia e execução que ele construiu sua escola de liderança.

Da técnica à influência

No começo da carreira, ser tecnicamente bom era indispensável. Rafael precisava conhecer processos, sistemas, planejamento e fábrica. Ao avançar, percebeu que isso não bastava. Comunicação, negociação, leitura de ambiente e coragem passaram a ter o mesmo peso. O executor precisava aprender a influenciar decisões.

Durante muito tempo, ele acreditou que trabalho duro e entrega consistente garantiriam reconhecimento. Em parte, foi assim. Mas chega um ponto em que é preciso compreender as prioridades da organização, quem participa das decisões e que liderança a empresa necessita.

Essa virada ganhou força durante um processo de coaching externo. Depois de muitos anos na companhia, Rafael cogitava buscar uma experiência fora. As conversas o ajudaram a perceber uma forma de autossabotagem: ele já possuía boa parte das competências necessárias, mas precisava ajustar a estratégia, ampliar relacionamentos e assumir mais responsabilidade pelo próprio avanço.

O aprendizado foi incômodo e decisivo. Em posições executivas, não basta esperar que a entrega fale sozinha. É preciso explicar a contribuição, construir alianças e assumir protagonismo. Passar de executor a executivo, para Rafael, foi acrescentar à disciplina técnica uma visão mais ampla do negócio e das relações humanas.

Exigir sem perder o respeito

Rafael não aponta um único mentor, mas muitos exemplos. Observou líderes capazes de desenvolver pessoas e formar times, mas também conviveu com estilos baseados em pressão excessiva e pouca escuta. Os bons modelos mostraram o que cultivar; os ruins, o que não repetir.

Sua ideia de liderança combina exigência e humanidade. Rafael cobra resultados e acredita em disciplina, mas sustenta que, antes do cargo, existe uma pessoa. Ética, respeito, diversidade, empatia e verdade, diz, não são ornamentos do discurso corporativo, mas condições de uma liderança sustentável.

O executivo guarda com satisfação os retornos de profissionais que reconhecem nele uma gestão humanizada. Isso não elimina cobranças ou decisões difíceis; significa que nenhum resultado autoriza o desrespeito. A liderança, admite, também pode ser solitária. Há escolhas que não agradarão a todos, mas cuja responsabilidade não pode ser transferida. Por isso, procura ouvir antes de agir e permanecer próximo sem abrir mão de decidir.

Desenvolver jovens talentos tornou-se uma forma de retribuição. Rafael recebeu ajuda de profissionais mais experientes e procura apoiar quem começa, sem retirar de cada pessoa a responsabilidade sobre a carreira. Para explicar a ideia, recorre à academia: é preciso ganhar repertório, errar, aprender e continuar. A empresa cria oportunidades, mas ninguém desenvolve musculatura profissional apenas observando os outros.

O corpo também sustenta a carreira

Durante muitos anos, Rafael colocou a profissão no centro da vida e negligenciou a saúde. A mudança começou com a corrida: primeiro vieram os cinco quilômetros; depois, distâncias maiores, até uma maratona. Bicicleta e musculação também entraram na rotina.

O esporte trouxe equilíbrio e mudou sua relação com o trabalho. Rafael continua dedicado, mas sofre menos desde que a profissão deixou de ocupar todos os espaços. Antes do executivo, existe o Rafa: marido de Patrícia, pai de Rodrigo, torcedor do Corinthians, corredor, ciclista e amigo de poucos e bons.

Sucesso é equilíbrio

Um amigo belga, Vincent Wanet, lhe disse certa vez que não amava o trabalho, mas a vida que ele proporcionava. A frase permaneceu. Rafael cresceu vendo a profissão como o centro de tudo, influenciado pelo pai, que trabalhou até o fim da vida. Com o tempo, porém, sua definição de sucesso se ampliou.

Hoje, sucesso significa cuidar da saúde, estar emocionalmente bem, ver a família tranquila, continuar aprendendo, liderar desafios relevantes e encontrar formas de retribuir. Rafael afirma estar entrando na última grande fase da carreira corporativa. Tem energia para continuar contribuindo, mas não quer abrir mão da qualidade de vida nem do tempo para aproveitar o que o trabalho ajudou a construir.

A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e As 48 Leis do Poder, de Robert Greene, marcaram sua formação. As obras o ajudam a refletir sobre estratégia, poder e ambiente, sem abrir mão de valores que considera inegociáveis, como ética, respeito, diversidade, empatia e verdade.

Ao rever a trajetória, Rafael não a apresenta como uma sequência sem falhas. Houve erros, sacrifícios, decisões difíceis e mais de uma reinvenção. A resiliência que escolheu como síntese não é resistência cega, mas a capacidade de aprender, adaptar-se e seguir com propósito. Para quem está começando, sua mensagem é construir base, ter paciência, desenvolver repertório e assumir responsabilidade pelo próprio caminho. A oportunidade, acredita, encontra quem se prepara. Quando ela surgir, será preciso coragem para levantar a mão e dizer: “deixa comigo”.

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