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Não peçam menos do Brasil

A suspensão europeia às carnes brasileiras não é agressão. É o favor que a complacência jamais faria

Por Gustavo Diniz Junqueira 14 set 2026, 15h26
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No dia 3 de setembro, a União Europeia suspendeu a importação de carne bovina, frango, ovos, pescado e mel do Brasil. Não houve contaminação. Não houve surto. Houve algo mais grave. A direção era conhecida desde 2019, quando o bloco anunciou que estenderia às importações sua proibição de antimicrobianos como promotores de crescimento. As exigências viraram norma em 2023 e o prazo foi fixado em 2024. O Brasil proibiu as substâncias em abril e maio de 2026, a quatro meses do fim do prazo, e foi o único país reprovado. Não faltou aviso. Faltou Estado.

O episódio não é isolado. Em janeiro, Pequim impôs salvaguarda de três anos à carne bovina. A cota brasileira é de 1,1 milhão de toneladas, contra 1,7 milhão exportado em 2025, com sobretaxa de 55% acima do limite. Em agosto, 90% da cota já estava consumida. Nos Estados Unidos, a carne brasileira fora de cota paga 26,4%, e a cota isenta esgotou nos primeiros seis dias do ano.

Bruxelas regula. Washington tarifa. Pequim administra o acesso. Métodos diferentes, mesma realidade. O comércio internacional voltou a ser extensão explícita do poder dos Estados.

O contraste com o desempenho produtivo é constrangedor. O agronegócio brasileiro exportou US$ 169 bilhões em 2025, recorde histórico, quase metade de tudo o que o país vendeu ao exterior. Só a China comprou US$ 55 bilhões. Eis o paradoxo que esse número esconde. O Brasil venceu na fronteira da produtividade e permanece amador na fronteira do poder. O recorde veio da fazenda, não da negociação. Enquanto o comércio era regido por regras multilaterais, isso bastava. Não basta mais.

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O caso europeu expõe o mecanismo. Um bovino leva até três anos do nascimento ao abate. Atender à exigência significa identificar o animal, controlar medicamentos e documentar toda a vida produtiva. É investimento cujo retorno chega em 2029. Nenhum produtor o fará sem previsibilidade de acesso ao mercado no fim do ciclo. Nenhum frigorífico pode garanti-la sozinho. Esse espaço entre o investimento privado e o mercado futuro é o território da diplomacia econômica.

Os Estados Unidos compreenderam isso em 1962, quando o Trade Expansion Act criou um representante comercial junto à Presidência, embrião do USTR. A premissa era simples. Antes de negociar com o mundo, uma nação organiza seus próprios interesses.

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O Brasil tem diplomatas competentes, quarenta adidos agrícolas, agências de promoção e ministérios experientes. O que não tem é comando. Cada crise encontra o país fragmentado, reativo, surpreso. O governo declarou surpresa com a decisão europeia. Surpresa, diante de um calendário fixado em 2024, é confissão. O setor alega prazos incompatíveis com o ciclo bovino e protocolos enviados sem resposta. A objeção tem mérito parcial e um limite claro. Concorrentes do Brasil, sujeitos ao mesmo calendário e ao mesmo ciclo biológico, permaneceram na lista.

Aqui entra a parte incômoda deste artigo, que escrevo como brasileiro. A história sugere que o Brasil raramente se reforma por convicção. Moderniza-se sob constrangimento. Foi a hiperinflação que produziu o Plano Real. Foi o embargo europeu de 2008 que criou o sistema de fazendas habilitadas e rastreadas para exportação. A decisão de setembro, vista sem orgulho ferido, não é agressão. É informação. Revelou em quatro meses o que décadas de diagnósticos internos jamais converteram em ação.

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Por isso este texto se dirige menos a Brasília do que a Bruxelas, Washington e Pequim. Não peçam menos do Brasil. Peçam com clareza, critérios técnicos e prazos previsíveis. E cumpram o que prometem do outro lado. Regras duras, transparentes e estáveis fazem pelo Brasil o que a complacência jamais fará. Forçam o país a transformar capacidade dispersa em estratégia de Estado, com comando único e mandato negociador.

O mundo tem interesse direto nesse desfecho. O rebanho americano é o menor desde 1951 e a carne subiu 13% no varejo dos Estados Unidos em um ano. Washington precisou abrir cota emergencial de 300 mil toneladas justamente para a proteína que tarifa. A renda asiática segue elevando a demanda por alimentos. O Brasil é um dos poucos países capazes de expandir oferta com escala, tecnologia e competitividade. Um Brasil que aprende a negociar não é um concorrente mais duro. É um pilar mais confiável da segurança alimentar global.

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Durante décadas, infraestrutura de comércio exterior significou porto, ferrovia e armazém. Diplomacia econômica também é infraestrutura. Se os líderes brasileiros não a construírem por convicção, que o mundo os obrigue por exigência. Para um país com a vocação do Brasil, o pior cenário não é a cobrança. É a indulgência.

Gustavo Diniz Junqueira é empresário no agronegócio, foi secretário de Agricultura do Estado de São Paulo (2019-2021) e Presidente da Sociedade Rural Brasileira (2014-2017)

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