Retiros para uma vida longa. E boa
Spas médicos de redes de hospitalidade redefinem as férias com protocolos de saúde voltados a longevidade e performance cognitiva
A ideia de férias como pausa passiva, dias de descanso à beira da piscina, massagens e celular fora do alcance está rapidamente ficando para trás. No topo da pirâmide de consumo, executivos e indivíduos de altíssimo patrimônio começam a redesenhar o próprio conceito de luxo intangível. O tempo livre deixa de ser apenas de descanso e passa a ser um ativo estratégico de saúde. Nesse novo vocabulário, o objetivo não é mais o relaxamento, mas obter ganhos concretos em longevidade, performance cognitiva e equilíbrio metabólico. O que se consolida hoje é uma infraestrutura em que ciência de saúde preventiva e hospitalidade operam de forma integrada. O conceito de wellness mais atual prega que é preciso sentir — e não exibir.
No Palazzo Fiuggi, um spa médico localizado na cidade italiana de Fiuggi, conhecida por suas propriedades termais, o hóspede troca o tradicional check-in por uma avaliação com o doutor Fabrizio Di Salvio, que cria, junto com uma equipe de especialistas, uma temporada de procedimentos que têm na água seu principal ativo. “Não se trata de viver mais, mas viver melhor, e a combinação de tratamentos, comida e movimento traz a longevidade sonhada”, afirma Di Salvio.
Terapias chinesas, banhos em piscinas com magnésio e sala com parede de sal estão entre as atividades do programa. A gastronomia balanceada é um dos destaques da experiência, com direito até a risoto, e refeições preparadas com produtos locais, sob o comando do chef Heinz Beck, do restaurante romano La Pergola, três estrelas Michelin. Criado pelo empresário italiano Lorenzo Giannuzzi, em 2021, o projeto marcou a transformação do histórico palácio em um spa médico de luxo contemporâneo, aproveitando a arquitetura do local, que já foi frequentado pela realeza italiana e por celebridades como Ingrid Bergman (1915-1982), Sophia Loren e Oprah Winfrey. O destino faz sucesso entre clientes do Oriente Médio, que buscam experiências para casais, mas com tratamentos individualizados em salas separadas. Na propriedade, que tem 8 hectares e jardins cultivados com esmero, a sensação é de levitar pelos ambientes minimalistas, decorados com mármores, estátuas e afrescos.
No Marrocos, o Medi-Spa Royal Mansour Tamuda Bay, reconhecido com o SPA Award 2026, distinção internacional que celebra a excelência em terapias de bem-estar, se consolidou como uma das referências globais no assunto. Localizado na chamada “Riviera marroquina”, o espaço aposta em programas estruturados de intervenção no estilo de vida, desenhados como ciclos de reorganização fisiológica e comportamental. “Depois da pandemia, houve uma mudança clara no comportamento dos clientes. Eles não querem apenas férias, buscam investir tempo também na saúde”, afirma o Dr. Rajarajachozhan Ramachandran, naturopata indiano que trabalha para o complexo. O sistema se baseia em cinco pilares: metabolismo, nutrição, fitness, sono e recuperação, além de estresse e emoções. Eles começam com uma avaliação clínica detalhada e evoluem para planos individualizados que combinam cuidados estéticos e abordagens holísticas. A experiência é dividida em diagnóstico, intervenção e revitalização, com estadias que variam de poucos dias a duas semanas. Em alguns casos, dietas personalizadas podem permitir apenas 850 a 1 500 calorias diárias, além de jejum, massagens, acupuntura, ioga e pilates. O acompanhamento continua após a estadia, por até três meses. “Queremos garantir que o cliente consiga manter as mudanças no dia a dia”, diz David Lestelle, diretor do Royal Mansour Tamuda Bay.
Se o Tamuda Bay representa uma nova fronteira no norte da África, a Suíça segue como eixo histórico dessa economia da longevidade. Às margens do Lago Léman, a Clinique La Prairie, criada em 1931, consolidou-se como uma das instituições mais influentes do mundo em medicina preventiva. O sucesso levou ao lançamento de cosméticos de skincare da marca na década de 1970. Fundada em 1931 pelo suíço Paul Niehans (1882-1971), médico que desenvolveu a terapia celular, a clínica estruturou um modelo baseado em nutrição personalizada, bem-estar integrativo e movimento. Hoje combina análises genéticas e bioquímicas com protocolos de otimização metabólica. Os programas incluem desde detox e controle de peso até intervenções focadas em performance cognitiva, apoiados por tecnologias avançadas. A marca vem expandindo sua presença global com novos centros na Ásia e no Oriente Médio, em cidades como Dubai e Doha. Na Clinique La Prairie, os programas de uma semana começam em cerca de 95 000 reais e podem beirar 200 000.
Em paralelo, a SHA Wellness Clinic se posiciona como um polo guiado por dados dessa nova economia. Com sedes na Espanha e no México, além de abertura prevista para 2028 nos Emirados Árabes, a empresa foi fundada pelo empresário Alfredo Bataller, baseada numa transformação pessoal após enfrentar um câncer, o que moldou sua visão de saúde regenerativa. Nesse contexto, a doutora Mariel Silva, especialista em longevidade saudável e diretora médica da unidade espanhola, afirma que o conceito de longevidade requer rigor e cuidado na comunicação. “Não existem fórmulas milagrosas, prevenir doenças exige tempo e continuidade”, diz Mariel. Uma semana no SHA custa 53 000 reais.
No outro extremo desse espectro, a Six Senses, do grupo IHG Hotels & Resorts, apresenta uma experiência que combina ciência e práticas sensoriais em um portfólio global em expansão. “Hoje, saúde, tempo e conexões humanas genuínas são os verdadeiros símbolos de status. Isso tem menos a ver com excesso e mais com intenção, uma forma mais silenciosa de luxo”, afirma Mark Sands, vice-presidente de Wellness da marca. Segundo ele, a demanda entre viajantes de alto padrão está cada vez mais associada ao biohacking, termo que designa a otimização corpo-mente por meio de hábitos, tecnologia e dados biológicos. O Six Senses Vana, em Dehradun, na Índia, e o novo Six Senses Place, em Londres, são exemplos do conceito. “Os hóspedes se comprometem com a experiência e saem transformados. Não é algo passageiro, mas uma presença de apoio na vida cotidiana”, diz. A propriedade não negocia pacotes fechados, mas programas avulsos. O check-up custa cerca de 950 reais, além da diária a partir de 5 300 reais por noite.
Em conjunto, os spas médicos desenham um mesmo mapa global ainda em formação. Segundo relatório da consultoria global Euromonitor, experiência e propósito já definem o valor da viagem contemporânea. Investir no tempo de vida é o novo mote do turismo.
Não se passa fome em um spa italiano
No Palazzo Fiuggi, localizado no Lácio, o bem-estar é tratado como ciência e a experiência do luxo passa pela precisão médica e pela calma absoluta dos ambientes e da paisagem
Passar um dia no Palazzo Fiuggi é viver uma imersão em um luxo “silencioso”, em que bem-estar e precisão médica moldam cada detalhe da experiência. Antes de iniciar o programa, tive, como todo hóspede, de me submeter a uma consulta completa que define um plano personalizado de tratamentos, alimentação e atividades ao longo da estadia.
Os quartos são elegantemente decorados com mobília italiana, roupa de cama em algodão sofisticado, banheiros amplos com ducha e banheira e vistas da paisagem verde de Fiuggi, uma estância a 80 quilômetros de Roma. Tudo em uma paleta suave, em tons de creme, rosa e cinza, uma estética que reforça a atmosfera de calma e tranquilidade. Há frigobar, mas sem bebidas alcoólicas, para combinar com a proposta do ambiente saudável. O spa funciona como núcleo central da experiência, com piscinas termais, áreas de relaxamento e salas dedicadas a massagens e terapias regenerativas. Há também uma biblioteca onde se serve o lanche da tarde, sempre acompanhado de chá. A trilha sonora do ambiente é cuidadosamente selecionada para induzir um estado de relaxamento profundo, quase de levitação, reforçando a sensação de suspensão do tempo.
O restaurante é especial. As refeições começam com um shot de suco de gengibre, pensado como estímulo metabólico inicial. A água é servida em garrafas com infusão de pedras minerais. A gastronomia, assinada pelo chef Michelin Heinz Beck, segue a lógica da “comida como remédio”: refeições leves com peixe, legumes e sopas. Mas o cardápio inclui risoto. É a Itália, e aqui não se passa fome nem dentro de um spa.
Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27







