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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

Sherlock às avessas

O PT busca culpados pelos juros em tudo, exceto no gasto público

Por Alexandre Schwartsman 10 jul 2026, 06h00
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Não faltam ideias esdrúxulas para tentar reduzir a elevadíssima taxa de juros com que convivemos no Brasil. Uma passada de olhos pelo programa do PT, em elaboração (se cabe aqui o termo), nos oferece um verdadeiro zoológico, que vai de controle de capitais a estoques reguladores, passando por intervenções no mercado de câmbio.

Em momento algum, diga-se, passa perto da questão do gasto público, exceto, é claro, para reclamar das restrições impostas pelo arcabouço fiscal, que, como sabemos, jamais ofereceu qualquer obstáculo à expansão contínua da despesa.

E, no entanto, poucas coisas são mais claras hoje do que o papel do gasto na determinação da taxa real de juros. Tomemos o que vem ocorrendo com a política monetária. A taxa básica de juros chegou a 15% ao ano, fenômeno que, como de hábito, teve sua responsabilidade atribuída a terceiros, no caso a Roberto Campos Neto, muito embora ele já não estivesse na presidência do BC quando a Selic atingiu aquele nível.

“A taxa básica chegará a 14% ao ano e o Copom indicou que em algum momento irá pausar o ciclo”

No começo deste ano, porém, o Comitê de Política Monetária, Copom, anunciou que iniciaria um ciclo de redução de juros. Naquele momento a expectativa predominante era de que a Selic cairia a 12% ao ano, ou um pouco menos, em torno de 0,5 ponto percentual por reunião do Copom.

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Hoje, contudo, o cenário é bem distinto. O consenso sugere que a taxa básica de juros chegará a 14% ao ano e o Copom indicou que em algum momento terá que pausar o ciclo.

É verdade que houve o choque do petróleo no meio do caminho, que deverá fazer com que a inflação de 2026 mais uma vez supere o limite superior do intervalo de tolerância da meta. Isso dito, porém, o petróleo explica pouco da mudança de perspectiva.

Em primeiro lugar porque seus efeitos estão circunscritos, em princípio, a 2026. Não é segredo, todavia, que o Copom já não mirava a inflação de 2026 havia algum tempo. A decisão tomada na reunião de junho, por exemplo, explicitamente mencionava a inflação de 2027, na verdade estendendo o horizonte do BC um pouco mais longe, para os doze meses até março de 2028, quando os efeitos de preços de combustíveis já terão se dissipado. Mesmo naquele horizonte, porém, a inflação projetada pelo BC supera a meta. Adicionalmente, a inspeção das medidas de inflação que removem os efeitos de preços de combustíveis, alimentos e outros preços voláteis (“núcleos”) revela que a aceleração inflacionária recente compreende produtos muito além dos afetados pelo choque, incluindo crucialmente os serviços.

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Tal contexto aponta para uma economia superaquecida como principal causa do fenômeno, apesar da elevada taxa de juros, o que, a propósito, também é admitido pelo BC.

Superaquecimento com juros de 14,25% ao ano só pode ser explicado pelo impulso, ou melhor, impulsos originados das políticas do governo em busca da reeleição, que, de forma explícita ou disfarçada, passam pelo aumento do gasto público, outro aspecto sublinhado pela comunicação mais recente do Copom.

Enquanto o PT busca culpados pela elevada taxa de juros, sua política atua no sentido de elevá-la ainda mais. A prevalecerem as ideias em gestação (ou ressurreição) em seu programa, teremos que conviver muitos anos com esse problema; a culpa, naturalmente, continuará sendo dos outros.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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