As taxas internacionais de juros vêm subindo visivelmente. O principal marco de referência no mercado — a taxa do título de dez anos do Tesouro americano —, que se encontrava ao redor de 4,2% ao ano no primeiro trimestre de 2026, agora supera 5% ao ano, o patamar mais elevado desde meados de 2007, ainda antes da grande crise financeira internacional.
É necessário entender tanto a origem do movimento, em particular sua persistência, quanto possíveis impactos sobre o Brasil.
Embora seja tentador associá-lo ao conflito no Oriente Médio, portanto, ao aumento do preço do petróleo e aos receios quanto à inflação, temo que o problema seja mais profundo. Por mais que haja efeitos do petróleo tanto sobre a inflação corrente quanto sobre expectativas inflacionárias para os próximos meses, não há indicação de que tal fenômeno tenha contaminado as expectativas para dez anos.
A inflação esperada para aquele período, que rodava em torno de 2,2% ao ano no primeiro trimestre de 2026, agora se encontra ao redor de 2,3% ao ano, isto é, a maior parcela da elevação das taxas de juros naquele horizonte não reflete (ainda?) a percepção de inflação mais alta, mas uma taxa real de juros crescente.
O principal suspeito no caso me parece ser a forte elevação dos investimentos dos chamados hyperscalers, as empresas que operam os centros de dados (data centers) que alimentam os modelos de inteligência artificial (IA).
“Com custo de capital mais alto, a dívida pública pode crescer mais rápido e os investimentos podem ficar mais caros”
Dados recentes revelam que desde 2025 os investimentos dessas empresas superaram de forma consistente sua geração de recursos próprios. Não apenas passaram a ter que ir ao mercado de títulos para cobrir suas necessidades de financiamento como deixaram de ofertar sua sobra de caixa. Em 2025, investiram 415 bilhões de dólares ante uma geração de caixa de 603 bilhões. Em 2026, espera-se que invistam 800 bilhões de dólares diante de geração de 707 bilhões. A sobra de 188 bilhões no ano passado se transformaria em carência de 93 bilhões de dólares neste ano, aumento líquido de 281 bilhões de dólares em termos de necessidade de financiamento.
O mesmo estudo que documenta este processo (Financing the AI Buildout, de Stijn van Nieuwerburgh) estima que investimentos em IA de 2025 a 2032 atinjam em torno de 3,6% do PIB americano. Isso superaria, com folga, os associados ao ciclo das ferrovias no final do século XIX, que chegou a 2,2% do PIB, até hoje os maiores da história.
Se a causa for mesmo essa, a elevação dos juros não é um fenômeno transitório, associado a um conflito localizado, ainda que relevante, mas uma alteração persistente no cenário global.
Isso dito, há também indicações bastante sólidas acerca dos impactos das taxas reais de juros nos Estados Unidos sobre suas contrapartes brasileiras. Estimamos que cada ponto percentual a mais de juro real nos EUA eleve as taxas locais em torno de 0,7 ponto percentual.
Vale dizer, além do componente local de juros, associado à trajetória de endividamento crescente, teríamos que enfrentar também o aumento global do custo de capital. A dívida pública aumentaria mais rápido e os investimentos ficariam mais caros.
A questão fiscal se torna, assim, mais urgente; exceto, é claro, para os principais candidatos à Presidência da República, que seguem ignorando-a em nome das conveniências eleitorais.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015







