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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

Cérebros sem lavagem

O eleitor não precisa ser adestrado para votar

Por Alexandre Schwartsman 15 Maio 2026, 06h00 | Atualizado em 15 Maio 2026, 10h30

Hostes governistas estão perplexas. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad atribui o empate técnico nas pesquisas entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro à “lavagem cerebral coletiva”. Já economistas ligados ao PT levantam todo tipo de hipótese, das redes sociais aos portais de compras internacionais, para explicar a insatisfação popular com a economia que eles mesmos consideram inexplicável.

Não creio que seja exatamente um esforço concentrado para melhorar a percepção acerca do governo — mesmo porque a arrogância implícita na avaliação provavelmente teria o efeito oposto. Todavia, refletem, acredito, uma crença comum: a “plebe rude e ignara” não tem condições de perceber por si só as extraordinárias qualidades da administração petista. É necessário que uma vanguarda popular explique para a população como ela deveria se sentir (extremamente grata, claro) e agir de acordo, isto é, votando pela reeleição do presidente.

Obviamente, a menos de seis meses das eleições, pesquisas querem dizer menos do que gostaríamos que dissessem, forma mais ou menos polida de alertar o leitor que não sei, nem tenho condições de saber, o resultado delas. Isso, porém, não me impede de notar o paradoxo, de resto para lá de visível: quando votam no meu partido, as pessoas são iluminadas; quando não, é necessário erguê-las do poço de ignorância em que se encontram.

“As pessoas sabem mais o que sentem do que burocratas iluminados ou habitantes da torre de marfim”

A verdade é que as pessoas sabem mais como se sentem do que burocratas iluminados e habitantes da torre de marfim. Não quero dizer que avaliam variáveis econômicas, como a taxa de desemprego, as taxas de inflação (nas quais, diga-se, não acreditam), muito menos variáveis longínquas do dia a dia, como o endividamento público e o balanço de pagamentos. Estão mais bem posicionadas, contudo, para perceber o que funciona e o que não funciona no cotidiano. Não se trata apenas de ter um emprego ou uma fonte de renda, mas também de avaliar a qualidade e a segurança que o governo oferece. As perspectivas acerca do futuro importam tanto, ou talvez até mais, que a situação corrente.

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Por fim, muito embora eu me sinta mais à vontade comentando assuntos econômicos e, concretamente, seja este o meu ganha-pão, tal perspectiva se encontra longe de esgotar as diferentes dimensões segundo as quais as pessoas avaliam suas vidas e a responsabilidade do governo de plantão em cada uma delas.

Sem me arriscar muito, diria que segurança, saúde e serviços públicos de maneira geral fazem parte da equação e, inclusive, seus pesos na determinação geral do que se convencionou chamar de satisfação, ou bem-estar, podem variar ao longo do tempo. Também nesses aspectos me parece que as pessoas têm mais a dizer do que tecnocratas e intelectuais. Não se trata, portanto, de ensinar as pessoas como elas estão bem e felizes, mas de tentar entender suas fontes de insatisfação, incluindo, em particular, aquelas que se originam dos dogmas políticos do governo, como ilustrado pela péssima recepção à proposta de regular serviços de entrega e transporte. Cérebros não precisam ser lavados para pensar de forma autônoma; costumam fazê-lo diariamente.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995

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