Não resta dúvida que o país tem um sério problema com as contas públicas. Até o presidente do PT, em entrevista à CNN, afirmou que Lula “terá como prioridade uma reforma do Estado para reduzir gastos”. Obviamente ninguém precisa acreditar nisso — eu duvido e faço pouco —, mas, se hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, quando mesmo políticos notoriamente alérgicos à responsabilidade orçamentária se fingem de “fiscalistas” é sinal de que as coisas estão bem complicadas.
Já Flávio Bolsonaro acena com corte de gastos equivalente a 1,5% do PIB (cerca de 200 bilhões de reais) em 2027. Muito embora seja passo importante na direção correta, não está claro como chegaria a esse valor.
Comecemos pelo básico. Segundo as projeções mais recentes, o governo federal deve gastar em 2026 algo como 2,6 trilhões de reais. Nesse enorme universo, deveria ser relativamente fácil achar 200 bilhões de despesas passíveis de corte, certo? Não.
“Não adianta prometer uma ‘reforma do Estado’ sem especificar como seria essa reforma”
A despesa discricionária do governo, isto é, aquela que ele não é obrigado por lei a realizar, é prevista em 244 bilhões de reais neste ano (266 bilhões no ano que vem). Isso compreende todo investimento federal, assim como o custeio da máquina pública. Boa sorte tentando resolver o nó por aí. Já os 2,4 trilhões de reais restantes têm nome e endereço. Previdência (1,1 trilhão), funcionalismo (445 bilhões), programas sociais (400 bilhões) e mínimos constitucionais para saúde e educação (190 bilhões), dentre outros, respondem pela maior parcela da despesa obrigatória. O nome do jogo, portanto, é controlar esses gastos; o resto é manobra diversionária.
Não adianta prometer “reforma do Estado” sem especificar que reforma seria essa, nem jurar que a despesa será reduzida em 200 bilhões no ano que vem, enquanto se mantém silêncio obsequioso acerca de como chegaríamos lá. Obviamente, embora economista, não sou ingênuo o suficiente para crer que candidatos darão pistas concretas do que pretendem fazer (presumindo que o saibam) às vésperas da eleição, ainda mais no caso da luta renhida que ocorrerá no segundo turno. Dadas as lorotas (“fim do Pix”, por exemplo) que hoje circulam nas redes sociais, ninguém com o mínimo de sentido político pode se dar ao luxo de ser sério, uma das contradições mais antigas da democracia (o termo “demagogo”, além da mesma raiz, compartilha com a democracia também a origem). Ficamos, portanto, no escuro quanto à execução das promessas, se é que serão cumpridas.
Deve ficar claro, contudo, que a ideia, acalentada por uns, odiada por outros, de um ajuste de gastos como o realizado na Argentina, ao final de 2023 e início de 2024, é inexequível nestas plagas. Muito por força da rigidez do orçamento acima explicitada; muito também porque boa parte do ajuste platino só foi possível porque o governo anterior havia permitido uma explosão inflacionária, contexto em que a rigidez se dissolve, mas não pelas melhores razões.
Como não queremos que a inflação faça o trabalho sujo de ajustar as contas, será necessário alterar as regras que determinam a evolução dos gastos. É compreensível que candidatos prefiram não dizer isso antes da eleição. O problema é que, depois dela, a aritmética continuará indiferente às conveniências políticas.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017







