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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

A nova tempestade perfeita

Expressão foi cunhada pelo ex-ministro Delfim Netto para indicar que tudo ainda podia piorar muito

Por Thomas Traumann Atualizado em 29 jul 2020, 10h19 - Publicado em 11 Maio 2020, 18h17

Em outubro de 2013, quando as coisas já estavam ruins, mas pareciam ter jeito, o ex-ministro Delfim Netto cunhou a expressão “tempestade perfeita” para indicar que tudo ainda podia piorar muito. Ele tinha razão. Passado quase sete anos, Tempestade Perfeita é a expressão adequada também para as tormentas que o Brasil irá enfrentar nos próximos meses.

– Pelos registros formais, a Covid-19 já matou mais de 11 mil pessoas, com mais de 156 mil infectados pelo vírus. O Brasil já é o terceiro país do mundo com maior velocidade de propagação do coronavírus, atrás apenas de EUA e Reino Unido. A curva do número de casos está subindo e as medidas de restrições tem se mostrado insuficientes.

– A postura negacionista do presidente e a desorganização entre União, Estados e Municípios na condução da pandemia cobram um preço. O Estado de São Paulo adiou a liberação de empresas e escolas, enquanto Santa Catarina, que iniciou a desinterdição, teve aumento expressivo no número de casos. Fortaleza e Niterói terão bloqueio completo, enquanto Porto Alegre primeiro permitiu e depois proibiu treinos dos times do Internacional e do Grêmio. É uma bagunça.

– Os primeiros indicadores dos efeitos da Covid-19 na economia são desastrosos. A produção industrial desabou, houve deflação em março e 20 milhões se cadastraram, mas não foram aceitos para receber o auxílio emergencial.

– As empresas estão sufocadas por falta de crédito e os grandes bancos comerciais aumentaram a fatia de empréstimos para grandes empresas, reduzindo para médias e pequenas. Com autorização do Congresso e boa dose de voluntarismo, o Banco Central vai intervir no mercado de crédito.

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– Com a recessão só no início, o Banco Central vai concentrar esforços na demanda interna e abandonou qualquer meta de câmbio. Dólar a R$6 virou piso de um mercado volátil.

– O ministro da economia está enfraquecido. Sem que Paulo Guedes fosse consultado, mas com autorização do presidente, o Congresso aprovou uma festa da uva para servidores públicos que afeta o resultados dos próximos anos. Bolsonaro prometeu vetar a lei, mas isso desagradaria seus novos melhores amigos do Centrão. Melhor esperar sair no Diário Oficial.

– Na semana passada, depois de uma ameaça de Bolsonaro em desrespeitar decisão do STF, o Ministério da Defesa se viu na posição de afirmar publicamente que “Marinha, Exército e Força Aérea são organismos de Estado”, e, portanto, não pertencem a um governo ou presidente específico.

– O STF e a PF mostram pressa no processo que investiga a denúncia do ex-ministro Sergio Moro de interferência presidencial na Polícia Federal.

Para virar uma Tempestade Perfeita falta uma convulsão social. Mas com o colapso anunciado nos hospitais com a propagação da contaminação do coronavírus e a velocidade da recessão esta é uma possibilidade real para os próximos meses.

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