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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

Redescobrindo nossos heróis

Precisamos de pessoas que nos iluminem pelo exemplo

Por Murillo de Aragão - Atualizado em 18 set 2020, 16h24 - Publicado em 18 set 2020, 06h00

O livro de Larry Rohter sobre o marechal Cândido Rondon (Uma Biografia, editora Objetiva, 2019) nos impõe uma reflexão. Como alguém tão relevante na história do Brasil tem o seu valor social tão pouco reconhecido? Fora dos círculos específicos, Rondon é lembrado apenas pelo apreço que tinha aos índios e pelo projeto que leva universitários ao sertão bruto e às florestas e que ganhou seu nome.

Poucos sabem de sua tarefa monumental de ligar o Brasil com redes de telégrafo através das florestas, além de visitar regiões nunca desbravadas. Quais as causas da falta de admiração por Rondon? Uma delas, sem dúvida, é a de ter sido militar e partícipe ativo dos movimentos republicanos e do tenentismo, além de ser positivista. Tais fatos o colocam em uma situação desfavorável em meio à “intelligentsia” nacional.

Exaltado no regime militar, Rondon não poderia ser também festejado pela oposição, que adota a estratégia de “desinstitucionalizar” o que não interessa ao projeto político das esquerdas. Por que prestigiar os militares que, no limite, sempre foram a barreira essencial à esquerdização no país?

A pouca valorização de Rondon nos revela que certos heróis são considerados desnecessários por não interessarem aos círculos que se veem como progressistas. Tais grupos tampouco lembram que o Exército foi capaz de educar, formar e promover a marechal, por seus méritos, um mestiço que saiu dos confins do Brasil para desbravá-lo e integrá-lo. Talvez nenhuma instituição tenha sido mais importante para incluir os desfavorecidos na sociedade brasileira.

“Uma nação é feita de referências, acima das preferências ideológicas e de projetos de poder”

A relativização do herói nacional também atinge aqueles que deveriam ser exaltados pelos politicamente corretos, mas não o são. É o caso do engenheiro e abolicionista André Rebouças, que, por ser monarquista, teve seu papel diminuído na República. Mesmo tendo resolvido o problema do fornecimento de água no Rio de Janeiro, ter inventado armas utilizadas pelo Brasil na Guerra do Paraguai e ter projetado e construído a ferrovia Curitiba-Paranaguá, em uso até hoje.

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Ao não reconhecer Rondon e Rebouças em sua dimensão, o Brasil mostra uma face parcial, tendenciosa e autoritária. Ou seja, se não é a favor de meus interesses não merece admiração. No raso, a manipulação dos heróis e, em alguns casos, a redução de sua importância são a forma de contar a história a favor de uma causa. O que está mais para estória do que para história.

Bertolt Brecht disse que “feliz o país que não precisa de heróis”. Em um cenário ideal, sem heróis, todos seriam heróis. Porém, em tempos de predomínio da geração Y, o heroísmo está mais identificado com o sucesso individual do que com o esforço coletivo, do qual depende o futuro de uma nação.

Ao longo da pandemia de Covid-19, milhares de pessoas têm se dedicado a cuidar dos infectados, enterrar os mortos e manter o país em funcionamento. Devemos olhar para esses heróis públicos e anônimos. Uma nação é feita de exemplos e de referências, como Rondon e muitos outros. Acima de preferências ideológicas e de projetos de poder.

Publicado em VEJA de 23 de setembro de 2020, edição nº 2705

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