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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

Eleições e previsibilidade

O capitalismo de mercado deve ser considerado no cálculo político

Por Murillo de Aragão Atualizado em 22 out 2021, 09h42 - Publicado em 24 out 2021, 08h00

Desde a redemocratização, as eleições gerais no Brasil são motivo de preocupação para o mercado, para quem investe e para quem emprega. A preocupação tem origem na possibilidade de o novo presidente adotar políticas anti-investimentos e populistas. Alguns vizinhos nos dão exemplos negativos, caso da Argentina, que não consegue sair dos anos 80, e da Venezuela, que naufraga em um socialismo de fome para a maioria.

As ameaças socialistas do primeiro mandato de François Mitterrand levaram muitos franceses a abandonar o país rumo à Suíça. No segundo mandato, ele já havia entendido a dinâmica do mercado e dos interesses e passou a administrar de forma mais previsível. O capitalismo de mercado, ainda que imperfeito e sujeito a intervenções, está dado e deve ser considerado no cálculo político.

Nos próximos meses, a relação entre a política, as eleições e o mercado será, no mínimo, interessante no Brasil. E certamente intensa. A volatilidade das especulações será alimentada tanto pelas expectativas eleitoreiras quanto pelos riscos associados à imprevisibilidade. Quanto mais confiável for o ponteiro da campanha, mais calmo estará o mercado. E vice-versa. Em 2002, Lula comprou previsibilidade levando um empresário para a sua chapa e produzindo a Carta aos Brasileiros. Em 2018, Jair Bolsonaro trouxe consigo Paulo Guedes, seu “Posto Ipiranga”, para transmitir segurança econômica.

“Não há força política relevante que pense em propor ideias que tragam retrocesso à agenda reformista”

Em 2022, a situação será diferente, ainda que não se tenha uma percepção clara de quão diferentes das anteriores serão as próximas eleições. Cada disputa tem suas características. Porém, a análise da relação entre as eleições e o mercado deve estar centrada em dois fatores novos, básicos e essenciais: a independência do Banco Central e a maior autonomia do Congresso Nacional na tomada de decisões de repercussão econômica.

Na prática, a política econômica de hoje é gerida por uma espécie de triunvirato: Banco Central, Ministério da Economia e Congresso. A volatilidade das eleições passadas era mais condicionada ao comportamento do presidente. Em 2022, continuará submetida ao comportamento e às declarações do presidente, mas também à inter-relação dos três focos de poder e ao modo como o mercado percebe tal dinâmica. Para o investidor consciente e mais informado, o Brasil permanecerá gerando mais luz que calor em termos de problemas. E as oportunidades continuarão sendo oferecidas aos que tiverem visão estratégica e sangue-frio.

Isso porque, salvo as franjas do radicalismo, que pouca ou nenhuma chance tem de ganhar eleições, não há força relevante que pense em propor ideias que tragam retrocesso à agenda reformista posta. Mesmo o PT, que foi contra a Constituição, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o teto de gastos, as reformas trabalhista e previdenciária, a autonomia do Banco Central e as privatizações, não teria ânimo nem força para reverter tais processos. Até porque seriam altamente prejudiciais a uma eventual futura gestão petista.

Os marcos institucionais e a gestão responsável das reservas em moeda forte poderão propiciar, para além de 2022, a devida segurança para que investimentos gerem emprego, renda, tributos e divisas. O eleitor quer a mesma agenda, traduzida em poder de compra e previsibilidade no cotidiano. Mercado, políticos e candidatos não devem perder isso de vista.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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