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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Avisem Guedes que os invisíveis não dependem de seu olhar para existir

Sem auxílio emergencial nem ampliação dos programas sociais, população pobre terá mais peso na economia do que parece perceber o ministro

Por Marcos Emílio Gomes Atualizado em 31 dez 2020, 10h58 - Publicado em 30 dez 2020, 18h24

No ano em que não pudemos respirar, soubemos também que para o ministro Paulo Guedes eram “invisíveis” pelo menos 40 milhões de brasileiros que apareceram no caixa federal para retirar o emplastro financeiro criado para contornar as perdas dos mais desiguais com a paralisação econômica determinada pela emergência sanitária.

Fomos assim informados que o ministro cosmopolita jamais se aventurou além das superquadras do Plano Piloto, no Distrito Federal, das divisas além-Jardins, em São Paulo, ou dos limites do Leblon, no Rio, onde morava, trabalhava, caminhava e provavelmente não olhava para cima, na direção do morro do Vidigal, cuja favela serve de moldura para parte da zona sul carioca.

O Brasil que vai – ou ia – pela cabeça de Paulo Guedes não materializava como pessoas os números estampados nas estatísticas que já informavam, antes da pandemia, sobre a existência, no total da força de trabalho, de 12% de desempregados e 6% de desalentados (que desistiram de buscar ocupação), num panorama econômico de 41% de informalidade.

Há uma piada segundo a qual torna-se economista o sujeito que seria engenheiro se tivesse pendores para a aritmética. O ministro, porém, bem sabia fazer contas quando era banqueiro e o problema era multiplicar dinheiro. Sua dificuldade é apenas contar miseráveis e dividir recursos.

Diante da demanda de prolongar o auxílio emergencial ou criar um programa permanente mais amplo, para atender aos sonhos reeleitorais de Bolsonaro e, ao mesmo tempo, amenizar a dramática disparidade social no país, só apresentou balões de ensaio, sempre desautorizados ou classificados como mera especulação interna da pasta – como se fosse para especular que se pagam os funcionários do ministério.

Depois de ensaiar congelamento da renda de aposentados, redução nos recursos do fundo da educação, tunga nos pagamentos de precatórios, despojo em outros programas sociais e recriação do imposto sobre movimentações financeiras, Paulo Guedes chega à metade do mandato do presidente como um posto de combustível adulterado, sem imaginar qualquer maneira de atacar o principal problema econômico do país, resumido na desigualdade e apenas agravado pela disseminação da Covid-19.

Até seu chefe concluiu que sua abordagem não ia além da possibilidade de tirar dos rotos para contemplar os rasgados.

A criatividade reformista do ministro não alcança possibilidades como a revisão da tributação de transferências patrimoniais, fim de subsídios a setores econômicos que os transformam em lucro líquido, reorganização administrativa que contenha o crescimento de salários na elite do funcionalismo, cortes orçamentários em centros de custos como as Forças Armadas ou mesmo a reordenação do imposto de renda para taxar de verdade retiradas de dividendos – assunto que aborda mas efetivamente não ataca.

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Os temas que o titular da economia vem tratando desde que assumiu o ministério são essenciais para o Brasil e, em tempos normais, seriam naturalmente as pastas prioritárias sobre sua mesa. A crise do coronavírus, porém, mudou muito esse cenário, mas Guedes age como tudo caminhasse como sempre.

Com isso, no ano em que diversos países poderão talvez voltar a respirar sem tapar o nariz e a boca, já se sabe que aqui não haverá nem ar em quantidades iguais para todos. O novo ano será pior do que 2020 porque, ainda que haja recuperação na economia formal, como se viu em novembro e dezembro, o PIB da informalidade, que já movimentava mais de R$ 1 trilhão em 2019, foi destroçado pelo vírus.

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Numa estranha ironia, o desemprego pode aumentar paralelamente à quantidade de empregados, com a pressão de informais falidos e desalentados sem chance de achar ocupação intermitente. Na mesma sintonia, a alta nos alugueis residenciais pode levar mais famílias para as submoradias, com consequente deterioração das condições de saúde.

O cenário é grave também nas perspectivas de educação, custo de transportes, preço dos alimentos e qualquer outro item que esteja relacionado às condições de vida da maior parte da população.

Guedes termina o ano ainda dizendo acreditar no que chama de retomada em “V” e tentando evitar furos no teto fiscal, uma preocupação relevante e necessária, mas que não pode ser a única do ministro da Economia.

O ministro precisa ser avisado agora de que os chamados “invisíveis” não dependem de seu olhar para existir e que eles continuarão sendo o maior problema do país.

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