Stellantis registra baixa de 26 bilhões de dólares após fracasso em carros elétricos
Dona de marcas como Jeep e Fiat admite que superestimou ritmo da transição energética; avanço de montadoras chinesas pressiona setor
A Stellantis anunciou nesta sexta-feira (6) que fará baixas contábeis superiores a 26 bilhões de dólares, ou 138 bilhões de reais, relacionadas principalmente à revisão de sua estratégia para veículos elétricos.
O valor supera as perdas recentes anunciadas por Ford, General Motors e Porsche e provocou uma queda histórica nas ações da companhia.
Os papéis da montadora chegaram a cair 27% na Bolsa de Milão, reduzindo seu valor de mercado para menos de 22 bilhões de dólares (116 bilhões de reais).
Grande parte das baixas está ligada ao cancelamento de projetos de carros elétricos, a indenizações a fornecedores e a ajustes na produção de baterias, diante de uma demanda mais fraca do que o previsto.
O presidente-executivo da Stellantis, Antonio Filosa, atribuiu o revés à gestão anterior, comandada por Carlos Tavares, que havia adotado uma estratégia agressiva de eletrificação.
Segundo Filosa, a empresa “superestimou o ritmo da transição energética” e falhou em reagir às mudanças do mercado.
A nova administração tenta reorganizar a operação após um período de queda nas vendas e na lucratividade na Europa e nos Estados Unidos.
A empresa estima prejuízo líquido de até 24 bilhões de dólares (131 bilhões de reais) no segundo semestre do ano fiscal de 2025 e projeta margem operacional baixa, impactada por custos relacionados a tarifas impostas pelo governo Donald Trump nos Estados Unidos.
Setor recua diante de demanda fraca
A Stellantis não está sozinha. A Ford anunciou, em dezembro, baixas de US$ 19,5 bilhões, ligadas à reestruturação de sua divisão elétrica.
A GM já acumula 7,6 bilhões de dólares em perdas no segmento. A Porsche reduziu quatro vezes suas projeções após rever seus planos de eletrificação.
O movimento ocorre em meio à retirada de incentivos federais nos EUA, flexibilização de metas de venda de elétricos na União Europeia e avanço acelerado de montadoras chinesas no mercado global.
Diante desse cenário, algumas fabricantes voltaram a investir em motores a combustão para preservar margens e recuperar participação de mercado, o que exige novos programas de reestruturação.
Nos Estados Unidos, a Stellantis adiou lançamentos de elétricos e retomou motores V8 para fortalecer a marca de picapes Ram.
Também cancelou investimentos, como uma joint venture de hidrogênio, e deixou uma parceria com a sul-coreana LG Energy Solution para produção de baterias no Canadá.
A ascensão da China no mercado de elétricos
O pano de fundo dessa reviravolta estratégica é a consolidação da China como líder global em veículos elétricos.
O país é hoje o maior mercado consumidor de carros elétricos do mundo, a maior produtora de baterias e a principal fornecedora de minerais estratégicos para a transição energética.
Empresas como BYD, SAIC e Geely expandiram agressivamente sua presença internacional, oferecendo veículos mais baratos e tecnologicamente competitivos. A dominância chinesa se explica por uma combinação de fatores estruturais:
Política industrial de longo prazo: o governo chinês investe há mais de uma década em subsídios, crédito direcionado, metas obrigatórias de produção e apoio à cadeia de baterias.
Controle da cadeia produtiva: a China domina o refino de lítio, cobalto e terras raras, além de concentrar a maior parte da produção mundial de baterias.
Escala e redução de custos: com produção em massa e forte mercado doméstico, as montadoras chinesas alcançaram ganhos de escala que pressionam concorrentes europeus e americanos.
Integração tecnológica: fabricantes chinesas operam com integração vertical maior, controlando software, baterias e plataformas digitais.
Essa vantagem estrutural tornou mais difícil para montadoras tradicionais competir apenas com base em metas regulatórias de eletrificação.
O desafio para as montadoras ocidentais
A Stellantis prometeu apresentar um novo plano estratégico em maio. A recuperação dependerá especialmente do desempenho nos Estados Unidos e da capacidade de ajustar sua estrutura de custos.
Analistas afirmam que, sem fechamento de fábricas ou redução de capacidade produtiva, a empresa pode ainda enfrentar dificuldades para recuperar margens na América do Norte e na Europa.
O episódio reforça uma tendência mais ampla: a transição energética no setor automotivo não segue um ritmo linear.
Enquanto a China consolida liderança global em elétricos, montadoras tradicionais recalibram estratégias após apostas consideradas excessivamente otimistas. A corrida pelos carros do futuro entrou em uma fase mais pragmática e competitiva.





