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Relatório aponta buraco de US$ 279 bilhões em riscos financeiros ligados ao desmatamento

Empresas e instituições financeiras subestimam impactos econômicos da destruição de florestas, revela análise

Por Ernesto Neves 19 nov 2025, 07h01 • Atualizado em 19 nov 2025, 07h12
  • Um levantamento global da organização CDP, referência em transparência ambiental corporativa, revela um problema que vem sendo ignorado por empresas e instituições financeiras: os riscos econômicos decorrentes do desmatamento são muito maiores do que se imaginava e permanecem amplamente ocultos nos balanços.

    Segundo o estudo, as companhias que divulgaram dados ambientais identificaram mais de 1.200 riscos relevantes ligados à perda de florestas.

    Mas menos da metade quantificou o impacto financeiro desses riscos. Com base em padrões estatísticos e na comparação entre empresas com perfis semelhantes, a CDP estimou que o valor real chega a US$ 279 bilhões, 3,6 vezes mais do que o reportado oficialmente.

    A cifra, alerta o relatório, representa apenas o impacto dos riscos já reconhecidos pelas próprias empresas. A exposição total da economia global pode ser muito maior.

    Peste bovina: doença tinha uma mortalidade de aproximadamente 50%
    Pecuária no Mato Grosso: setor produz desmatamento em larga escala no país (Paulo Morelli/VEJA)

    Dependência das florestas é estrutural e subestimada

    A indústria de alimentos, bebidas e agricultura aparece como a mais vulnerável: empresas do setor afirmam que 76% de sua receita depende de commodities diretamente associadas ao desmatamento, como soja, gado, óleo de palma, cacau e café.

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    Mas a dependência não se limita ao agronegócio. Manufatura, materiais, varejo, saúde e até transporte reportam níveis de exposição entre 45% e 55%. Ou seja, a destruição de florestas afeta cadeias globais muito além da produção agrícola.

    Apesar disso, entre as 1.623 empresas que produzem ou compram commodities críticas, cerca de 30% reconhecem não saber qual parcela de sua receita depende desses produtos.

    Essa falta de conhecimento, segundo o estudo, compromete a avaliação de riscos ambientais, quebra a rastreabilidade e deixa investidores sem informações essenciais.

    Instituições financeiras tampouco sabem o que financiam

    A opacidade é ainda mais grave no setor financeiro. Entre os bancos, seguradoras e gestoras de ativos que responderam ao questionário da CDP, 129 instituições, responsáveis por US$ 30 trilhões em ativos, afirmaram não saber se financiam empresas ligadas ao desmatamento.

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    Nos portfólios de investimentos e seguros, cerca de 50% da exposição ao risco florestal é desconhecida. Nos empréstimos, o índice é de 38%, um pouco menor porque bancos costumam manter relações diretas com seus clientes empresariais.

    A ausência de mapeamento, alerta o documento, cria vulnerabilidades sistêmicas: choques simultâneos em cadeias produtivas podem provocar perdas generalizadas em crédito, ações e seguros.

    O exemplo do cacau expõe fragilidades

    O relatório cita o caso recente da Hershey. Em 2025, a agência Moody’s rebaixou a perspectiva da companhia para negativa após uma disparada no preço do cacau, consequência combinada de eventos climáticos extremos e da degradação de florestas na África Ocidental.

    Os custos elevados pressionaram margens, aumentaram o endividamento e provocaram volatilidade para fundos expostos ao setor. É exatamente esse tipo de efeito que tende a se multiplicar, afirma a CDP, à medida que eventos climáticos extremos e mudanças no uso da terra se intensificam.

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    Desmatamento já compromete serviços essenciais da economia

    O estudo lembra que as florestas estocam carbono, regulam o regime de chuvas, mantêm a qualidade da água e evitam desastres naturais — serviços ecossistêmicos avaliados em US$ 150 trilhões pelo Boston Consulting Group.

    A perda florestal acelera o aquecimento global, reduz a evapotranspiração e altera padrões de chuva, contribuindo para secas severas. Essas mudanças já afetam hidrelétricas, colheitas e sistemas de saúde.

    No Brasil, por exemplo, estudos mostram queda na geração de energia em áreas afetadas pelo desmatamento na Amazônia.

    Riscos não mapeados agravam vulnerabilidade sistêmica

    Apesar da crescente evidência científica, o setor financeiro ainda trata o desmatamento como um problema reputacional, não como risco econômico. Apenas 54 riscos florestais foram reportados por instituições financeiras, a maioria classificados como risco de crédito.

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    Segundo analistas ouvidos pela CDP, essa visão limitada demonstra que bancos e reguladores ainda não incorporaram plenamente a natureza nas análises de risco sistêmico, apesar de alertas de que a perda de ecossistemas pode afetar estabilidade macroeconômica, fluxos de crédito e solvência de países.

    Transição para cadeias livres de desmatamento exige ação coordenada

    Para reduzir o “apagão informacional”, a CDP recomenda que empresas e instituições financeiras adotem avaliações abrangentes de dependências, impactos, riscos e oportunidades (as chamadas análises DIRO). Isso permitiria antecipar choques, melhorar a rastreabilidade e fundamentar políticas públicas.

    Sem dados transparentes, diz a organização, o sistema financeiro continuará exposto a riscos massivos e mal dimensionados — enquanto o colapso de ecossistemas críticos avança em ritmo acelerado.

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