Banco Mundial aprova Fundo Florestas Tropicais para Sempre, aposta do Brasil para a COP30
Iniciativa liderada por Lula pretende criar o maior mecanismo de financiamento permanente da história para conservação de florestas tropicais
O Conselho Executivo do Banco Mundial aprovou nesta terça-feira (21) a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Fund, ou TFFF, na sigla em inglês), um dos pilares centrais da estratégia diplomática do governo Lula para a COP30, a conferência do clima das Nações Unidas, que será realizada em Belém, no Pará, em 2026.
A decisão, tomada por consenso entre os membros do conselho, transforma o projeto em uma iniciativa global oficialmente operacional, com o Banco Mundial atuando como administrador e anfitrião interino do secretariado do fundo.
A instituição fornecerá a estrutura fiduciária e administrativa inicial, garantindo que o mecanismo opere com padrões internacionais de transparência, governança e responsabilidade.
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Uma ideia nascida no Brasil
O TFFF é uma iniciativa liderada pelo Brasil desde a COP28, em Dubai, e elaborada em diálogo com outros dez países — cinco florestais (Colômbia, Indonésia, Malásia, Gana e República Democrática do Congo) e cinco apoiadores potenciais, além de organizações da sociedade civil e representações de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Durante evento na ONU em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o Brasil fará um aporte inicial de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões), via Fundo Clima, valor condicionado à adesão de outros países.
Alemanha, Noruega e Reino Unido são citados nos bastidores como as nações mais próximas de aderirem à iniciativa, enquanto a China já expressou apoio político, ainda sem investimento confirmado.
Um fundo de investimento — e não de doações
Diferentemente de mecanismos tradicionais de financiamento ambiental, o TFFF não se baseia em doações, mas em investimentos de países, empresas e filantropias em um fundo global.
O capital arrecadado será aplicado em uma carteira diversificada de ativos de renda fixa de longo prazo, com classificação de risco e regras rígidas de sustentabilidade.
Estão vetados investimentos que causem impacto ambiental significativo, como projetos ligados a carvão, petróleo ou gás.
O rendimento financeiro dessa carteira será usado para remunerar países que mantiverem suas florestas tropicais em pé, desde que comprovem taxas de desmatamento abaixo da média global e cumpram critérios de governança ambiental.
A estrutura prevê uma meta total de US$ 125 bilhões em capitalização, sendo US$ 25 bilhões de aportes públicos (países soberanos) e US$ 100 bilhões vindos do setor privado.
Esses recursos, aplicados em títulos seguros, devem gerar retornos anuais.
Uma parcela desses rendimentos será destinada aos investidores, a taxas de mercado, enquanto o excedente será repassado aos países florestais.
Assim, se o fundo render 7% ao ano, por exemplo, e os investidores tiverem direito a 4%, os 3% excedentes seriam transformados em pagamentos por desempenho ambiental.
O modelo é inovador porque cria previsibilidade financeira: em vez de depender de repasses eventuais ou créditos de carbono, os países tropicais passam a contar com fluxos estáveis e contínuos de recursos para conservar seus biomas.
Benefícios diretos para povos indígenas e comunidades locais
Uma das exigências do desenho do TFFF é que pelo menos 20% dos recursos pagos anualmente sejam direcionados a povos indígenas e comunidades tradicionais.
Essa regra foi construída em diálogo com a Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC), que representa lideranças indígenas de diversos continentes.
Segundo o governo, os recursos deverão financiar ações de proteção territorial, manejo sustentável e projetos comunitários de baixo impacto, fortalecendo a presença das populações tradicionais nas áreas de floresta.
Estrutura e governança do fundo
Enquanto estiver hospedado no Banco Mundial, o TFFF contará com supervisão fiduciária, relatórios públicos e auditorias independentes.
Quando estiver plenamente estabelecido, terá sede própria e será governado por um Conselho Diretor composto por 18 países, com igualdade de representação entre países florestais e países investidores.
O fundo também criará um conselho consultivo de povos indígenas e comunidades locais e um painel técnico-científico, responsável por definir critérios de elegibilidade e metodologias de monitoramento, como o uso de dados de satélite para comprovar redução do desmatamento.
Rumo à COP30
A expectativa do governo brasileiro é que a aprovação do Banco Mundial abra caminho para novos aportes a serem anunciados durante a COP30, em Belém, quando o fundo deverá ser formalmente lançado.
Se conseguir capitalizar-se e operar de forma transparente, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre poderá se tornar o maior mecanismo de financiamento florestal do mundo, ligando a preservação da natureza a uma arquitetura financeira global.





