Baixa presença de líderes na cúpula de Belém frustra Brasil às vésperas da COP30
Encontro preparatório expõe desinteresse político global pela pauta climática e enfraquece esforços do governo Lula
Às vésperas da COP30, Belém recebeu nesta quinta-feira, 6, um total de 57 líderes mundiais para uma cúpula marcada por tensões políticas e pela pressão de avanços concretos na agenda climática. É a menor participação em COPs desde 2019, marcando um banho de água fria nos esforços do governo brasileiro.
Entre os países do G20, apenas os líderes do Reino Unido, da Alemanha, da França, da União Europeia e da União Africana vieram.
Responsável por um quarto das emissões de gases do efeito estufa do planeta, a China optou por enviar seu vice-primeiro-ministro, Ding Xuexiang, no lugar do presidente Xi Jinping. Pior fizeram os Estados Unidos, segundo maior poluidor, que se retiraram do Acordo de Paris após a volta de Donald Trump à Casa Branca e não enviaram representantes.
A Índia, terceira maior emissora de gases do efeito estufa do planeta, não conta com o seu primeiro-ministro Narendra Modi na cúpula de Belém. O país está sendo representado por seu ministro do Meio Ambiente, Bhupender Yadav, gesto que reflete a postura ambígua de Nova Délhi nas negociações climáticas.
Embora o governo indiano defenda o princípio de “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, argumentando que as nações desenvolvidas devem arcar com a maior parte dos custos da transição verde, o país tem resistido a compromissos mais ambiciosos de corte de emissões.
A Índia continua altamente dependente do carvão, que responde por cerca de 70% de sua matriz elétrica, e prioriza o crescimento econômico como justificativa para manter o uso intensivo de combustíveis fósseis.
Nos bastidores da COP30, diplomatas avaliam que a ausência de Modi sinaliza uma tentativa de se distanciar de acordos que possam pressionar o país a adotar metas mais dura, ao mesmo tempo em que busca preservar sua imagem de liderança entre as nações emergentes do Sul Global.
País com a matriz energética mais suja do G7, o grupo de nações mais industrializadas, o Japão é outro que saiu pela tangente. Além de não enviar a primeira-ministra Sanae Takaichi, a primeira mulher a governar o país, a ilha tem evitado firmar compromissos mais robustos.
Da América Latina, as ausências ficaram por conta de Javier Milei, da Argentina, e de Santiago Peña, do Paraguai. Os dois países são próximos de Trump e a decisão foi vista como um aceno a Washington.
As ausências expõem o desinteresse de parte da classe política global em relação à agenda ambiental.
O encontro pretende traçar orientações para as negociações que começarão na próxima semana, em um cenário considerado decisivo para o rumo das ações globais contra o aquecimento do planeta.
Mais do que um encontro simbólico, a cúpula de Belém deveria preparar terreno para um dos temas centrais da COP30: o novo acordo global de financiamento climático, que substituirá o compromisso de US$ 100 bilhões anuais prometidos pelos países ricos desde 2009 — e nunca integralmente cumprido.
A expectativa do Brasil era articular um consenso para ampliar os recursos destinados à adaptação e à proteção de florestas tropicais, base de um plano de US$ 125 bilhões defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Outro ponto chave é a revisão das metas nacionais de redução de emissões (NDCs), etapa considerada crucial para manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Com poucos líderes presentes, as chances de avanços concretos diminuem.
O Brasil tenta usar a COP30 para reforçar sua imagem de liderança ambiental, apresentando-se como mediador entre países ricos e emergentes e promovendo a ideia de uma “transição verde inclusiva”.
Mas, diante das ausências e da fragmentação política global, o desafio é transformar a retórica em compromissos efetivos e evitar que a cúpula amazônica termine como símbolo de promessas esvaziadas.





