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Sexo e saúde • Beleza
O SOL, de herói...
... a vilão

Os filtros cremosos já não bastam para proteger
a tez – o novíssimo caminho é a reprogramação
do DNA da pele

Fotos Paulo Vitale

1967
Só o biquíni grandão protegia o corpo – os óculos, o chapelão
e o guarda-sol eram postos de lado porque o bonito e saudável
era ter a pele bronzeada



Até o início do século XX, ter pele queimada pelo sol era atributo de trabalhadores braçais. O fino era a pele alva, delicada. A tez de porcelana, translúcida, era sinônimo de elegância. Em meados dos anos 20, a economia cambaleante empurrou homens – maciçamente – e mulheres para dentro das minas de carvão e das fábricas, onde o astro rei não bate. Quem ficou de fora, os chiques e elegantes, começou a virar o rosto para o céu, e ter a pele morena entrou na moda. A estilista Coco Chanel, numa viagem a bordo de um iate, torrou-se em demasia – e do acidente deflagrou uma mania, a da pele curtida. No fim da década de 60, os brotinhos bronzeados davam o tom nas praias. Foi assim até que, nos anos 80, a ciência descobriu que a expressão "bronzeamento saudável" é uma contradição em termos. E o sol, tão querido, o herói da estética, começou a virar o vilão.

"A valorização do bronzeamento é histórica no Brasil. Quem está mais bronzeada é mais interessante, bonita e jovem", afirma a dermatologista Denise Steiner, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Dermatologia. "Só que o sol nunca foi amigo, sempre agrediu a pele. E começou a ficar pior depois da intensificação da radiação solar causada pelos problemas na camada de ozônio." Dos 500 000 novos casos de câncer que o Brasil terá em 2010, o câncer de pele não melanoma (menos grave) soma cerca de 114 000, o equivalente a 23% do total.

O aumento dos problemas de pele coincidiu com a explosão de filtros solares capazes de servir de escudo contra os raios ultravioleta do tipo B, emitidos entre 10 e 16 horas, mas também os do tipo A, que brilham durante todo o dia. A proteção, no entanto, descobriram os pesquisadores, não basta – mesmo com fatores de proteção 100. Há uma novíssima linha de investigação, a das enzimas que permitem o reparo do DNA corrompido pela exposição solar e responsável pelo envelhecimento precoce da pele. Em outras palavras: se não é possível bloquear os raios, trata-se de fazer a tez aguentar o tranco. O americano Daniel Yarosh, pioneiro da recuperação do DNA, dono do laboratório AGI Dermatics, chama esse momento da dermatologia de a nova revolução do tratamento da pele. "Todas as abordagens, mesmo as dos protetores mais modernos, sempre trataram a pele envelhecida como uma pedra a ser esculpida ou pintada", afirma Yarosh. "A nova abordagem usa uma tática completamente diferente, a de entregar ao metabolismo novas informações por meio do DNA, de modo que a pele reaja naturalmente."

É um avanço prestes a sair dos laboratórios – e ele fará dos atuais protetores produtos pré-históricos. Quando uma pessoa se expõe muito ao sol, o DNA das células da pele sofre várias lesões. Ocorrem tantas feridas, microscópicas, que o organismo deflagra o processo de apoptose – uma espécie de suicídio da célula. Ela morre (se mata) para não sofrer mutações. A ciência está debruçada, agora, sobre drogas – via oral ou tópicas – que aceleram a reparação do DNA, impedindo as lesões cutâneas. São compostos que aumentam a produção de colágeno, de forma que a pele imagine ser jovem novamente. "Mexer com o DNA, zerando seu relógio, é a melhor forma de restaurar a pele corroída pelo sol", afirma Yarosh. "O que tínhamos até agora eram cuidados apenas com o que vinha de fora, do ambiente." Há algo de novo debaixo do sol.

2010
Os biquínis diminuíram, mas a pele exposta ao sol
vive besuntada de bronzeadores e protetores.
Chapéu e óculos escuros são compulsórios

 

O DILEMA DA VITAMINA D

Afinal de contas, ela é ou não é um dos benefícios da exposição solar?

O sol pode ser prejudicial à pele, mas reza a medicina que ele é benéfico à saúde. Isso porque desperta a vitamina D que já existe no organismo humano. E tal vitamina favorece a absorção de cálcio, o que fortalece os ossos, entre outras benesses. A vitamina D também é encontrada no leite e no peixe (veja o quadro abaixo).

Alguns estudiosos, no entanto, defendem o fato de que até hoje não foi comprovada a eficácia do sol na produção da vitamina D. Aliás, não se sabe ao certo nem a quantidade ideal que precisa ser produzida para que se tenha um organismo saudável. Vários estudos vêm sendo conduzidos nessa direção. Entre eles, um que será realizado pela médica americana JoAnn E. Manson, chefe de medicina preventiva do Brigham and Women’s Hospital (ligado à Universidade Harvard) ao longo dos próximos cinco anos. Ela está recrutando 20 000 pessoas para tentar descobrir se altas doses de vitamina D podem diminuir a incidência de câncer e problemas cardíacos.

Enquanto as certezas científicas não aparecem, siga a recomendação médica atual: quinze minutos diários ao sol são apontados como o tempo adequado para a produção da vitamina D. Na pior das hipóteses, dá para ficar com uma corzinha mais saudável e melhorar o humor.

 

Com reportagem de Débora Rubin