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Trabalho e maternidade Artigo
Meu
bebê é como um vício Por que o feminismo não admite o prazer
de ser mãe? 
Katie Roiphe
Lúcia Brandão
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Nas
seis semanas que se seguiram ao nascimento do meu bebê, pareço
ter perdido todas as ambições mundanas. Só com pavor consigo
pensar no retorno ao trabalho. Tenho uma aula para dar. Tenho de voltar a escrever.
Mas a ideia de falar de ideias diante de alunos ou de digitar uma frase coerente
(ou seja, minha vida normal) mostra-se implausível. Parte do meu medo de
voltar ao trabalho reflete algumas das minhas incapacidades. Outro dia, ficou
claro que eu careço das faculdades intelectuais para arrumar uma mesa:
era desafiador demais manter na cabeça, no caminho da cozinha para o terraço,
o número de pessoas no jantar. Uma das causas disso pode ser atribuída
aos meus hormônios; outra, certamente, é a falta de sono, por
culpa das noites de vigília.
Quando o bebê tinha
quatro semanas, tive de fazer uma leitura na (livraria) Barnes & Noble
junto com Gay Talese, já que eu havia escrito a introdução
do seu A Mulher do Próximo. Naquela noite, deixei o bebê com
alguém em quem tenho completa e absoluta confiança. Consegui pôr
um vestido e ficar parecida com a "pessoa que faz leituras" que eu costumava
ser. Mas, quando saí à rua, senti como se estivesse me faltando
um membro. Embora Talese, sob qualquer parâmetro objetivo, fosse absorvente,
minha concentração claudicou. Enquanto as pessoas faziam perguntas,
eu calculava quanto tempo o táxi levaria para me deixar em casa.
Durante
o percurso de volta ao lar, chorei. Só quando o bebê estava novamente
nos meus braços eu me senti bem outra vez. Lembro-me de ter visitado uma
das minhas melhores amigas durante a sua licença-maternidade. Ela é
escritora, e conversamos sobre como as autoras que mais admiramos não tiveram
filhos, ou no máximo tiveram só um, mas nunca dois. (Edith Wharton,
Virginia Woolf e Jane Austen não tiveram filhos; Mary McCarthy, Rebecca
West, Joan Didion e Janet Malcolm tiveram um.) Minha amiga olhou para a sua recém-nascida
e para seus diminutos cílios. Ela poderia manter a conversa de forma acadêmica,
mas ao ajustar o chapéu da menina eu pude ver como ela estava alheia a
qualquer outra coisa que pudesse interessá-la.
As pessoas
costumam comparar o fato de ter um bebê aos primeiros dias de um namoro,
o que faz sentido até certo ponto. Mas a fixação física
e o anseio pelo bebê são muito mais intensos. Com que frequência
num namoro você se vê literalmente às lágrimas porque
ficou longe de um homem durante três horas? Imagino que uma metáfora
melhor seria a dependência química.
Uma das desonestidades
menores do movimento feminista tem sido subestimar a paixão dessa fase
da vida, para em vez disso tentar uma avaliação racional e politicamente
vantajosa. Historicamente, as feministas enfatizam as dificuldades e o peso de
se tornar mãe. Elas tentaram traçar uma analogia entre a puericultura
e o trabalho masculino; então, por muito tempo as mulheres chamaram a maternidade
de "vocação". A tarefa de cuidar de um bebê é
árdua e exigente, é claro, mas é mais bárbara
e narcótica do que qualquer tipo de trabalho que eu já tenha
feito.
Imagino que pessoas normalmente inteligentes e descomplicadas
achem esse tipo de conversa sobre bebês muito chato. Noto que, quando tento
me forçar a conversar sobre outra coisa que não o meu filhote, tenho
de pensar: "Agora é hora de conversar sobre outra coisa que não
o bebê". Admito vagamente que isso é que é maçante
nos pais, e certamente na nossa atual cultura da paternidade/maternidade: esse
fluxo subterrâneo de autocongratulação.
Parte
da atração da licença-maternidade é precisamente esta:
você abre mão de tudo. Os livros na estante não são
os seus livros; as roupas penduradas no armário não são as
suas roupas. Você é o animal vago, lento e exausto, tomando
conta dos seus filhotes. Qualquer coisa graciosa, original, aguda ou
inteligente que você tivesse sumiu, é a negação
total do mundo exterior mas eis o apelo desse período.
Sei
que em algum lugar por aí há um grande mundo, onde as pessoas conversam,
pensam e escrevem, mas ainda não estou interessada em ir para lá.
Katie Roiphe é escritora e jornalista
especializada em temas femininos
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