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Casamento e sociedade Tecnologia
O matriarcado digit@l
Por que
as mulheres são maioria
nas redes sociais da internet

Clara
Vanali
Montagem
sobre fotos Lailson Santos, Grafically Minded /Alamy /Other Images e Divulgação
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O Facebook, a mais badalada rede de relacionamentos da
internet, tem 400 milhões de perfis registrados dos quais 3 milhões
são brasileiros. É o segundo site mais visitado do mundo, atrás
apenas do Google. Diz a lenda (e as lendas no mundo virtual se propagam como vírus)
que a ideia nasceu da mente de um grupo masculino de estudantes de Harvard com
um objetivo primordial, anterior mesmo que o de fazer dinheiro: arrumar namoradas
ou, na gíria mal-educada, grosseira, "pegar mulher". É
tese que explodirá nas telas do cinema ainda neste ano, com o lançamento
de A Rede Social, relato dos primórdios da brincadeira. Apenas seis anos
depois do primeiro clique, deu-se uma reviravolta, e as vozes femininas já
mandam na invenção de pós-adolescentes repletos de espinhas
e testosterona. As mulheres representam 57% do Facebook. São maioria também
no Twitter, no MySpace e em quase todos os endereços eletrônicos
de trocas sociais. Empatam com os homens no YouTube e no del.icio.us. Perdem apenas
no Digg, um agregador de notícias (veja o quadro abaixo).
"A natureza das redes sociais combina com o espírito
de troca tão afeito às mulheres", diz a escritora e apresentadora
de televisão Rosana Hermann, de 52 anos, blogueira há dez e com
mais de 50.000 seguidores no Twitter. "Enquanto eles gostam de competir,
nós preferimos compartilhar e estabelecer conexões." Ressalte-se
que a ascensão feminina na internet repete fenômeno que se deu fora
dela, no mercado de trabalho. Se as mulheres avançaram em atividades que
durante todo o século XX eram atribuídas ao homem desde sempre,
desde o início da Revolução Industrial, por que seria diferente
na internet? "Em ambiente livre, em que há espaço para todos,
o crescimento da mulher é natural", diz Francisco Madureira, pesquisador
de mídias digitais da Universidade de São Paulo.
No
Brasil, como de resto em todo o mundo, a internet serve essencialmente para acesso
a e-mail 91% dos acessos têm esse objetivo, informa pesquisa feita
pela empresa Sophia Mind. Mas 59% das usuárias frequentam as redes sociais
e os blogs. Para comunicação com amigos e familiares (68% dos casos),
busca de informações sobre produtos e serviços (44%) ou mero
bate-papo em torno de temas de interesse (43%). Fazem de tudo o que antes faziam
no mundo físico, só que agora com mais velocidade, sem entraves.
A psicóloga e professora do instituto de psicologia da USP, Leila Cury
Tardivo, tem uma explicação curiosa para essa forte participação
feminina. Durante pesquisa realizada no Hospital das Clínicas de São
Paulo, observou que 75% dos pacientes que procuravam atendimento eram mulheres.
O resultado mostra que elas ficam mais doentes? "Na verdade os números
provam que as mulheres pedem mais ajuda e respostas para os seus conflitos",
afirma Leila. "E essa procura é a mesma no meio virtual."
Soa
óbvio, mas é um dos movimentos mais fascinantes de nosso tempo,
forte o suficiente para movimentar a economia. Flávio Pripas, de 32 anos,
e Renato Steinberg, de 31, são os criadores da byMK (www.bymk.com.br),
a primeira rede social do país especializada em moda. A byMK, lançada
despretensiosamente em 2008, tem hoje 500.000 visitas por mês e 60.000 usuários
cadastrados, dos quais 96% são do sexo feminino. Ali, inventam looks com
roupas, calçados e acessórios fornecidos por grifes ou capturados
de sites da web. "As mulheres gostam de escolher roupa e pedir opinião
para as amigas", diz Pripas. "Para os homens isso não é
interessante." O nome, byMK, é inspirado nas iniciais dos nomes de
suas esposas, Marcela Kauffman, de 29 anos, e Karen Steinberg, de 30, parceiras
do negócio e gerenciadoras do conteúdo. "As frequentadoras
da nossa rede estão lá porque gostam de moda, mas a partir desse
tema elas se abrem para vários outros assuntos", diz Karen. "As
usuárias do byMK navegam no site por, em média, sete horas por dia,
não só inventando combinações de roupas mas também
criando vínculos que extrapolam o meio virtual", afirma Marcela.
Essa
facilidade de criar laços e lidar com diversos assuntos em tantos sites
ao mesmo tempo é fruto de uma característica feminina muito invejada
pelo público masculino: a de ser multitarefa. A criadora e editora da rede
social de conteúdo colaborativo youTag e do portal Pix, extensão
de uma revista com o mesmo nome que traz notícias do mundo virtual, Bia
Granja, de 29 anos, é uma ótima representante desse perfil. Ela
diz visitar um site novo a cada dois minutos, navega nove horas por dia na web
e até já arrumou uma diarista por meio do Twitter. "As mulheres
aderem às redes sociais para se tornar mais produtivas e resolver as pendências
cotidianas", diz. "Não só para falar de moda e beleza." Por diversão ou necessidade, as mulheres sabem muito bem como utilizar
as comunidades virtuais a seu favor. As transformam em ferramentas indispensáveis
ao cotidiano e, com isso, ajudam a romper um tabu, o da internet como perda
de tempo. Para entender melhor o que isso significa, é só visitar
o Twitter de Bia Granja. Ali, em tom tanto irônico quanto verdadeiro, ela
escolheu uma frase poderosa para definir seu perfil: "uma pessoa que está
tuitando quando deveria estar trabalhando... ou vice-versa".

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