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Carta ao Leitor
Tempo de grandes transformações
Bert Stern/Corbis/Latinstock
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Modelo com minissaia, em 1967: o início
de
uma caminhada cultural |
A edição
número 10 da revista REALIDADE, com data de capa de janeiro de 1967, foi
tirada de circulação por ordem das autoridades depois de intensa
pressão dos religiosos, que viram nela obscenidade e imoralidade. A publicação
revelava uma nova mulher que acabara de nascer no bojo da revolução
sexual. REALIDADE era a revista-símbolo de uma geração que
virava tudo de cabeça para baixo. Os raros exemplares que sobraram da edição
apreendida viraram peças de colecionador. Seu conteúdo motivou teses
universitárias, tornando-se um marco na história do jornalismo
brasileiro.
Esta VEJA ESPECIAL MULHER que você lê
foi buscar inspiração naquela ousada edição de
REALIDADE. Ao refazer uma pesquisa sobre a cabeça das mulheres daquela
década revolucionária repetida também em 1994 ,
a revista conseguiu traçar uma linha evolutiva de quatro décadas
do comportamento feminino. Os resultados são surpreendentes e complexos,
como seria de esperar em uma caminhada cultural e social iniciada com estrépito
pela popularização da pílula, pela invenção
da minissaia e pela aceitação social dos casamentos desfeitos. Para
traçar essa linha, VEJA procurou Octavio da Costa Eduardo, diretor do Inese,
responsável pelas duas enquetes. Encontrou-o aos 92 anos, lúcido,
ainda trabalhando, em boa forma física e com raciocínio impecável.
Octavio forneceu os atalhos para uma nova pesquisa, conduzida pelo Ibope
Inteligência em parceria com o departamento de pesquisa de mercado da Editora Abril, que publica VEJA. Os principais resultados aparecem nas
páginas a seguir. A íntegra dos dados pode ser consultada em VEJA.com.
À rica base de dados das pesquisas, VEJA somou reportagens
feitas por profissionais com aguçada sensibilidade para as questões
femininas universais. Dwyer Gunn, editora do blog Freakonomics, do The New
York Times, Betsey Stevenson e Justin Wolfers, da Wharton School da Universidade
da Pensilvânia, combinaram suas expertises em um belo texto retratando a
permanência da angústia na alma das mulheres em detrimento de tantas
conquistas. A historiadora brasileira Mary Del Priore fala do processo de desgaste
da sexualidade, cuja onipresença em livros, filmes e na imprensa tornou
o tema previsível e enfadonho. Acadêmica visitante da Universidade
Yale, Angela Alonso desvenda fascinantes detalhes da aventura das abolicionistas
de saias as mulheres que, no Brasil da virada para o século XX,
anteciparam um movimento de busca do poder que culminaria décadas
mais tarde com as mulheres (Dilma Rousseff e Marina Silva) ganhando de 2
a 1 dos homens (José Serra) na cabeça das chapas dos partidos que
disputam as eleições presidenciais deste ano.
Esperamos que esta VEJA ESPECIAL MULHER dialogue com a heroica edição
da REALIDADE de 1967 e que as leitoras e os leitores da presente edição
revivam a fascinante jornada de aperfeiçoamento pessoal e coletivo que
nos abriu a porta da modernidade. Boa leitura.
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