Carta ao leitor
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A Vida na Floresta
Uma miragem amazônica

O extrativismo de subsistência pregado por
Chico Mendes não salvou a floresta nem
seus moradores. Só as iniciativas lucrativas
podem ajudar a preservar a mata



Leonardo Coutinho, de Xapuri, no Acre

Araquem Alcântara

O fardo de piaçaba
Os catadores da fibra levam uma vida dura
e são mal remunerados. E os ambientalistas
querem que eles vivam sempre assim


O líder seringueiro Chico Mendes tinha uma receita de preservação da Amazônia. Ele acreditava que os povos da floresta só precisavam de um empurrãozinho do governo para trocar o desmatamento pelo extrativismo de subsistência. Em vez de venderem árvores para madeireiras e abrirem pastagens no meio da mata, passariam a coletar látex e frutos, caçar e pescar para consumo próprio. Assassinado em 1988, Chico Mendes foi convertido em herói e sua doutrina, em herança. Dois anos depois de sua morte, o governo federal delimitou no Acre a primeira reserva extrativista do país: a Alto Juruá. Seus moradores receberam uma área de 5 000 quilômetros quadrados, da qual deveriam tirar seu sustento sem destruir a mata. A iniciativa deu 86 filhotes, que, juntos, cobrem 8% da Floresta Amazônica e são habitados por 300 000 pessoas. Agora, surgem indícios de que o legado de Chico Mendes não passou de uma miragem amazônica. Algumas unidades já perderam 20% de sua cobertura vegetal. Em boa parte delas, a mata deu lugar a clareiras. As árvores derrubadas foram vendidas a madeireiras e substituídas por pastagens. As reservas já concentram um rebanho de 40 000 cabeças de gado.

A devastação perpetrada pelos seringueiros resultou de uma equação elementar: colher látex e catar coquinhos não basta para custear uma vida digna. A atividade ainda é desenvolvida com técnicas primitivas e os preços pagos pelos produtos do extrativismo são baixos. Como não é suficiente para pagar seu sustento, essa atividade só se mantém por meio de subsídios governamentais ou doações de instituições estrangeiras. Quem não dispõe nem de um nem de outro precisa criar gado para não ser condenado à miséria – justamente o que Chico Mendes pretendia evitar. A ruína do legado do líder seringueiro começa a ser reconhecida até por seus antigos companheiros. Amiga de Mendes, a antropóloga Mary Alegretti foi uma das primeiras advogadas das reservas extrativistas. Rodou o mundo em busca de apoio para essas iniciativas. Há um ano, assumiu a coordenação da primeira pesquisa de campo sobre o estado atual dessas unidades de conservação. "O que acreditávamos que seriam os laboratórios da sustentabilidade infelizmente ficou muito abaixo de todas as expectativas", lamenta Mary Alegretti.

Por uma ironia cruel, um dos exemplos mais bem-acabados do fracasso se encontra na reserva que leva o nome de Chico Mendes, implantada entre seis cidades acrianas, entre elas Xapuri, onde o seringueiro nasceu e morreu. Lá, Armando Gadelha, de 62 anos, da também acriana Brasileia, nunca abandonou o extrativismo. Mas, há trinta anos, aplica em gado tudo o que consegue com a coleta e posterior venda de látex e de castanha-do-pará. Desde então, juntou 100 reses. Sem elas, Gadelha, sua mulher e seus três filhos passariam fome. A família consegue coletar 150 quilos de látex por mês. Como o governo fixa o preço mínimo do quilo do produto em 3,50 reais, os Gadelha deveriam auferir 525 reais mensais. Há dez meses, porém, a demanda por borracha despencou. Em sua região, não se encontra quem pague mais que 1,20 real pelo quilo do produto. A remuneração obtida pela família com a borracha caiu a um terço. Por isso, há quase um ano, Gadelha se desfaz de seu rebanho para manter a casa. "Para o seringueiro, a melhor coisa é o boi. Quando as coisas apertam, é nele que podemos fiar nossa subsistência", diz ele.

A União e os governos estaduais bancaram muitos empreendimentos para agregar valor aos produtos amazônicos. Até agora, nenhum deles deu provas de eficiência. De tão comuns, foram apelidados de projetos-placebo: pareciam ser o remédio para manter a floresta de pé, mas não eram. Um exemplo típico é a usina de beneficiamento de borracha erguida no Acre pelo Ministério do Meio Ambiente. Em 1990, a obra foi concluída e entregue à Cooperativa Agroextrativista de Xapuri, fundada por Chico Mendes – sempre ele. Deveria produzir matéria-prima para pneus. Sem conhecimentos administrativos, os seringueiros não conseguiram fazer com que a fábrica decolasse. A usina faliu nove anos depois e seu maquinário está abandonado. Apesar dos fiascos, o Acre tem reforçado a aposta no modelo. Mais uma vez, escolheu a Reserva Chico Mendes para sediar a nova experiência, com a qual pretendia demonstrar, afinal, a viabilidade do extrativismo patrocinado pelo estado. Gastou 31 milhões de reais para inaugurar, em 2008, a fábrica de camisinhas Natex, que usa como matéria-prima o látex colhido pelos seringueiros. A estatal do preservativo compra a produção mensal, mas só 250 famílias – 8% da população local – são beneficiadas. Seu gerente industrial, David Melo, explica que o projeto se tornaria caro demais para as finanças estaduais se a indústria adquirisse a produção de todos os moradores.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Dercy Teles Cunha, diz que as iniciativas oficiais para incentivar o extrativismo de subsistência fracassaram por estar vinculadas a produtos de baixo valor agregado. "Defender o extrativismo só é bonito para quem garantiu carreira política e ganha um bom salário vendendo sonhos. No mundo real, os extrativistas vivem em uma situação que é impossível não ser comparada à miséria", afirma Dercy. Raros projetos de desenvolvimento sustentável alcançaram a independência econômica. E em nenhum dos casos seu sucesso pode ser atribuído à atividade extrativista. Ao contrário, o êxito está sempre associado ou à adoção de uma agricultura profissional, ou a algum nível de industrialização, ou aos dois fatores juntos. Foi o que aconteceu em Rondônia, na localidade de Nova Califórnia. Lá, o sucesso está vinculado ao Projeto de Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado da Amazônia (Reca).

Esse programa foi criado em 1989 e beneficiou famílias de migrantes do Sul e do Sudeste do Brasil que queriam produzir frutas da região em larga escala. Começaram, então, a reflorestar a área com mudas de cupuaçu, açaí e pupunha. Para agregar valor, montaram uma usina de beneficiamento de polpa de fruta que foi bancada por doações de organizações europeias ligadas à Igreja Católica. "Para dar escala e tornar a produção lucrativa, plantamos uma floresta de alimentos", diz o mineiro João Pereira dos Santos, integrante do Reca desde a sua fundação. Duas décadas depois, o projeto beneficia mais de 1 300 toneladas de frutas por ano e vende sua polpa a indústrias do Nordeste e de São Paulo. O segredo do Reca foi evitar o sistema de cooperativa, que, em geral, é adotado pelas outras comunidades extrativistas. Na reserva de Rondônia, cada um dos associados entrega sua produção a uma administração central, que a beneficia e revende com valor agregado maior. O sistema permite que cada um dos 360 produtores obtenha uma renda em média 30% superior à daqueles que vendem o produto em estado bruto.

O consultor ambiental Luis Meneses diz que o Reca deu certo porque visa apenas ao lucro de seus associados, que, por sua vez, têm um único objetivo: enriquecer. Eles jamais viram o extrativismo como uma alternativa à extração de madeira ou à pecuária, mas como uma atividade que lhes daria acesso a um novo patamar na sociedade. Não é só por isso que a experiência é essencialmente diferente daquela das unidades de conservação que povoavam os sonhos de Chico Mendes. A organização de Rondônia não foi constituída por governos nem por ONGs, mas por iniciativa própria. Deve-se atribuir seu sucesso ao empreendedorismo. Assim, o Reca encontrou de forma intuitiva a fórmula capaz de preservar a floresta: tornou rentável a sua preservação.

Fotos Manoel Marques

Transporte de látex no Rio Acre
O governo estadual construiu uma fábrica de camisinhas, mas ela
sozinha não pode absorver toda a matéria-prima dos seringais



"Vencemos a pobreza"

O gaúcho Eugênio Vacaro, de 52 anos, migrou para a Amazônia em 1981. O governo prometia terras para que ele fizesse o que sabia fazer melhor: plantar. Vacaro instalou-se na Ponta do Abunã, localizada na divisa do Amazonas, do Acre e de Rondônia. Enfrentou cobras, mosquitos e surtos de malária. Muitos de seus vizinhos não resistiram a esses tormentos e voltaram para o Sul. Outros, como Vacaro, concluíram que não conquistariam sozinhos a prosperidade com a qual sonhavam. Por isso, decidiram constituir o Reca, uma associação que beneficia frutas amazônicas. Arranjaram as sementes de suas primeiras árvores catando o lixo de lanchonetes de Rio Branco, no Acre. O empreendimento prosperou e Vacaro, seu atual presidente, pôde dar aos filhos a formação que almejava. Sua primogênita está no último ano do curso de fonoaudiologia. "Vencemos a pobreza", diz ele.