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Lei e Ordem
Terra sem
lei
A desordem fundiária e a ausência
do estado
estão na raiz da criminalidade e da pobreza
na Amazônia.
Não há exemplo no mundo
de região que tenha prosperado economicamente
sem oferecer segurança jurídica e estabelecer
com clareza o direito
de propriedade
 Leonardo
Coutinho, de Buritis, Rondônia
Fotos
Manoel Marques
 | Faroeste
tropical Buritis, em Rondônia, tem a população
que mais cresce no país, é um dos centros regionais
do tráfico
de drogas e madeira e, como no faroeste, é disputada por bandos de pistoleiros |
Na
Amazônia, a lei é a da selva. Faltam Justiça e polícia,
e os crimes são castigados em proporção ainda menor do que
no resto do Brasil. O banditismo e a impunidade germinam sobre um caos fundiário
sem paralelo no país. Apenas 4% das propriedades rurais da região
estão legalizadas. Posseiros e grileiros controlam uma área equivalente
a 18% do território nacional. A anarquia impera na zona rural em dois dos
maiores municípios do país, situados no Pará. Os títulos
de posse emitidos pelos cartórios de Altamira cobrem o dobro da superfície
da cidade. Em São Félix do Xingu, abarcam o triplo de área
do município. Como quase ninguém é dono do lugar onde vive,
as disputas pelo solo costumam envolver tiroteios. Por isso, é não
só onde mais se morre em razão de disputas agrárias como
também onde mais ocorrem invasões de terra. Os crimes ambientais
não chegam aos tribunais, porque não se sabe quem são os
donos das áreas devastadas. Pelo mesmo motivo, não se pagam impostos
e o trabalho escravo alastrou-se pela região. Na floresta, a impunidade
estimula o tráfico de drogas, causando danos em outras regiões.
Setenta por cento da cocaína que circula no Brasil ingressa no país
pelas abandonadas fronteiras com a Colômbia, a Bolívia e o Peru.
O cenário descrito acima constitui um
enorme obstáculo ao desenvolvimento da Amazônia. A relação
entre a instabilidade jurídica e o fraco desempenho econômico de
muitos países pobres foi demonstrada pelo americano Douglass North, Nobel
de Economia de 1993. North mostrou que uma das características marcantes
das sociedades desenvolvidas é a existência de instituições
fortes, que garantem o respeito à propriedade privada e aos contratos firmados
e contemplam a justa punição dos infratores. Esses fatores são
mais importantes na produção de riqueza do que a abundância
de recursos naturais, terras férteis ou um clima favorável. Nesse
sentido, a Amazônia leva aos extremos os problemas mais agudos da sociedade
brasileira. "A ausência de instituições públicas
confiáveis e uma sociedade civil muito frágil levam as pessoas a
resolver os problemas na base das armas", diz o filósofo Roberto Romano,
da Universidade Estadual de Campinas. "A Amazônia, de certa forma,
lembra a São Paulo do século XIX. Você só consegue
resolver seus problemas se dispõe da ajuda de um poderoso local, e por
isso passa a dever um favor. Quando é ofendido, para continuar respeitável,
tem de defender sua honra de qualquer forma. Não há Judiciário
para desestimular a vingança." Para
os narcotraficantes, a Amazônia é uma região de pouco risco
e alto retorno. A Polícia Federal, responsável pela repressão
ao comércio de entorpecentes, mantém um contingente diminuto na
área. Tem mais agentes em Brasília do que nos vinte postos situados
na Amazônia, com os quais fiscaliza 59% do território nacional. Até
missões bem-sucedidas raramente redundam em prisões. Quando os policiais
chegam a descobrir e destruir pistas de pouso usadas pelos traficantes, dificilmente
alguém responde pelo crime, porque elas são construídas em
verdadeiras fazendas cuja posse é contestada. Os cartéis da droga
controlam municípios inteiros. Seu poder em Abaetetuba, no Pará,
é tão conhecido que a cidade foi apelidada de "Medellín
brasileira", em referência a uma das sedes da máfia colombiana.
Do Suriname vêm as embarcações com droga, o contrabando de
armas, bebidas, cigarros e animais silvestres. A rota é conhecida, mas
a Polícia Federal não tem gente nem disposição para
fechá-la. O mesmo acontece em Nova Mamoré, em Rondônia. Um
de seus distritos, Jacinópolis, de 10 000 habitantes, é um antro
onde a polícia estadual não entra há mais de dez meses, porque
os bandidos recebem os visitantes a bala.  | Terra
de ninguém Vista Alegre do Abunã,
em Rondônia, é um dos centros de comércio ilegal
de madeira.
A queimada de toras inteiras se deve à ameaça de fiscalização.
Ninguém foi punido. Essa é uma das consequências do caos fundiário
da Amazônia |
Um terço
das cidades brasileiras com maior índice de homicídios está
na Amazônia, que tem o menor e menos equipado efetivo policial do país.
Muitas localidades não contam com um único policial. O número
de juízes, promotores e cartórios é insuficiente para fazer
a Justiça funcionar. Os servidores locais do Judiciário são
os mais sobrecarregados do Brasil. Para funcionarem a contento, as cortes locais
deveriam ter seis vezes mais funcionários. "Muitos processos ficam
parados não por falta de julgamento, mas porque não há gente
para garantir que as decisões sejam cumpridas", diz o juiz Luis Claudio
Chaves, de Manacapuru. A situação é mais precária
no interior. O juiz paraense Roberto Itzcovich foi obrigado a pedir transferência
por duas vezes em seis anos porque deu seguimento a processos relacionados a conflitos
de terra no Pará. Em 2001, sua casa em São Félix do Xingu
foi invadida por bandidos, que exigiam o arquivamento das ações
contra integrantes de grupos de extermínio. Três anos depois, a casa
do juiz em Curionópolis foi alvejada por pistoleiros. Respondendo hoje
pela vara de Barcarena, Roberto Itzcovich ficou por duas vezes na mira dos bandidos
por julgar um tipo de delito que permanece impune na Amazônia: os assassinatos
por encomenda. Léo
Caldas / Titular
 | Medellín
brasileira Abaetetuba, no Pará, é
uma das principais portas de entrada da cocaína no Brasil. No seu mercado,
é possível encontrar armas, drogas e carne de animais silvestres,
como a de jacaré que está em exposição |
As
listas de marcados para morrer são conhecidas das autoridades, mas, até
hoje, só vinte pessoas foram condenadas por esses homicídios no
conflagrado sul do Pará. O maior número de casos desse tipo não
chega sequer a ser investigado, embora seus autores sejam conhecidos. A polícia
só recolhe provas contra eles quando o episódio é rumoroso,
como foi o da freira americana Dorothy Stang, morta em 2005, em Anapu, no Pará,
por defender agricultores sem-terra. O inquérito contra os algozes da religiosa
foi concluído em um mês e um deles já cumpre 27 anos de prisão.
Nos rincões, essa situação é agravada pela atuação
de grupos armados. Os fazendeiros são aterrorizados no Amazonas, no Pará
e em Rondônia pela violenta Liga dos Camponeses Pobres, que recebeu treinamento
das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do
peruano Sendero Luminoso. Às vezes acuados por grupos como esses, às
vezes por sem-terra indefesos, os proprietários rurais costumam apelar
a seus próprios meios para fazer o que consideram justiça.
Os
linchamentos são praticados regularmente no interior e mesmo nas metrópoles.
No ano passado, foram registradas oitenta dessas ocorrências só na
região metropolitana de Belém. A condescendência das autoridades
com esses casos pode ser exemplificada pelo que aconteceu com Fábio Nazareno
Macedo, de 32 anos, acusado de tentar violentar duas adolescentes. Os moradores
de Marituba, conurbada à capital paraense, o despiram e o espancaram com
pauladas até a morte. Depois de matá-lo, penduraram em seu pescoço
um papelão em que se lia a palavra "estuprador" para infundir
medo em candidatos a agressor. A polícia deixou o cadáver exposto
por sete horas antes de recolhê-lo. Na realidade, a violência sexual
contra crianças e adolescentes é endêmica na Amazônia.
É comum que pais mantenham relações sexuais com as filhas
e as vendam para a prostituição. Nos bordéis do Pará,
há até sorteios de virgindade. "A pedofilia é corriqueira
e resulta da degeneração moral de uma sociedade pobre, que foi constituída
por imigrantes sem valores", diz o bispo do Arquipélago de Marajó,
José Luis Azcona. Fernando
Cavalcanti
 | Terra
devastada Em Querência, no nordeste de Mato
Grosso, grupos de sem-terra abrem clareiras em áreas de preservação
situadas em propriedades legalizadas. Contam com a anuência do Incra e de
outras autoridades para traficar madeira ilegalmente |
A
degradação de costumes se imiscuiu no cotidiano de uma população
habituada a viver à margem da lei. Boa parte dela obtém seu sustento
na ilegalidade. Muitos participam da exploração irregular de madeira
sem saber que estão cometendo crime ou por falta de qualquer outro meio
de vida. O mercado negro desse produto e a atuação dos bandoleiros,
donos das empresas dedicadas ao comércio de toras, são incentivados
pela escassez de terras legalizadas. Em uma terra em que falta lei para punir
homicídios, as autoridades são ainda mais lenientes com os crimes
ambientais. Em Rondônia, a população denunciou por oito anos
a devastação das margens do Rio Jamari antes que a polícia
aparecesse para tomar alguma providência. Uma vez lá, lavrou 400
autos de infração. Os desmatadores, entre eles empresários,
políticos e mesmo policiais, continuaram desmatando. No fim de 2008, a
área depredada era 30% maior que a que será inundada pela hidrelétrica
de Santo Antônio, no Rio Madeira. As ONGs ambientalistas que lutam para
impedir a construção da usina silenciaram sobre Jamari. Afinal,
ganham visibilidade ao confrontar a União e as grandes empreiteiras. Quando
se trata da elite local, o risco de vida é alto e o retorno de marketing,
nulo. Manoel
Marques
 | Serras
peladas Alguns fazendeiros de Campo Novo, em
Rondônia, alugaram suas terras para pasto, mas elas foram usadas na mineração
de cassiterita. Lá, o garimpo contamina o solo e a água |
O
primeiro e o mais importante passo para civilizar a Amazônia é regularizar
sua situação fundiária. Em junho, o governo tomou uma iniciativa
digna de nota nesse sentido. Editou a Medida Provisória 458, que concede
títulos de propriedade a imóveis que somam 670 000 quilômetros
quadrados, o equivalente a 13% da Amazônia ou aos territórios de
Minas Gerais e do Rio de Janeiro somados. Com a nova norma, o governo trará
nada menos que 300 000 famílias para a legalidade. Hoje, essas pessoas
já ocupam as terras que lhes serão transferidas, tiram delas seu
sustento, mas não têm nenhuma responsabilidade pelo seu destino.
Uma vez que detenham também os direitos de propriedade, não apenas
garantirão a sobrevivência de sua família como também
passarão a pagar impostos, ter direito a crédito, além de
ser responsabilizadas por crimes e danos ambientais que forem cometidos em suas
fazendas. Os mais pobres receberão as áreas gratuitamente. Os remediados
as comprarão por valor simbólico. Os ricos poderão adquiri-las
por um valor ligeiramente acima do de mercado. Quem o fizer será obrigado
a reflorestar o que desmatou fora dos limites legais. Pode ser o início
do resgate da floresta e de um processo civilizador que insira na Amazônia
valores que vigoram no resto do país.
Um reduto do tráfico de drogas Manoel
Marques
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Em
maio, Jonas Ferrete, ex-vereador da cidade de Buritis, em Rondônia, foi
assassinado com um tiro na frente de sua mulher, Maria da Penha, e do neto
de 4 anos. No dia do crime, os três transitavam de moto na estrada que liga
Buritis ao distrito de Jacinópolis. Maria da Penha e o menino iam acomodados
na garupa. No meio do caminho, dois homens saíram da mata. Um deles alvejou
o vereador no peito. Ferrete, que tinha 53 anos, morreu na hora. Ninguém
foi preso. Capixaba, ele havia conquistado dois mandatos de vereador em Buritis.
Nas duas eleições, ficou entre os mais votados. Sua viúva
acredita que ele foi executado porque havia prometido levar eletricidade e policiamento
a Jacinópolis, que é dominada por traficantes de cocaína.
"Os bandidos aterrorizam a população. A polícia precisa
da autorização deles para entrar lá e, quando isso acontece,
é para recolher cadáveres", relata Maria da Penha. A família
Ferrete abandonou as terras que tinha em Jacinópolis. Como era de esperar,
o neto do vereador sofreu um trauma. "Desde que o avô foi assassinado,
ele dorme mal e morre de medo até de rojão", lamenta Maria
da Penha.
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