Mata Atlântica

O ALERTA DA HISTÓRIA

Como se acabou com mais de 90%
da grande floresta do litoral brasileiro

Marcos Sá Corrêa

Desmatamento feito por sem-terra
junto à reserva de Una
(acima)
e um lote de madeira na serraria
da prefeitura: floresta protegida
está ameaçada
Fotos: Paulo Jares  

Estréia neste verão, no sul da Bahia, uma ponte entre o passado e o futuro da Mata Atlântica. Tem 110 metros, a distância de um gol a outro no Maracanã. Programa para dez segundos, em campo aberto e velocidade olímpica. Mas ali a travessia, a passos regulados pelo balanço de uma ponte pênsil rangendo a 20 metros de altura, entre copas centenárias que meio século atrás atapetavam inteiramente o município de Una, o tempo tem outra medida. É contado em angelins, jequitibás, oitis, copaíbas, ipês, baraúnas, jueranas, louros, canelas e maçarandubas, cada árvore que, durante o trajeto, o olho leigo aprende a distinguir na barafunda verde da floresta. Naquele litoral, os naturalistas registraram há poucos anos o recorde planetário de 450 espécies vegetais por hectare. E, perto de lá, num inventário de 500 anos atrás, o escrivão Pero Vaz de Caminha atestou: "O arvoredo é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular".

Debruçada sobre essa amostra da eternidade, a passarela foi construída com doações internacionais e tecnologia canadense para que os visitantes contemplem porque aquela paisagem, pronta há 12.000 anos, está ameaçada de acabar em 2010, pela avaliação do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia, uma ONG de Ilhéus. Diante do prognóstico, ela salvou da motosserra um pedaço de terra já destinado pelo Ibama à extração de madeira e o abriu ao turismo, tentando ensinar aos vizinhos que também por esperteza se pode conservar a Mata Atlântica. Salvaram-se 84 hectares. Uma área vinte vezes maior que a derrubada todo ano no município, onde paradoxalmente a floresta nativa brasileira começou a desaparecer depois que o artigo 225 da Constituição estendeu sobre ela o título de "patrimônio nacional". Até hoje o Congresso ainda não regulamentou o dispositivo de 1988. Se passar outra década discutindo a lei, em Una ela chegará tarde.

Em compensação, mora no município desde 1989 o americano Keith Alger, autor do mirante na selva e do prognóstico sobre a devastação no sul da Bahia. Mesmo entre militantes do ambientalismo ele é um exemplo de como tirar esperança do pessimismo. Nos últimos dez anos, largou a cadeira de Ciência Política na Universidade da Flórida, casou-se com a bióloga mineira Maria Cristina Alves e toca em Ilhéus uma ONG com dois jipes, incontáveis Ph.D.s e dinheiro pingado. Alger passa este réveillon sem saber de onde sairão os salários da equipe no próximo semestre. Mas investiu 150.000 dólares na reserva particular para ensinar aos fazendeiros baianos novas políticas de convivência pacífica com a natureza, agora que entrou em decadência na região a economia do cacau e com ela a cabruca, sistema tradicional de plantio à sombra da floresta. A experiência foi bancada, na maior parte, pela Budweiser, uma cerveja americana fabricada no meio de um jardim zoológico. Por meio do patrocinador, Alger quer distribuir folhetos sobre sua plataforma nos Bush Gardens, da Flórida. Assim, pegará de tocaia turistas brasileiros em Tampa para vaciná-los contra o desprezo pela Mata Atlântica antes que ela acabe.

Foto: Roberto Bandeira/SOS Mata Atlântica
Área da Mata Atlântica, hoje uma fazenda: pesquisa descobre solo "impróprio para a agricultura" por causa dos séculos de exploração

Que ela está quase acabando já se sabe, graças sobretudo ao aviso de outro americano, o historiador Warren Dean. Antes de morrer, em 1994, ele legou ao Brasil A Ferro e Fogo, um livro belo, intrincado e sombrio como a floresta úmida. Nele se aprende a História do Brasil como meio milênio de desertificação, num processo que vara todos os ciclos econômicos, desde que, em 1500, "os portugueses tropeçaram em um meio continente, movidos por cobiça e vaidade, sem se deixar levar por compaixão ou mesmo por curiosidade". O Brasil que eles avistaram pela primeira vez era um litoral coberto por 3.500 quilômetros de mata exuberante, em uma faixa quase contínua com 1 milhão de quilômetros quadrados em que hoje cabem as fronteiras de dezessete Estados. Numa terra cujo cenário começou a amadurecer quando o resto do planeta ainda era triturado por glaciações e turbulências geológicas, a tripulação de Pedro Álvares Cabral inaugurou o machado na semana do descobrimento, cortando palmito para variar a dieta de bordo. A colonização começou com a coleta do pau-brasil. Depois, vieram cinco séculos de queimadas. A cana, o pasto, o café, tudo foi plantado nas cinzas da Mata Atlântica. Dela saiu a lenha para os fornos dos engenhos de açúcar, locomotivas termelétricas e siderúrgicas. Até o século passado, punha-se fogo em madeira de lei nativa e importava-se mogno das Antilhas. Sobrou menos de 8% da paisagem avistada por Cabral há 500 anos.

Com esse livro, Warren Dean acertou um rude golpe na crença de que os recursos florestais do Brasil, por serem imensos, são inexauríveis. Por isso, seu libelo contra a liquidação da Mata Atlântica é um alerta sobre o que pode acontecer na Amazônia. Quase extinta, ele avisa, "o último serviço que pode prestar, de modo trágico e desesperado, é demonstrar todas as terríveis conseqüências da destruição de seu imenso vizinho do oeste". Porque, no que foi a Mata Atlântica, as conseqüências já estão à vista na terra nua e gretada por voçorocas.

Quatro anos atrás, no plano de reflorestamento de uma Secretaria Estadual de Agricultura constava a "pré-desertificação de extensas áreas" de um território cujo solo, por falta de arborização, "se torna impróprio para a produção agrícola". Onde? No Nordeste? Não, no Estado de São Paulo, cujo déficit de árvores estava então orçado pelos técnicos em 4 milhões de hectares. Isto é: sobram-lhe 2 milhões de hectares com florestas. Eram mais de 20 milhões em 1930.

No início da década, a SOS Mata Atlântica, a maior ONG do ramo, com 15.000 associados e 630.000 reais de verbas em 1996, editou um atlas sobre o que restava do cenário original na costa brasileira. Nele, o mapa ambiental do país vira um mosaico de pontos verdes, à medida que se desfaz a mancha quase ininterrupta do século XVI. A floresta praticamente sumiu do Nordeste. Os 51,70% de mata que existiam em Minas Gerais viraram 1,5%. Os 39,7% do Rio Grande do Sul, 2,33%. No Rio de Janeiro eram originalmente 97%. Ficaram menos de 20%. Há Estados que deixaram o desmatamento para o século XX. Mas foram rápidos. Do Paraná, 84,5% já foram florestas. Delas, a metade acabou nos primeiros 450 anos de colonização. O que sobrou nos últimos quarenta anos foi dividido por cinco.


Estão em atividade brasileiros que viram a maior parte da Mata Atlântica desaparecer no curso de suas vidas. O almirante Ibsen de Gusmão Câmara, desde que passou à reserva, converteu-se num ambientalista em tempo integral de tanto ver estragos durante a carreira na Marinha. Em 1947, num vôo até o Recife, ele se espantou com a "quantidade de floresta que ainda existia no litoral" do Nordeste. Alagoas, da janela do avião C-47, era então um cenário amazônico. Ele escreveu um livro sobre a Mata Atlântica em parceria com o primatologista Adelmar Coimbra Filho, a cuja indignação o país deve as denúncias que levaram à decretação de três reservas biológicas do Ibama a do Una, na Bahia, a de Poço das Antas, no Rio de Janeiro, e a do Morro do Diabo, em São Paulo. A capa do livro é uma floresta fotografada em Alagoas na década de 60. Na contracapa, um paliteiro de tocos carbonizados desdobra-se do primeiro plano até o horizonte. Trata-se do mesmo lugar, quinze anos depois.

Em 1910, 43% do Ceará eram classificados como florestas. No século passado, um botânico descreveu o sertão cearense como uma selva "semelhante à do Rio de Janeiro". Mas não é preciso ir ao Nordeste. O almirante Ibsen, em 1961, no governo Jânio Quadros, presidiu uma comissão de inquérito em Guaíra, no oeste paranaense. Recorda: "Foi quando me convenci de que o processo é mesmo de extinção. Na época, fui até Foz do Iguaçu por estrada de terra. A viagem levou mais de 24 horas. O carro rodou o tempo todo à sombra de árvores. Nove anos depois, voltei à região. Era campo aberto. Nesse tempo era comum sobrevoar o Paraná sem ver a terra, escondida por queimadas em todas as direções. Até o fim dos anos 60, funcionava em Guaíra uma usina termelétrica que só queimava árvores nativas de madeira nobre. Como lenha, seu rendimento energético é maior. Isso não li em lugar nenhum. Eu vi".

O Brasil empata com a China no campeonato mundial de extermínio de mamíferos. Só perde para a Indonésia na modalidade extinção de aves. Mas ainda é um país com natureza para salvar. É nessa linha cada vez mais estreita entre opulência e desperdício que se equilibram os ambientalistas. Ao lado da passarela suspensa de Keith Alger fica a Reserva Biológica de Una, santuário oficial decretado em 1980 mas só tirado do papel onze anos depois. No intervalo, os grileiros roíam suas bordas. Isso inclui um funcionário da Secretaria Estadual da Fazenda, um taxista de Itabuna e o gerente de uma concessionária Mercedes-Benz de Ilhéus. Os 11.000 hectares conferidos à reserva pelo decreto oficial encolheram para 7.000, assim mesmo porque um mutirão de ONGs doou ao Ibama 2.000 hectares de mata que a União deixara de desapropriar.

Agora, no rastro da mixórdia fundiária, chegaram os verdadeiros sem-terra. O front da reforma agrária se espraia neste momento por 5.000 hectares de clareira aberta dentro das matas que serviam de amortecedor ambiental para a reserva do Una. Formou-se no município uma corrente da infelicidade. Para o Incra, floresta é terra improdutiva. Para os cacauicultores, ela virou poupança, agora que no mercado internacional o preço do cacau caiu a um quinto da cotação da década passada e, vindo da Amazônia, um fungo letal, a vassourinha-de-bruxa, atacou as plantações baianas. As grandes árvores que cobriam os cacaueiros vão sendo vendidas a madeireiras. Para o MST, é a linha de menor resistência nos processos de desapropriação. Diz Eduardo Martins, presidente do Ibama: "Em geral, entregar a mata interessa ao proprietário porque são legalmente áreas de uso restrito, que eles não podem explorar livremente. Aos sem-terra oferecem o atrativo do retorno imediato, vendendo a madeira do desmatamento. Enfim, os ambientalistas têm inibições para criticar os sem-terra". Com isso, Incra, latifundiários e sem-terra encontraram na Mata Atlântica um ponto de convergência.

"Nosso grupo é um balde d'água diante de uma floresta pegando fogo", diz Keith Alger. Ele trabalha com quinze funcionários, um tipo de gente que acumula diplomas, consegue conversar dentro de um jipe chacoalhante e em restaurantes se coça quando a conta bate nos 10 reais por cabeça. Em Ilhéus, o grupo estudou a crise do cacau, a inutilidade de fazer reforma agrária em chão de areia, os prejuízos financeiros dos fazendeiros que transformam mata em pasto e as perdas dos hotéis com a desvalorização do turismo provocada pelos atentados ao cenário. Conta Alger: "Quando chegamos aqui, os ambientalistas eram vistos com desconfiança. Não sei quantas vezes ouvi que nós só nos interessávamos por macacos, e não por gente. Foi isso que mudou a nossa visão do problema ecológico. Queremos que as pessoas ganhem com a preservação do ambiente".

Das ondas que se erguem periodicamente contra a Mata Atlântica, a mais recente é a dos sem-terra. Mas já é possível ver onde ela vai quebrar no Pontal do Paranapanema, praça de guerra da reforma agrária. Aquilo era uma floresta onde, em 1942, o governo de São Paulo decretou uma reserva de 317.000 hectares. Na década seguinte, o governador Adhemar de Barros e a Assembléia Legislativa ajudaram a grilar o parque estadual. Encheu-se de fazendas, quase todas feitas de título de propriedade ou mesmo usucapião. No meio está o Morro do Diabo, um santuário de 34.000 hectares, menos de 11% do que pretendia o decreto. São herdeiros dessa invasão do parque as atuais vítimas dos sem-terra.

Entre eles está o Instituto de Pesquisas Ecológicas, o Ipê, a ONG de Cláudio Valadares Pádua e Suzana Pádua. Até os anos 80, ele era diretor de empresa no Rio e ela decoradora. Mas, há dez anos, o casal foi estudar ambientalismo na Flórida e, na volta ao Brasil, pegou o primeiro trabalho desta nova encarnação no Morro do Diabo. No batente, Cláudio e Suzana aprenderam que não adianta cuidar de bichos e árvores se não se souber lidar com gente. Mergulharam por isso na vida comunitária de Teodoro Sampaio, um município pobre onde os 20.000 habitantes estavam acostumados a olhar a reserva com cobiça ou desdém. "Nosso instituto está formando ambientalistas num ambiente sitiado por uma população acostumada a pegar madeira na mata. Não adianta achar que eles vão parar só com repressão ou conversa ecológica", diz Cláudio. "Meteram-se em projetos de agrossilvicultura, concursos nas escolas públicas, visitas guiadas à reserva e até na fundação no município de um Conselho de Desenvolvimento e Progresso, cooperativa popular que opera uma cerâmica e uma casa de farinha." E o que tem isso a ver com ecologia? Suzana responde: "Na última vez em que o Morro do Diabo pegou fogo, a população acorreu em peso à reserva para ajudar os guardas a apagar o incêndio".




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