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Cidades CIDADÃOS DA SELVAA vida em
São Gabriel da Cachoeira, Bruno Paes Manso
São
Gabriel da Cachoeira pode ser considerada em muitas
coisas uma cidade brasileira como outra qualquer. Tem
prefeitura, Câmara dos Vereadores, igreja, churrascaria,
bancos, locadora de vídeo, bailes, eleição, antenas
parabólicas. O que ela tem de diferente é a
população: os 30.000 habitantes do município são
quase todos índios. Localizada no coração da selva, a
860 quilômetros de Manaus, na região noroeste do Estado
do Amazonas, a cidade é moldada pela cultura indígena.
A começar pelo idioma. O oficial é o português, mas
ali são faladas mais de vinte línguas diferentes. Na
hora de tratar da saúde, os hospitais são o segundo
recurso Um dos últimos
lugares do Brasil onde os índios são maioria, o
município de São Gabriel tem 112.000 quilômetros
quadrados
Na cidade dos índios, os postos de comando são ocupados por forasteiros. O prefeito Amilton Bezerra Gadelha, do PT, nasceu em Maraqueí, no Amazonas. O delegado, José Júlio Cesar Correia, é de São Paulo, assim como o bispo, Walter Ivan de Azevedo. A maioria dos vereadores, dos secretários e dos empresários mais ricos veio do Nordeste. Seria uma prova de discriminação ou de submissão? Nem uma coisa nem outra. Mais importante do que comandar a cidade, um Exército ou ganhar dinheiro, os índios se dão por satisfeitos organizando suas famílias nas tribos de maneira harmoniosa, não deixando faltar alimentos para os parentes, divertindo-se nas visitas a outras comunidades em períodos de festa. Vivem como seus pais e avós, com algumas facilidades da vida contemporânea, como as vacinas, a espingarda, o anzol e o facão. "Liderar uma
comunidade para nós é função que passa de pai para
filho, de modo que a ambição política não faz parte
de nossa cultura", explica o padre João Francisco
Moreno Teixeira, um índio. João Francisco Teixeira é
seu nome de batismo cristão. O nome indígena do
sacerdote, dado pelo pajé da sua tribo, é Nharroli.
"Talvez por retirarmos tudo o que precisamos da
natureza, não desejamos mais do que o necessário, e
entre nós não existe propriedade privada."
Teixeira deixou sua aldeia, distante doze horas do centro
de São Gabriel, em voadeira
Embora num primeiro momento a doutrina da Igreja possa parecer antagônica aos hábitos indígenas, o padre garante que viu no cristianismo um meio de reafirmar sua cultura. "A solidariedade e a partilha são valores que aprendemos naturalmente desde criança e estão na essência da mensagem pregada por Jesus Cristo", diz ele. Teixeira se esforça para traduzir o Evangelho para a língua local. Diz aos índios que trechos bíblicos servem de parábola da realidade do índio brasileiro. "Conto a história do povo judeu, que levou quarenta anos caminhando pelo deserto em busca da terra prometida", explica. "Estamos em estágio semelhante, lutando pela demarcação das áreas indígenas, sofrendo e passando por um período de provação." Tendo contribuído no passado para o extermínio da cultura dos índios, os padres salesianos de São Gabriel hoje convivem muito bem com o mundo indígena. O bispo Walter Ivan de Azevedo celebra missa aos sábados à tarde na casa do pajé Lauriano Freire Campos, índio tariana que "cura as doenças dos sonhos, sereias e botos, em nome do poder a ele dado por Jesus Cristo", visto por ele num sonho. Até um encontro entre pajés e benzedeiras foi organizado por freiras, para trocar informações sobre ervas medicinais. Instituição respeitada pelos médicos da cidade, os pajés já foram um problema na época em que os pacientes indígenas desistiam do tratamento convencional para apelar para os curandeiros da tribo. Atualmente, os doutores e os pajés conseguem desenvolver trabalhos paralelos com bons resultados. O índice de abandono do tratamento de tuberculose em São Gabriel é dos menores no Brasil: apenas 1,4%. A cultura indígena reflete-se também na economia de São Gabriel. A principal atividade no município ainda é a agricultura de subsistência. Plantam-se mandioca, abacaxi, abacate, banana, limão e batata-doce. A alimentação é complementada com a caça e a pesca. A mais importante fonte de renda na cidade é o Exército, que emprega cerca de 1500 homens e paga uma folha de soldos que chega a 750.000 reais por mês, quase seis vezes maior que a do funcionalismo público. Mesmo não sendo uma potência econômica, São Gabriel conseguiu algo ambicionado pelo presidente Fernando Henrique para o resto do país: prima pelo social. As escolas atingem praticamente todos os povoados. São 10.000 alunos matriculados no 1º e 2º grau. Gersen José dos Santos Luciano, da tribo baniva, atual secretário de Educação do município, pretende promover uma revolução educacional em São Gabriel. Tendo estudado num colégio salesiano quando a cultura indígena ainda era considerada inferior, Luciano pretende mudar o calendário escolar, que será adaptado aos costumes e festas locais. Também haverá mudança no conteúdo do programa de estudos. As cartilhas já estão sendo traduzidas para idiomas locais. Os novos livros ensinarão história, geografia, matemática e técnicas agrícolas no idioma de origem do índio, sem deixar de lado a língua portuguesa. A propriedade coletiva será prestigiada, assim como outros valores e mitos indígenas. "Acreditar que vivemos para enriquecer não faz parte de nossa realidade", diz Luciano. "Deve haver espaço e respeito a todas as formas de vida." Também no
Exército as coisas são arrumadas para gente sem
ambições. No 5º Batalhão de Infantaria de Selva
(BIS), responsável por resguardar a fronteira brasileira
com a Colômbia e a Venezuela, os indígenas não têm
patentes. São todos soldados que trabalham por alguns
anos no Exército antes de voltar para suas comunidades.
Dos 280 jovens incorporados ao serviço militar em 1995,
cerca de 200 são índios. A maioria deles vem das
regiões de fronteira, como Iauaretê, Querari, São
Joaquim, Cucuí e Maturacá, bem distantes dos centros
urbanos. O Exército tinha grande dificuldade de recrutar
pessoal entre os rapazes urbanos da Amazônia. Eles
sempre resistiram a ficar num batalhão no fim do mundo,
fazendo exercícios na mata. A alternativa foi o
recrutamento de forças locais. Os exercícios de
sobrevivência na selva, que para militares comuns seriam
um tormento, para os índios são como férias Para manter a ordem
dentro dos limites de São Gabriel, o delegado e os vinte
policiais da cidade não encontram problemas. Os crimes
ali têm origem numa única pergunta, pronunciável em
diversas línguas: "Shibiok saniã?", em
tucano, "Coai toma pinga?", em ianomâmi,
"Aputari canhuin?", no tronco tupi-guarani que
lhes serve de língua comum. Ou, ainda, em bom
português: "Quer tomar cachaça?" As brigas
decorrentes dos pileques são responsáveis por 80% das
ocorrências policiais. Na maioria das vezes o delegado
manda os brigões para o bispo, que resolve o problema.
Em São Gabriel não há assaltos. Furtos são poucos.
"Nunca vi, aqui, alguém furtar por necessidade, mas
sempre para comprar ou trocar algo por bebida",
conta o delegado José Júlio Cesar Correia. Não existem
bêbados jogados pela rua. Mas, quando os índios bebem,
continuam bebendo Outro problema social em São Gabriel é o alto índice de jovens mães solteiras. Os médicos do Hospital Militar contam em média três casos mensais. De acordo com costumes tribais, quando menstrua, a jovem índia fica três dias isolada. Depois, não restam motivos para evitar a relação sexual ou o casamento com seus pretendentes. Não existe prostituição nem crianças abandonadas na cidade, apesar de a população ter quase dobrado nos últimos vinte anos. Segundo o IBGE, em São Gabriel da Cachoeira, entre 1970 e 1991, a população passou de 13500 para 23000 pessoas. Recentemente a saúde se tornou uma preocupação. São Gabriel é um dos campeões brasileiros em tuberculose: no ano passado foram registrados 89 casos e até agosto deste ano já surgiram outros 84. O motivo da propagação da doença é a desnutrição, que diminui a resistência do organismo. O solo e os rios da região não são bons para caça e pesca. A alimentação é à base de mandioca, rica em carboidratos, mas pobre em proteínas e vitaminas. Contribui ainda para a doença a mudança no estilo das residências indígenas. Antigamente as moradias, com teto de palha e grandes janelas, eram ventiladas. Agora, espalharam-se pelo lugar aquelas casas com teto de zinco ou amianto, muito mais quentes e favoráveis à proliferação de bactérias por falta de circulação do ar. Outra praga é a parasitose, os vermes intestinais. Por não existir tratamento de água e esgoto, ela ataca praticamente a população inteira, o que ajuda a agravar ainda mais seu estado de desnutrição. A cárie também é um problema geral. Métodos para estancar a propagação das verminoses chegam a esbarrar em traços culturais. Banheiros foram tentados nas aldeias, mas os índios, acostumados a usar os rios, achavam que a novidade acumulava insetos e era malcheirosa. Índios formados por médicos, por um salário mínimo, começaram a percorrer os povoados de canoa, receitando chás, sementes de mamão e outras plantas medicinais contra os vermes. Ambrósio Arantes Viana, índio dessano, passa até uma semana remando pelos igarapés e registrando casos nas aldeias. Como o banheiro não é bem-aceito, ensina a enterrar as fezes e evitar as correntes de água. Para tornar o sistema eficiente, seriam necessários 200 homens na região, segundo organizadores do programa no Centro Saúde-Escola. Hoje existem 76. "Pelo menos tem o benzedor, que conhece as forças da natureza e dos espíritos, ajudando nosso trabalho", diz Viana. Lá, os espíritos têm muita força.
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