Diversidade biológica

CALDEIRÃO DE VIDA

A riqueza de animais e plantas cresce com novas
descobertas e é ameaçada pela caça e devastação

Flávia Varella

Os jacarés foram quase dizimados para virar bolsa. Hoje são caçados pela carne. A pirarara (ao lado) come frutos e ajuda a dispersão de sementes
Fotos: Michael Goulding  

Só acontece na Amazônia. Enquanto em outros países as espécies animais e vegetais já são perfeitamente conhecidas, estudadas e catalogadas, na floresta tropical brasileira está sempre aparecendo alguma coisa de que nenhum pesquisador havia tratado antes. Só de 1990 até hoje, sete espécies de macacos, duas de aves, alguns roedores e dezenas de peixes e sapos novos foram encontrados na Amazônia e descritos pelos cientistas. Apenas no Parque Nacional do Jaú, em cinco anos de estudo, foram descobertas doze novas espécies de peixes, duas de sapos, dois roedores e duas árvores. Numa reserva indígena no Xingu, os pesquisadores acharam quatro sapos e um novo papagaio. O holândes Marc van Roosmalen, autor da mais recente descoberta de macaco na Amazônia (ver reportagem), diz ter no quintal de sua casa em Manaus mais quatro macacos inéditos à espera do trabalho de descrição científica que, uma vez publicado, os colocará na lista dos oficialmente conhecidos pelo homem. José de Souza e Silva, responsável pela descoberta de um outro primata também no ano passado, diz ter conhecimento de mais três macacos novos, mas não tem tempo de ir a campo procurá-los. No início do ano que vem, ele vai para a Amazônia oriental em busca de um coelho, um veado e três roedores, que acredita também serem novidade.

A Floresta Amazônica merece respeito. Dentro dela existem entre 5 milhões e 30 milhões de plantas diferentes. Não se sabe o número preciso porque poucas foram estudadas. Mas só as que têm nome e sobrenome (gênero e espécie identificados) somam 30.000 e representam 10% das plantas de todo o planeta. A Amazônia tem a maior variedade de espécies de aves, primatas, roedores, jacarés, sapos, insetos, lagartos e peixes de água doce do mundo. O habitante da cidade dificilmente consegue lembrar-se do nome de vinte ou trinta mamíferos sem auxílio de uma lista impressa, mesmo que inclua todos os que vê na fazenda. Ficaria estarrecido ao saber que na Floresta Amazônica circulam 324 mamíferos. Alguns são lindos, como a onça- pintada, a suçuarana, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, o veado, a ariranha e o galante boto cor-de-rosa. Outros são esquisitos, como a preguiça, que passa horas num mesmo galho, de patas para cima, digerindo folhas. A posição é tão cômoda que seus pêlos são os únicos no reino animal a crescer da barriga para as costas, a fim de melhor escorrer a água quando a chuva cai. Com relação a peixes de rios, a Amazônia é insuperável. Ali nadam entre 2.500 e 3.000 espécies diferentes. Apenas no Rio Negro, já foram descritas 450 espécies. Em toda a Europa, as espécies de água doce não passam de 200.

A Amazônia tem uma variedade estonteante de cobras, sapos, insetos e lagartos, além de aves e mamíferos. Na foto ao lado, centenas de lagartas amontoam-se num galho
Foto: Araquém Alcântara  

A Amazônia é um caldeirão de biodiversidade, como dizem os cientistas. No entanto, não é uma vitrine, como facilmente percebem os turistas. O pequeno porte da maioria dos bichos e o fato de grande parte deles ter hábitos noturnos, aliados a uma floresta muito densa, tornam difícil ver os animais. Segundo o zoologista José Marcio Ayres, se uma pessoa caminhar, durante o dia, cerca de 10 quilômetros numa mata virgem, de terra firme, longe das perturbações humanas, verá em média dois ou três bandos de macacos, uma ou outra cutia e, com muita sorte, um veado, talvez um bando de porcos-do-mato. Ayres tem respaldo para essa conta. Somando todos os períodos de pesquisa, ele calcula ter passado oito anos dentro da mata. O fato de ver poucos bichos não significa que eles não estejam lá. No escuro da mata, há uma orquestra fantástica tocando os acordes da vida.

A principal explicação para a existência de tanta diversidade na Amazônia é a teoria dos refúgios. Nos últimos 100.000 anos, o planeta sofreu vários períodos de glaciação, em que as florestas enfrentaram fases de seca ferozes. Nesses ciclos, as matas expandiram-se e reduziram-se. Nos períodos de seca mais prolongados, cada núcleo de floresta ficava isolado do outro. Os grupos animais dessas "ilhas" passaram por processos de diferenciação genética que muitas vezes os transformaram em espécies ou subespécies diferentes das originais e das que ficaram em outros refúgios. Por sua extensão, isso aconteceu com muita freqüência na Amazônia. Alguns bichos que não sabem nadar ou voar, como os macacos, continuaram formando espécies diferenciadas umas das outras, mesmo depois das glaciações. É que havia outro fator em ação: o isolamento provocado pelos grandes rios. É comum que o território de uma determinada espécie termine na beira da água. Na outra margem, nem sinal do habitante que, do lado de cá, está em casa. Na região de várzea da estação ecológica de Mamirauá, por exemplo, existe um macaco que só vive ali, o uacari-branco, ou macaco-inglês, assim chamado por ter o corpo todo branco e a face vermelha, como um lorde depois de algumas doses de uísque.

A suçuarana é um dos
324 mamíferos da Amazônia.
Desses, 58 são primatas.
A preguiça
(ao lado) tem os
pêlos da barriga para as costas
Fotos: Araquém Alcântara  

Outra razão para tanta riqueza de bichos é a incrível variedade de ecossistemas dentro da Amazônia. Existem as florestas de terra firme, as várzeas, os igapós, os campos e as campinas. Em cada um, há determinados frutos e folhas que só existem lá e que, por sua vez, servem de alimento apenas para certos bichos. A relação entre os animais e a floresta é intrincada. O peixe tambaqui, por exemplo, com seus fortes dentes, quebra a casca dura de algumas sementes e frutos. Ao se alimentar, exerce a importante função de facilitar a semeadura de várias plantas. O mesmo acontece com as fezes de alguns macacos comedores de frutos. As aves também são importantes dispersoras de sementes. Essa interdependência entre fauna e flora oferece bonitas histórias da vida na selva, mas também aponta para um perigo. Ao derrubar determinada árvore, pode-se estar acabando com o alimento de algum bicho e colaborando para sua extinção. Ao caçar papagaios para vendê-los no mercado como bichos de estimação, é possível que se esteja colaborando para o fim de alguma espécie de planta. A destruição do habitat e a caça são as principais ameaças à fauna amazônica.

A caça, proibida por lei no Brasil, é um antigo hábito cultural na Amazônia. Os índios já a praticavam e ainda hoje cada caboclo é dono de uma espingarda. Carne de tartaruga é a iguaria predileta para festas de aniversário, mesmo nas grandes cidades. Em São Félix do Araguaia, em Mato Grosso, a tartaruga é colocada de barriga para baixo com casco e tudo sobre a grelha, nos churrascos servidos a turistas. Quatro das seis espécies de quelônios estão ameaçadas. Em 1850, as tartarugas eram tantas que, nos meses de desova, impediam o tráfego no Rio Madeira. Já naquela época se colhiam cerca de 48 milhões de ovos por ano para comer e fazer óleo. Para virar casaco, bolsa e cinto, as ariranhas e os jacarés quase foram extintos nos anos 50 e 60. Hoje, a ariranha é o animal amazônico que corre o mais sério risco de sumir. Mas outros 56 fazem companhia a ela na lista das espécies ameaçadas.




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