Carta ao leitor
Almanaque
O homem da Amazônia
Terra sem lei
Poluição das águas
Ar envenenado
Dilema das estradas
40 anos de Transamazônica
A economia que poupa a floresta
O tesouro da biodiversidade
Uma vocação de riquezas

   
 

A Vocação Amazônica
Um futuro de riquezas
sem devastação

É possível? Sim. Mas só se forem adotadas soluções diferentes para cada bioma, pois nem tudo por lá
é floresta ou precisa ser superprotegido


Laura Ming, de Querência, em Mato Grosso

Fotos Manoel Marques
VOCAÇÃO NATURAL
Turista nada com o boto-cor-de-rosa em Manaus: melhorar as condições para visitar a floresta,
como fez a Costa Rica, pode tornar a preservação um bom negócio

A Floresta Amazônica é um patrimônio da humanidade que precisa ser preservado. Ao mesmo tempo, o homem da Amazônia não abre mão de buscar o nível de desenvolvimento – e de qualidade de vida – do Sudeste. O futuro da Amazônia depende de como será feita essa conjugação de interesses. Nas reportagens anteriores desta edição especial de VEJA, viu-se que ele passa pela solução de uma série de problemas que atravancam o desenvolvimento e deixam o desmatamento fora de controle. Entre eles estão a infraestrutura precária nas cidades, a desordem jurídica, a energia escorada em termelétricas poluentes e o desconhecimento do bioma da floresta. Considerando-se que, nos próximos anos, haverá responsabilidade administrativa e vontade política dos governantes para sanar esses problemas básicos da Região Norte, ainda assim resta uma pergunta crucial: qual será a vocação econômica da Amazônia? Sabe-se que dessa vocação fazem parte a floresta em pé e o agronegócio. A questão é como conciliar esses dois interesses aparentemente excludentes.

Um bom começo seria rever a lei promulgada em 1953 que criou a chamada Amazônia Legal. Essa classificação engloba os estados que possuem floresta amazônica em parte de seu território – os sete que compõem a Região Norte, Mato Grosso e parte do Maranhão. A definição para fins de planejamento tomada há mais de quarenta anos criou uma anomalia ao incluir na Amazônia áreas que não são de floresta. Esses nove estados têm uma mesma legislação ambiental específica. Quem possui terras no cerrado só pode desmatar até 65% delas para explorar o solo. Isso cria restrições para várias atividades econômicas, como as desenvolvidas no cerrado de Mato Grosso e de Roraima.

Para complicar as coisas, essas porcentagens foram alteradas em 1996. Antes, podiam-se desmatar 80% das terras em áreas de cerrado. Com a mudança nas regras, muitos proprietários se sentiram enganados pelo governo federal, que os atraiu para a região acenando com terras baratas e financiamentos generosos. O mesmo ocorreu com os proprietários de terras em áreas de floresta. Antes, eles podiam utilizar 50% do terreno para atividades econômicas – hoje, só podem usar 20%. "No passado, o discurso do governo era outro. Eu me sinto traído", diz o fazendeiro Darci Hermann, que há dezessete anos trocou suas terras no Rio Grande do Sul por outras, em Mato Grosso, atraído pela expectativa de colheitas mais gordas. Na prática, a mudança de regras do governo empurrou para a ilegalidade muitos proprietários que se recusam a abrir mão do investimento que fizeram. A alteração do conceito de Amazônia Legal permitiria a criação de legislações de uso do solo específicas e apropriadas para cada região de cada estado.

Regras que engessam
Boiada em Querência, em Mato Grosso: áreas degradadas e campos naturais poderiam ser liberados para a pecuária

Ao olharem para o futuro da Amazônia, os especialistas enumeram atividades econômicas que estão no DNA da região mas não são devidamente exploradas. O encanto da floresta e as paisagens de tirar o fôlego fazem da Amazônia um destino turístico espetacular. A afluência de visitantes ao local, no entanto, é muito baixa, porque a infraestrutura para recebê-los deixa muito a desejar. Dos 5 milhões de turistas estrangeiros que aportam no Brasil todo ano, apenas 50 000 vão à Amazônia. Há apenas três voos internacionais regulares para Manaus, vindos dos Estados Unidos, da Colômbia e da Venezuela – e nenhum da Europa. Os guias turísticos não falam inglês e os barcos são desconfortáveis.

Para os brasileiros do Sudeste, a Amazônia fica longe e custa caro. O turista que sai de São Paulo paga por um pacote de cinco dias em Manaus 1 700 reais. Se optar por Buenos Aires, gastará menos de 1 000 reais. As diárias em hotéis de selva do Amazonas saem por 1 400 reais – contra 700 reais num resort na Costa do Sauipe, na Bahia. O turismo pode ser uma atividade decisiva para a preservação da floresta. Na Costa Rica, o dinheiro movimentado pelos visitantes que chegam ao país para conhecer suas matas é superior ao originado pela indústria madeireira e pela pecuária. Devido a esse papel crucial na economia do país, a floresta em pé passou a ser valorizada e as iniciativas de preservação e reflorestamento são incentivadas.

É impossível antever o futuro econômico da Amazônia sem pensar no que fazer com os 132 000 quilômetros quadrados de áreas abandonadas na região. Esse descampado improdutivo, do tamanho do Ceará, é criado por produtores que, depois que o solo se torna exaurido e infértil, em vez de recuperá-lo, abrem novas áreas de floresta para fazer pastagens ou lavouras. A manobra parece irracional, mas é movida por uma lógica econômica. A Amazônia tem terras fartas e baratas. Para os produtores, na ponta do lápis, sai bem mais em conta adquirir novas áreas e desmatá-las do que investir na recuperação das terras exauridas. "Uma boa ideia, para começar, seria o Incra recuperar as terras degradadas e dirigir os assentamentos para elas, em vez de colocá-los em áreas de floresta que certamente serão destruídas pelos colonos para vender a madeira e plantar roças", diz o economista Marcel Bursztyn, professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. A produção em áreas já consumidas pela motosserra dispensaria a necessidade de abertura de novas áreas de cultivo. Segundo cálculos de especialistas, seria possível dobrar a produção agrícola brasileira – e não apenas da Amazônia, ressalte-se – sem derrubar uma única árvore.

Conforto zero
Barco de passageiros na rota entre Manaus e Santarém: é preciso ser aventureiro para fazer viagens e passeios fluviais na Amazônia

A maneira de reflorestar as áreas desmatadas da Amazônia terá de ser repensada. Atualmente, a lei manda que o reflorestamento seja feito apenas com espécies nativas da região. Ocorre que espécies que fornecem madeira de lei, como ipê, jatobá, mogno e jacarandá, são torradas todos os dias em fornos de barro para a produção de carvão vegetal na Amazônia. Para suprir a demanda de madeira, bastaria uma política de incentivo ao reflorestamento com espécies que não são nativas da região mas oferecem vantagens do ponto de vista econômico, como o eucalipto e a acácia. Estes, além de crescer rapidamente, vicejam em solos pobres e ajudam a recompor seus nutrientes.

A cidade de Iranduba, a 22 quilômetros de Manaus, é um centro produtor de tijolos. Para esquentar seus fornos, os oleiros derrubaram a mata da região. A Embrapa fez um estudo na área e concluiu que a melhor maneira de reflorestar é plantar acácia, uma espécie exótica que pode ser cortada depois de apenas dois anos. "Além disso, ela tem alto índice de biomassa e é eficiente como lenha", explica Celso Paulo de Azevedo, um dos responsáveis pelo projeto. "Apenas um terço da madeira usada no Brasil é de cultivo. Se conseguíssemos triplicar esse número, o corte ilegal de madeira diminuiria", afirma o biólogo Fábio Poggiani, professor de economia florestal da Universidade de São Paulo.

Muitos ambientalistas acreditam que a Amazônia pode ser recompensada, em dinheiro, apenas pela contribuição que a floresta em pé dá ao clima no mundo. São os chamados serviços ambientais. A região exerce influência nas chuvas não apenas no Brasil, mas também na Península Arábica, no Meio-Oeste dos Estados Unidos e no Sudeste Asiático. Além disso, a floresta estoca carbono da atmosfera e ajuda no balanço climático do planeta. O governo brasileiro já criou um fundo para receber contribuições de países e instituições destinadas a patrocinar medidas contra o desmatamento. Até agora, o Fundo Amazônia recebeu 100 milhões de dólares da Noruega. Para construir o futuro da Amazônia, no entanto, é melhor apostar em medidas que promovam o desenvolvimento, e não em fórmulas fantasiosas de preservação à força.