Carta ao leitor
Almanaque
O homem da Amazônia
Terra sem lei
Poluição das águas
Ar envenenado
Dilema das estradas
40 anos de Transamazônica
A economia que poupa a floresta
O tesouro da biodiversidade
Uma vocação de riquezas

   
 

O Homem da Amazônia
O
fator humano

Moram na Amazônia 25 milhões de pessoas,
a grande maioria em áreas urbanas. É dessa
gente que depende o futuro da maior floresta
tropical do planeta. Veja quem são e como
vivem os atuais desbravadores do norte do Brasil

Nos anos 70, durante o auge dos grandes projetos de infraestrutura implantados pelos governos militares, a Amazônia era conhecida como o inferno verde. Uma mata fechada e insalubre, empestea-da de mosquitos e animais peçonhentos, que deveria ser derrubada a todo custo – sempre com incentivo público – pelos colonos, operários e garimpeiros que se aventuravam pela região. Essa visão mudou bastante nas últimas duas décadas, à medida que os brasileiros perceberam que a região é um patrimônio nacional que não pode ser dilacerado sem comprometer o futuro do próprio país. Com seus 5 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia representa mais da metade do território brasileiro, 3,6% da superfície seca do planeta, área equivalente a nove vezes o território da França. O Rio Amazonas, o maior do mundo em extensão e volume, despeja no mar em um único dia a mesma quantidade de água que o Tâmisa, que atravessa Londres, demora um ano para lançar. O vapor de água que a Amazônia produz por meio da evaporação responde por 60% das chuvas que caem nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Mesmo agora, com o reconhecimento de sua grandeza, a Floresta Amazônica permanece um domínio da natureza no qual o homem não é bem-vindo. No entanto, vivem lá 25 milhões de brasileiros, pessoas que enfrentaram o desafio do ambiente hostil e fincaram raízes na porção norte do Brasil. Assusta observar que, no intenso debate que se trava sobre a melhor forma de preservar (ou, na maior parte das vezes, ocupar) a floresta, esteja praticamente ausente o maior protagonista da saga amazônica: o homem. É uma forma atravessada de ver a situação, pois o destino da região depende muito mais de seus habitantes do que de papelórios produzidos em Brasília ou da boa vontade de ONGs. A prioridade de todas as iniciativas deveria ser melhorar a qualidade de vida e criar condições econômicas para que seus habitantes tenham alternativas à exploração predatória. Só assim eles vão preservar a floresta em vez de destruí-la, porque terão orgulho de sua riqueza natural única no mundo.

A exuberância da natureza contrasta com a qualidade de vida dos amazônidas. A imagem idílica do caboclo que vive no paraíso tropical e nele quer permanecer só tem correspondência com o mundo real na imaginação de quem vive longe dali. Mesmo aquele que mora em pontos distantes, só acessíveis por barcos, assiste às novelas em televisores com antenas parabólicas e energia elétrica proveniente de geradores a óleo diesel. É natural que queira viver com os confortos modernos presentes no Sudeste, e não como uma relíquia viva do século passado. O ribeirinho, assim como o índio em sua aldeia, prefere cozinhar em fogão a gás, nem que para isso precise pagar por esse conforto com bens retirados da floresta. Em áreas rurais, a ausência de comércio e de dinheiro faz do escambo uma forma corriqueira de abastecimento da população. Um gerador, para manter a TV ligada por duas horas, consome 1 litro de diesel, que no mercado local pode ser trocado por um "bicho de casco" – em geral o tracajá, tartaruga que pode alcançar 8 quilos e é um petisco tradicional. Como explicar a essas pessoas que caçar animais que há gerações são parte da dieta local é agora um crime ambiental?

Depois do período colonial, a primeira grande onda migratória para a Amazônia ocorreu na virada do século XIX para o XX. Hordas de flagelados por três secas sucessivas no Nordeste foram enviadas para extrair o látex. Estima-se que entre 300 000 e 500 000 tenham se instalado na floresta. O fim do ciclo da borracha não apenas deixou os seringueiros abandonados, mas também arruinou a elite bem-educada, europeizada, de Manaus e Belém. Durante a II Guerra, para aproveitar uma curta crise no fornecimento de borracha, mais 150 000 pessoas foram despachadas para o Acre, Amazonas e Pará. A terceira e mais importante onda migratória foi incentivada pelos militares nos anos 70. A Zona Franca de Manaus, o avanço da agricultura e da pecuária e os assentamentos do Incra são agora os atrativos para a transferência de tantos brasileiros para a região.

Esses migrantes, somados aos indígenas e moradores antigos, mesclaram-se para formar um "Homo amazonius", o brasileiro adaptado à região. O país não o entende muito bem. As políticas para a Amazônia geralmente focam a população rural, o chamado povo da floresta. Esse modo de pensar podia fazer sentido no início dos anos 70, quando apenas 3,5% dos habitantes da região viviam em áreas urbanas. Nas últimas três décadas, o perfil demográfico se transformou em ritmo acelerado. Hoje, 73% da população vive nas cidades – e seus problemas são similares aos dos habitantes de qualquer cidade do Sul ou do Sudeste, só que agravados pela falta de serviços básicos de infraestrutura.

As soluções que propõem manter o homem no mato, sem possibilidade de progresso pessoal, mostram resultados pífios. O exemplo mais flagrante é o das reservas extrativistas de subsistência, uma receita criada pelo líder seringueiro Chico Mendes nos anos 80. Há hoje 86 dessas reservas, habitadas por 300 000 pessoas. Visto que colher látex e castanhas se mostrou insuficiente para garantir uma vida digna, ocorre por lá uma volta a atividades mais lucrativas: derrubar as árvores, vender a madeira, abrir campos de pasto para o gado. Estima-se que algumas dessas reservas extrativistas já tenham perdido 20% da cobertura vegetal e abriguem 40 000 reses. O bom exemplo de sucesso está na outra ponta – aquela que prospera de costas para a floresta. A Zona Franca de Manaus, criada em 1967, concentra 550 indústrias modernas, que, no ano passado, alcançaram um faturamento de 60 bilhões de reais. Uma riqueza produzida sem que seja necessário derrubar uma única árvore. A instalação da Zona Franca de Manaus é apontada como uma das principais causas de o estado do Amazonas ser o menos desmatado da Amazônia. Seu exemplo poderia ser replicado na região com a criação de outras indústrias limpas, como as ligadas aos setores farmacêutico e de biotecnologia.

Qualquer projeto que pressuponha o desenvolvimento com sustentabilidade da Amazônia precisa incluir o desmonte de uma parcela considerável das termelétricas alimentadas a óleo diesel que fornecem a maior parte da energia para a região. Embora a Amazônia seja classificada como o pulmão do mundo, suas termelétricas despejam anualmente na atmosfera 6 milhões de toneladas de dió-xido de carbono (CO2), o principal gás do efeito estufa. Isso equivale ao dobro do que despeja no ar todo ano a frota de veículos da cidade de São Paulo. Numa região com tantos rios caudalosos, é preciso que as hidrelétricas respondam pela maior parte da energia. A principal vítima da hegemonia das termelétricas na Amazônia é, mais uma vez, a população. Há escolas que são obrigadas as transferir os alunos do turno da noite para o da manhã porque não há óleo diesel suficiente para mover o gerador e iluminar as salas de aula.

Vivem na Amazônia 400 000 índios de quase 200 etnias e em diferentes níveis de contato com a sociedade brasileira. As setenta tribos que permanecem isoladas em pontos remotos representam menos de 1% desse universo. Setenta e cinco por cento dos indígenas vivem na floresta. Mesmo assim, os índios também não querem saber de permanecer na pré-história. "Os que continuam na aldeia querem trazer a cidade para dentro dela", diz Almir, cacique da etnia suruí, de Rondônia. Os computadores e a internet estão presentes em muitas aldeias. Em toda a Amazônia, índios usam a rede mundial para vender artesanato, estudar e reivindicar direitos. "Para ter influência política, a internet é melhor que o arco e flecha", diz Almir, que no ano passado fechou um acordo com o Google para mapear as terras de sua tribo. Vinte e cinco por cento dos índios da Amazônia vivem nas cidades e muitos vão parar nas favelas e palafitas. A população indígena de Manaus já é mais numerosa do que a da maioria das reservas, com mais de 12 000 índios.

Um dos principais entraves ao desenvolvimento da Amazônia é que parte significativa dela é um território sem lei. Apenas 4% das terras da Amazônia têm títulos de propriedade. Numa imensidão que corresponde a 59% do território brasileiro, ninguém sabe quem é o dono da terra e quem a ocupa. "Não há exemplo no mundo de região que tenha se desenvolvido economicamente sem segurança jurídica", diz o filósofo Denis Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "Em um ambiente de insegurança, as pessoas deixam de fazer investimentos a longo prazo para buscar apenas o benefício imediato", ele completa. Sem eliminar a anarquia legal e jurídica, fica difícil garantir a preservação da floresta ou preparar o terreno para melhorar a qualidade de vida do povo da Amazônia.

Em busca do sonho

Manoel Marques

O gaúcho Alceu Santos de Almeida, de 35 anos, é um exemplo de brasileiro que vê a Amazônia como um eldorado. Há cinco anos, ele deixou a cidade de Palmeira das Missões atraído pela possibilidade de comprar um pedaço de terra em Rondônia por um preço muito mais baixo do que no Rio Grande do Sul. Adquiriu um sítio de 100 hectares de mata bruta. Com 400 reais, alugou uma motosserra e jogou no chão quase 5 hectares de floresta. No lugar, ergueu um casebre de madeira e montou uma roça de milho, arroz e feijão, que ele lavra aos sábados e domingos. "De segunda a sexta-feira tenho de trabalhar na serraria", explica Alceu. Toda vez que vai à sua propriedade, carrega a espingarda para assegurar a carne da semana. Garante que caça apenas o suficiente para sua família comer. "Só os animais saborosos, como pacas, veados e queixadas", informa.



Território a desbravar

Cristiano Mariz

A catarinense Sandra Zanotto, química de 35 anos, é uma das raras cientistas que estudam os fungos e bactérias da Amazônia. A extraordinária biodiversidade amazônica é tão pouco estudada que não há sequer estimativas sobre a quantidade de espécies que vivem nas matas e nos rios. Há seis anos em Manaus, Sandra está montando um centro de biotecnologia na Universidade do Estado do Amazonas. "Pesquisar aqui é como desenhar num papel em branco", ela diz. "É preciso fazer com que os recursos naturais da Amazônia se transformem em riqueza para as pessoas que moram aqui", conclui.



A vida no laço

Manoel Marques

O vaqueiro Edilson Ferreira de Oliveira, de 31 anos, nasceu no Paraguai, país onde seu pai exercia a mesma profissão trabalhando para os brasiguaios. Morando na Amazônia há mais de vinte anos, trabalha acima de treze horas por dia, seis dias por semana. Com um salário de 900 reais mensais, ele se diz um vitorioso. "Tenho um emprego bom e uma renda que me permite viver com dignidade", vangloria-se. Junto com amigos, ele tem sob sua responsabilidade um rebanho de cerca de 1 000 animais na cidade de Monte Negro, em Rondônia. "Depois que cortar madeira virou crime, o boi se tornou o melhor negócio daqui", diz o vaqueiro, que carrega cachaça no cantil e prepara suas refeições todos os dias no meio do pasto.



Rali na selva

Léo Caldas/Titular

O paranaense João Juarez Barão, de 53 anos, percorre todo mês 1 400 dos 1 700 quilômetros de extensão da Rodovia Cuiabá-Santarém. Seu caminhão leva cerâmica até Itaituba, no Pará, e volta carregado de madeira. No trecho mato-grossense da rodovia, onde há asfalto, a viagem é sempre tranquila. Mas no Pará, onde a estrada é de terra, as condições mudam conforme a época do ano. Durante os seis meses de chuva, a mata parece avançar sobre a estrada, que se reduz a uma trilha de lama. "O inverno é um inferno", diz Juarez. "No verão, quando não chove, faço o mesmo percurso em um terço do tempo."



Caçadores de onça

Manoel Marques

Na Amazônia existe um tipo raro e valioso de cachorro, o chamado "mestre em onça". São cães – de raças variadas – treinados para localizar e encurralar o maior felino das Américas, forçando-o a subir em árvores e, assim, permitindo aos caçadores abatê-lo facilmente. Um cachorro com essa habilidade chega a ser negociado por 1 000 reais. Há cinco anos, o rondoniense Anderson Leandro Rayer, de 23 anos, filho de gaúchos que emigraram para a região nos anos 80, adquiriu seu primeiro cão mestre em onça. Hoje, quinze deles brincam em seu quintal. Pelo menos uma vez por semana, os cães partem com Leandro para caçadas no interior da floresta. "Meus cachorros são os melhores caçadores da região. Não tem bicho que não enfrentem", diz ele, orgulhoso.



Ninguém exige papel

Manoel Marques

O garimpo de cassiterita é a principal atividade econômica de Campo Novo de Rondônia. As crateras abandonadas pelos garimpeiros são uma marca visível nas margens das estradas locais. Uma dessas cicatrizes na floresta está na propriedade do mineiro Sebastião Lino de Melo, de 67 anos, 43 deles vividos na Amazônia. No ano passado, ele liberou o acesso dos garimpeiros à sua propriedade mediante o pagamento de 60 000 reais. Com o dinheiro, reformou a casa e comprou quinze cabeças de gado. "Acho que eles tiraram uns 900 quilos de minério daqui", diz Melo, sem se importar de ficar com a terra esburacada. Indagado se os garimpeiros tinham autorização para minerar, ele responde: "Aqui ninguém exige papel nenhum".



O seringueiro que quer ser peão

Manoel Marques


Antonio Rosa de Souza, de 48 anos, vive na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre. O seringueiro passa seis horas por dia na floresta extraindo látex e sempre carrega a espingarda para garantir a refeição da família – pacas, catetos e tatus que se aproximam da armadilha montada na mata. Os animais silvestres são uma importante fonte de alimento para sua família. Com renda mensal de 300 reais, ele só deixa a floresta para ir a Xapuri uma vez por mês, para comprar comida, que quase sempre é insuficiente para o mês inteiro. Souza vem abandonando o sonho de viver com dignidade apenas extraindo os produtos da floresta. Está convencido de que prestar serviço para fazendeiros locais é mais rentável do que extrair látex. "Limpando pasto e consertando cercas eu ganho 20 reais por dia, o dobro do que tiro com a borracha. Do jeito que as coisas vão, vou acabar virando peão", diz.



Na torcida da Copa

Léo Caldas/Titular

Todos os brasileiros estão ansiosos pela Copa do Mundo de 2014, mas poucos como a família de Osmar Oliveira e Editi Pantoja. Recém-estabelecidos à beira da BR-319, eles acreditam que o evento vai forçar o asfaltamento da rodovia que liga Porto Velho a Manaus, uma das sedes da Copa. Osmar espera que, com o asfalto, os carros voltem a trafegar pela estrada, trazendo clientes para os novos empreendimentos da família: um hotel e um restaurante. Atualmente, a BR-319 encontra-se parcialmente abandonada e o movimento diário de veículos pode ser contado nos dedos. "Minha padaria só vende quinze pães por dia", diz Osmar.



O colapso da madeira

Léo Caldas/Titular

A extração de madeira da floresta foi, durante as últimas décadas, o motor da cidade de Goianésia do Pará. A crise do setor, provocada pelo aumento do combate ao desmatamento ilegal e pela demora na aprovação de projetos de reflorestamento, levou o município inteiro ao colapso. O baiano Evanildo Nascimento de Souza, 47 anos, está há dois com duas serrarias e uma marcenaria fechadas. Hoje, a cidade de 40 000 habitantes tem 6 000 desempregados. O maior empregador é a prefeitura. O município corre atrás da diversificação da economia, incentivando a agricultura nas terras já desmatadas e abandonadas. "Se tivéssemos tido esse estalo três anos atrás, não estaríamos nesta situação", diz Evanildo.



Índio quer MBA

Alberto César Araújo

A população indígena de Manaus já é tão grande quanto a das maiores aldeias da Amazônia. Há na cidade mais de 12 000 índios. Apesar de os indicadores sociais entre eles apontarem para um baixo padrão de vida, há exceções. É o caso de Alcindo Nicanor Alfredo, de 24 anos. Alcindo é um índio ticuna que nasceu numa maloca no município de Benjamin Constant, na fronteira com o Peru. Ele só aprendeu o português aos 10 anos. Aluno de um programa de educação indígena, concluiu o ensino médio em sua aldeia, ganhou uma bolsa de estudos e foi para Manaus, onde acaba de se formar em administração numa universidade particular. Trabalhando há três anos em uma das fábricas do Polo Industrial de Manaus, recebe 1 000 reais por mês. Com um sotaque parecido com o dos caipiras do interior paulista, Alcindo avisa: "Agora estou planejando um MBA. O mercado é concorrido e eu quero me destacar".



O caixeiro-flutuante

Léo Caldas/Titular

Os regatões são barcos usados por mascates, típicos da Amazônia, que cruzam a região abastecendo as comunidades ribeirinhas nos rincões mais remotos da selva. A cada dois meses, o paraense Alcindo Oliveira da Silva deixa o Porto de Abaetetuba, no Pará, para subir o Rio Amazonas por um mês. O porão do regatão vai carregado com 40 toneladas de mercadorias: sal, café, açúcar, refrigerante, bolacha, sabão e sal grosso para o gado. As vendas são feitas a crédito – o cliente só paga quando o regatão volta, descendo o rio. Alcindo repete o trajeto, até a divisa com o estado do Amazonas, desde 1986. "Tenho mais de 200 fregueses cativos, que podem atrasar, mas nunca deixam de pagar o que devem", diz.



A escola possível

Pedro Martinelli


Desde 1989, a professora Yolanda Santiago, de 42 anos, dá aulas em comunidades ribeirinhas do Rio Negro. Atualmente ela trabalha em uma delas, com doze famílias, a cerca de duas horas de barco do município de Novo Airão, no Amazonas. Como só há um professor para dividir com ela a tarefa de ensinar 36 alunos, com idade que varia de 3 a 43 anos e que cursam da pré-escola ao final do ensino fundamental, o jeito é improvisar. Alunos de diferentes turmas – do 1º ao 4º ano, por exemplo – dividem espaço numa mesma sala. "Procuro separá-los por grupinhos, para não embaralhar a cabeça deles. Mas é complicado trabalhar assim, porque os conteúdos são diferentes", diz. Outra dificuldade é a energia elétrica, fornecida por um gerador a diesel, que atende a comunidade apenas à noite, das 18 às 22 horas.



O turismo não decola

Manoel Marques

O holandês Peter Tilanus esteve no Brasil pela primeira vez em 1991, quando era executivo da Shell. Em 2002, decidiu abrir um hotel de selva próximo a Manaus, porque acreditava que investir no turismo amazônico era um bom negócio. Empatou 2 milhões de euros no hotel e ainda não obteve retorno. Tilanus avalia que o problema está na falta de infraestrutura do turismo na região. Diz ele: "Há anos o turismo na Amazônia fica só na promessa. As agências de viagem trabalham com poucos pacotes para a região e não há nenhum voo direto da Europa". Há quatro meses Tilanus montou uma associação de hotéis de selva para planejar maneiras de atrair mais turistas.



O dono da luz

Pedro Martinelli

Orsine Oliveira, de 60 anos, é o décimo de doze filhos de uma família de seringueiros do Amazonas. Ele passou parte da infância numa comunidade onde não havia energia elétrica, na região do Médio Juruá. "Luz era só a de candeeiro mesmo", conta Oliveira, que só viu uma lâmpada acesa aos 3 anos de idade, quando o pai arrumou outro emprego e se mudou com a família para o município de Carauari. Anos mais tarde, a família seguiria para Manaus, onde Oliveira começou a trabalhar numa loja de fotografia aberta pelo irmão mais velho. Ele hoje comanda a Oliveira Energia, a principal fornecedora de geradores para as termelétricas que levam energia ao interior do Amazonas. Oliveira não tem dúvida de que as dificuldades que enfrentou na infância o ajudaram a vencer na vida. "O homem que vem do interior da Amazônia só pensa em progredir", afirma.