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02/10/2009

às 13:23 \ Séries Anos 1950-1959

Juntem-se a Nós em uma Região Além da Imaginação

Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação.

Com estas palavras, Rod Serling introduzia os episódios de sua série Além da Imaginação/The Twilight Zone. Nessas estórias sobre o fantástico, o surreal, o macabro, ele transportava seu público a uma região onde o inimaginado era possível e o surpreendia com um final inesperado. O tom em geral sugeria cautela com relação ao que parecia real ou seguro.

À revista TV Guide de novembro de 1959, Serling apresentou a nova série como “uma antologia de meia hora, que mergulha no estranho, no bizarro, no inesperado. Ela sonda a dimensão da imaginação, preocupando-se com o bom gosto e com o público adulto, que há muito tem sido considerado ignorante.”

Essa região além da imaginação dava a Serling a chance de discutir sobre assuntos que de outra forma jamais teriam passado pela censura das redes ou pela aprovação dos patrocinadores. Misturando ficção científica, terror, fantasia e suspense, ele conseguiu falar sobre os temas do momento em horário nobre. Para burlar essa censura, ele negava, em entrevistas, que sua série abordaria questões sociais ou políticas, seria apenas diversão bem elaborada para telespectadores inteligentes.

Nada disso pode parecer inovador para o público de hoje, acostumado a fórmulas semelhantes usadas em diversas séries, como Twin Peaks, Arquivo X, Lost ou Fringe. Mas nenhuma delas surgiu do nada, tiveram o caminho aberto e pavimentado por produções como Além da Imaginação, e suas contemporâneas One Step Beyond e The Outer Limits, as primeiras a abordar o sobrenatural, universos paralelos, premonições, o improvável.

Em 1958, ele fez sua primeira tentativa com um roteiro intitulado The Time Element, no qual um homem (William Bendix) sonha com o ataque a Pearl Harbor, mas é ignorado ao avisar o exército. Embora a CBS tenha comprado o roteiro, preferiu engavetá-lo, pois não via nenhum potencial. Mais tarde, Bert Granet, produtor de Westinghouse Desilu Playhouse, esbarrou no texto e se interessou. Porém, antes de produzi-lo, solicitou alterações, pois o departamento de defesa dos Estados Unidos era cliente do patrocinador (Westinghouse), e não ficaria bem apresentar seu cliente de forma negativa. Por isso, o homem passa a informação à imprensa em vez de ao exército.

O filme foi ao ar dia 24 de novembro de 1958 e teve muito sucesso, atraindo a atenção de mais fãs do que os outros programas da CBS. A rede então decidiu dar uma chance a Serling, que escreveu um segundo piloto, Where is Everybody, cuja estreia foi dia 2 de outubro de 1959. Earl Holliman interpreta um homem perdido em uma cidade deserta, onde no entanto escuta automóveis, sente cheiro de café fresco e vê cinzeiros com fumaça. Logo, o pânico toma conta dele e o público descobre que tudo não passou de uma alucinação provocada por um teste do programa espacial para determinar as limitações humanas em uma viagem simulada à lua.

Na versão original, o piloto tinha 35 minutos sem comerciais, pois incluía uma mensagem de Rod Serling com o objetivo de promover o produto entre anunciantes. Inicialmente, a narração seria feita por Westbrook Van Voohris, mas como ele era muito pomposo, Serling e a CBS cogitaram contratar Orson Wells. Seu preço, porém, foi recusado pelo anunciante General Foods.

O estilo pioneiro de Serling logo conquistou a aprovação do público e da crítica. Para manter esse nível, seu contrato com a rede estipulava que pelo menos 80% dos roteiros fossem escritos por ele. Sua rotina diária era rigorosa, dedicando cerca de 18 horas à série. Dos 156 episódios, produzidos ao longo das cinco temporadas, 92 foram escritos por ele. Raramente usava máquina de escrever, preferindo ditar rascunhos, que depois eram datilografados. Ele então fazia ajustes, e em no máximo dois dias, o roteiro ficava pronto. Como ele conseguia? De acordo com um colega, Serling tinha insônia e mantinha um gravador perto da cama. Enquanto tentava dormir, ele ia registrando as idéias que lhe vinham à cabeça. Com exceção do episódio The Chaser, todos os roteiros da primeira temporada foram escritos por Serling e seus colaboradores Charles Beaumont e Richard Matheson.

Gig Young em “Walking Distance”

Como vencer a competição, era provavelmente uma de suas preocupações, pois foi apenas em novembro que os níveis de audiência convenceram os patrocinadores, General Foods e Kimberly-Clarke, que o produto era comercial o suficiente para se manter no ar. Prova disso foram os prêmios recebidos pela 1ª temporada. Um Emmy de melhor roteiro e um Hugo Award de melhor série dramática para Rod Serling, e um Producers Guild de melhor roteiro para seu associado Buck Houghton.

A segunda temporada começou com um episódio baseado em fatos reais. Em King Nine Will Not Return, um piloto da 2ª Guerra se acorda em um deserto na África e tenta desesperadamente descobrir o que aconteceu com sua tripulação. O fato por trás dessa estória envolvia um avião B-24, cuja tripulação só foi encontrada 15 anos após ter sofrido um acidente.

Robert Cummings em “King Nine Will Not Return”

Nessa temporada, a Colgate-Palmolive substituiu a Kimberly-Clarke, e mais tarde a Liggett & Myers tomou o lugar da General Foods. Nessa mesma época, James Aubrey assumiu a direção da CBS e achou que a série era cara demais. Por isso, exigiu que a produção realizasse sete episódios a menos do que na primeira temporada, e que seis deveriam ser filmados em videotape. Assim mesmo, alguns dos episódios mais aclamados foram produzidos nesse período e novamente, Serling levou para casa um Emmy de melhor roteiro. George T. Clemens recebeu o Emmy de melhor fotografia, e novamente a série recebeu o Hugo Award de melhor série dramática.

Aos poucos, Serling, Beaumont e Matheson começaram a contratar mais escritores, e ao time juntaram-se George Clayton Johnson, Montgomery Pittman e Earl Hamner Jr. Até mesmo Ray Bradbury deu sua contribuição, no episódio I Sing the Body Electric, em 1962 . Mas no começo da terceira temporada, Serling, então com 37 anos, começou a demonstrar fadiga. Houve indicações ao Emmy, mas a série só ganhou, novamente, o Hugo Award de melhor série dramática.

Peter Falk em “The Mirror”

 

No outono de 1962, a série demorou para encontrar patrocínio para a 4ª temporada, por isso a CBS a substituiu pela comédia Fair Exchange em setembro. Certos de que a série havia sido cancelada, o produtor Buck Houghton aceitou uma oferta da Four Stars Production, enquanto Serling começou a dar aulas na Antioch College. Então, em novembro, a CBS trouxe Além da Imaginação de volta para substituir Fair Exchange. Como a comédia tinha uma hora de duração, os novos episódios teriam de preencher o espaço, fórmula que não agradou a Serling. Para substituir Buck Houghton, Herbert Hirshman foi contratado. Sua primeira determinação foi criar uma nova sequência de abertura.

Serling entre Bob Mitchel, Milton Parsons e David Bondem “The New Exhibit”

 

A contribuição de Serling às estórias foi reduzida. Como produtor executivo, sua presença em Los Angeles tornou-se mínima. Uma doença cerebral também reduziu a participação de Beaumont, e assim foram encomendados mais roteiros a Earl Hamner Jr. e Reginald Rose. A próxima alteração foi Hirschman, que juntou-se à NBC para produzir a série Espionage. Para substituí-lo, Bert Granet foi chamado. Sob seu comando, a série recebeu indicações ao Emmy e ao Hugo Award, e conseguiu retornar ao formato de meia hora.

A quinta temporada começou com novos patrocinadores, American Tobacco e Procter & Gamble. Beaumont retirou-se completamente e Bert Granet foi substituído por William Froug, com quem Serling já havia trabalhado em Playhouse 90. As alterações propostas por Froug não tiveram boa aceitação. Ele ignorou bons roteiros encomendados por Granet e contratou Richard deRoy para reescrever o trabalho de George Clayton Johnson. De acordo com Johnson, a revisão tornou o texto trivial.

Billy Mumy em “In Praise of Pip”

 

Embora essa temporada não tenha recebido nenhum prêmio ou indicação, apresentou um episódio baseado em um filme francês intitulado La Rivière du Hibou, que recebeu um Oscar de melhor curta em 1964. O filme é uma adaptação narrada do conto An Occurance at Owl Creek Bridge, escrito pelo contista americano Ambrose Bierce, no século 19. O filme foi comprado por Serling, reeditado para Além da Imaginação e recebeu uma narração diferente para explicar a novidade. Serling o introduz dizendo “a apresentação desta noite é tão especial e única que, pela primeira vez em cinco anos de Além da Imaginação, vamos oferecer um filme rodado na França por outras pessoas (…) um estudo assustador do incrível, escrito pelo mestre do incrível, Ambrose Bierce (…).” A série Lost também fez uso desse conto no episódio The Long Con. Quem tiver curiosidade, pode ler o conto traduzido aqui ou em inglês aqui. Pode também assistir a An Occurance at Owl Creek Bridge no vídeo abaixo.

Em janeiro de 1964, a CBS anunciou o cancelamento da série, aparentemente por razões financeiras. Pouco depois, Serling vendeu seus direitos a CBS, abandonando todos os projetos envolvendo o sobrenatural, até retornar com A Galeria do Terror/Night Gallery, em 1969.

A idéia foi reaproveitada no filme The Twilight Zone: The Movie (1983) e em outras duas séries como o mesmo título em 1985 e 2002. Atualmente a produtora de Leonardo DiCaprio (Appian Way) tem um projeto em andamento e ainda sem título para um novo filme a ser lançado em 2011. Leiam em nossa postagem sobre esse assunto.

Para homenagear os 50 anos da série, o canal Syfy americano fará uma maratona de 15 episódios hoje. Outras celebrações também foram planejadas em Binghamton, NY, onde Serling cresceu, na Ithaca College em NY, onde ele lecionou de 1967 a 1975, e na Antioch College em Ohio, onde foi aluno, conheceu sua esposa, Carolyn Kramer, e onde lecionou. Para saber mais sobre o universo Rod Serling e sobre as celebrações a sua obra, visitem a página da Rod Serling Memorial Foundation.

Façam uma visita a essa região além da imaginação com um vídeo e a galeria de fotos.

Cliquem nas imagens para ampliar.

Texto: Marta Machado (a convite de Fernanda Furquim)

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1 Comentário

  1. Patricia Maia

    -

    03/05/2014 às 22:10

    Adorava assistir,Além da Imaginação.Era fantástico,surreal,cada episódio mexia com meu imaginário,com certeza devia voltar!

 

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