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‘Preamar’ estreia na HBO Brasil

Criada por Estevão Ciavatta, Patrícia Andrade e William Vorhees, Preamar é a nova série da HBO Latin America que estreia esta noite. Produzida pela Pindorama Filmes, a primeira temporada tem treze episódios.

A série narra a história de João Ricardo Velasco (Leonardo Franco), um executivo que, após perder o emprego em um banco, inicia um negócio informal nas praias do Rio de Janeiro, sem revelar para a família sua real situação. Mais informações sobre o enredo e o elenco aqui.

Preamar traz uma proposta interessante: explorar o comércio informal que existe nas praias do Rio, o qual, segundo a produção da série, gera cerca de R$7 bilhões por ano. Mas não apenas a venda de produtos em barracas será apresentada na história. A série também pretende expor o mercado da prostituição e das drogas, ao introduzir um personagem (filho de João), que ganha dinheiro vendendo ecstasy e arranjando programas para suas colegas de faculdade.

Apesar da proposta ser interessante o suficiente para levar o público a conferir Preamar, o primeiro episódio apresentado à imprensa não consegue ‘vender’ a série. Com cenas que não convencem (a exemplo do momento em que João perde o emprego) e diálogos fracos, a série oferece um primeiro episódio ‘esgarçado’, mais preocupado em mostrar os cenários e introduzir superficialmente a situação de cada um, que estabelecer um ambiente e enraizar os personagens de forma que possam levar o telespectador a se interessar por suas vidas. Para piorar, os atores não interpretam personagens, eles representam tipos que surgem na tela com um texto decorado.

Quem quiser conferir a série, ela estreia esta noite, às 21h, pela HBO. Por volta das 12h30 e novamente às 18h30, o canal exibe os bastidores de produção de Preamar.

18/04/2012

às 14:07 \ Opinião, Pilotos de Séries, Televisão

Canais americanos se preparam para o Upfront 2012

Na segunda quinzena de maio os canais abertos dos EUA realizam o evento anual conhecido como Upfront, no qual apresentam sua nova programação para anunciantes e representantes de agências de publicidade.

O objetivo é garantir antecipadamente a venda de espaços publicitários para a Temporada 2012-2013, que se inicia em setembro. Com isso, a imprensa e o público tomam conhecimento de quais produções foram renovadas e quais pilotos ganharam a encomenda de uma série.

O Upfront conta com a presença de atores e produtores que explicam do que se trata a nova série e quais os objetivos do programa. Logo após cada evento, o departamento comercial de cada canal começa a atender os anunciantes interessados, oferecendo informações detalhadas em relação ao potencial demográfico (faixa etária, poder aquisitivo, etc), psicológico (grupos de pessoas com os quais os programas poderão se identificar) e geográfico (área de maior interesse naquele tipo de programa). Veja mais informações sobre o que é Upfront aqui.

O interesse do anunciante não é o conteúdo do programa em si, mas o poder que ele tem de atrair o interesse do público e da mídia. Desta forma, o canal pode produzir a mesma história narrada de diferentes formas, estrelada pelos mesmos tipos de personagens que fizeram sucesso em outras produções. Para o anunciante isso não terá problema, desde que haja um público interessado em assistir aquela série. O valor do espaço comercial (ou da inclusão de anúncios na narrativa), o alcance que a exibição do comercial terá e a frequência com que ele será apresentado é o que conta.

Assim, a primeira preocupação do anunciante é correr atrás dos canais que conseguiram o maior nível de audiência na Temporada anterior. Neste caso, os canais que terão maior interesse do anunciante para a próxima Temporada são CBS, Fox e ABC, que são as líderes no momento.

Até o início de abril, a CBS mantinha a média de 12.17 milhões de telespectadores, com 3.1/9 de rating/share entre o público alvo do anunciante, que compreende a faixa etária entre 18 e 49 anos. Em segundo lugar está a Fox, com 9 milhões de telespectadores. Apesar da totalidade da audiência ser menor que da CBS, a Fox ganha da concorrência pelos números conquistados entre o público alvo, que está em 3.3/9 de rating/share. Por esse motivo, o canal costuma anunciar ser o número um na audiência americana. A ABC está logo atrás com 8.4 milhões e 2.9/7 de rating/share.

Entre os canais da rede aberta, a NBC e o CW são os últimos na preferência do público. A NBC registra a média de 7.9 milhões de telespectadores, com 2.7/7 de rating/share, enquanto o CW conquista a média de 1.79 milhões, com 0.8/2 de rating/share. Veja como ler os números da audiência aqui.

O que significa esses números para os fãs de séries? Significa que as produções que estão abaixo da média do canal correm o risco de cancelamento. É claro que, na decisão final, também é levado em consideração o interesse dos canais por um determinado programa, ou seja, o custo x o benefício. Neste caso, cada caso é um caso.

Para garantir o interesse do público e conquistar anunciantes, a TV busca nos sucessos das Temporadas anteriores elementos que possam ser reaproveitados nas novas séries. Este é o motivo pelo qual vemos tanta série repetir situações, bem como oferecer os mesmos tipos de personagens.

Para este ano, temos como exemplo o sucesso da série britânica Downton Abbey em território americano. Sua segunda temporada deu ao canal público PBS sua maior audiência até hoje, com 7 milhões de telespectadores. Ao disponibilizar a temporada em seu site, o canal registrou mais 7.1 milhões de visualizações, sendo a maior parte da audiência composta pelo público feminino da faixa etária entre 35 e 49 anos.

Entre os canais abertos americanos, a ABC é aquele que tem a maior concentração da audiência feminina, mantendo uma programação com temas voltados para este público, os quais, geralmente, trazem uma abordagem novelesca. Assim sendo, um dos projetos de séries do canal é Gilded Lilys, criado pela ‘rainha das séries-novelas’ Shonda Rhimes, em parceria com Betsy Beers. Situada em 1895, a história acompanha a relação entre patrões e empregados, bem como hóspedes, de um hotel de luxo em Nova Iorque.

O canal, que busca um substituto para Desperate Housewives, desenvolve um outro projeto que, além de também fazer referência à trama de Downton Abbey, capitaliza o sucesso do filme Histórias Cruzadas/The Help, sobre empregadas domésticas e suas relações com as patroas. Trata-se de Devious Maids, adaptação de Marc Cherry (Desperate Housewives) de uma série mexicana.

Tal como a ABC, a CBS também busca capitalizar o sucesso de terceiros. Assim, encomendou o projeto de série Elementary, que traz o detetive Sherlock Holmes vivendo em Nova Iorque nos dias atuais. Na trama, ele será um dependente de drogas que viaja para os EUA em busca de tratamento. Lá, ele conhece Watson (que nesta versão é uma mulher), uma médica que o ajuda a manter-se longe das drogas. Além de buscar a audiência da série inglesa Sherlock, que faz sucesso em território americano, a CBS também busca capitalizar os órfãos de House, série cancelada pela Fox, a qual se inspirou em Sherlock Holmes para construir o personagem central.

Estes são alguns exemplos de como a TV americana reformula ideias e propostas que deram certo no próprio veículo ou em outros para atrair o interesse do público e garantir anunciantes.

Mesmo não tendo muitas sitcoms que realmente valham a pena, o sucesso dos blocos de comédias dos canais, em especial da CBS, não passou despercebido. Assim sendo, para a Temporada 2012-2013 o gênero que se destaca é a comédia. Além de ter um custo menor para ser produzida, ela também é a preferida dos canais regionais que compram séries para exibição em reprise.

Para a Temporada 2012-2013 estão em desenvolvimento cerca de 48 comédias e 43 dramas. Na soma total, a diferença não é grande mas, ao conferir a quantidade por canais, percebe-se o interesse de cada um pela comédia. A ABC tem treze comédias e doze dramas; a CBS tem dez comédias e oito dramas; a NBC tem quatorze comédias e dez dramas; a Fox, que levou um susto com o fracasso de Terra Nova, investiu mais na comédia (com onze projetos) que no drama (que totalizam cinco). Já o CW não produz mais comédias há alguns anos. Desta forma, o canal tem oito projetos dramáticos. Cliquem nos links para conferir os projetos.

Na Temporada 2011-2012, a ABC conseguiu se destacar com três séries: Revenge, Suburgatory e Once Upon a Time, mas nenhuma delas conseguiu ser renovada até agora. Como disse antes, a maior preocupação do canal no momento é encontrar um substituto para Desperate Housewives. Em função disso, além de Guilty Lilys e Devious Maids, o canal desenvolve outros projetos de séries-novelas: Americana e Nashville, além de Mistresses, que já teve sua produção aprovada, com previsão de estreia para a Summer Season de 2013. Seguindo a boa receptividade de Once Upon a Time, o canal também prepara A Bela e a Fera, projeto que também está sendo desenvolvido pelo CW, com a diferença que a do canal ABC é com base no conto de fadas e a do CW é um remake da série dos anos de 1980.

Enquanto a CBS conseguir manter sua audiência, o público não deve esperar que o canal promova qualquer mudança em seu perfil, o qual é voltado para os dramas investigativos com abordagem procedimental e sitcoms tradicionais, que são aquelas gravadas com a presença de um público, com desenvolvimento caricato de personagens. Estes dois formatos são os mais fáceis de ser desenvolvidos, com um menor custo, e os que geram uma receptividade maior junto ao grande público, que busca entretenimento sem compromisso.

Nos últimos anos, foram poucas as vezes que o canal apostou em propostas que fugiam a essa regra, embora não muito. The Good Wife é um drama jurídico que se apóia em uma história por semana, com a trajetória de personagens servindo como pano de fundo. Já A Gifted Man, que está sendo considerada como cancelada, embora não oficialmente, era uma produção sobre um médico que enfrentava um problema por semana. Entre os projetos em desenvolvimento para a próxima Temporada, aquele que parece ser a proposta que foge à regra é Ralph Lamb, drama policial com base na vida real. A produção é situada na década de 1960 e gira em torno de um delegado de polícia em Las Vegas que tenta acabar com a máfia que controla os Cassinos.

Entre as séries da Temporada 2011-2012, a Fox emplacou apenas New Girl, que já foi renovada. Entre seus novos projetos, nenhum se destaca de fato. Existem alguns que trazem temas que podem interessar o público, como o Projeto de Kevin Williamson, que narra a história de um policial à caça de um serial killer. Tendo em vista o sucesso de Dexter, a proposta pode despertar o interesse do público na rede aberta, ainda mais por ser estrelada por Kevin Bacon, um nome conhecido.

A NBC é o canal que ainda está tentando reconstruir seu perfil e seu público. Além de também apostar em uma história sobre um serial killer, com a série Hannibal, adaptação para a TV do personagem Hannibal Lecter, que já teve treze episódios encomendados para a primeira temporada, o canal ‘atira para todos os lados’ apostando em diversos temas e gêneros consagrados.

A NBC tem projetos médicos, de resgate, político, investigativo, ficção científica sobre holocausto e sobre o futuro da humanidade, comédias estreladas por nomes conhecidos, remake de série de sucesso, versões americanas de séries estrangeiras, adaptações de clássicos (Jeckyl and Hyde) e até um faroeste. Fica difícil saber para que lado o canal irá a pender na hora de escolher quais dos seus projetos serão transformados em séries.

Já o canal CW, que tal como a ABC atrai uma audiência mais feminina, tem neste momento apenas duas produções consagradas (The Vampire Diaries e Supernatural). Ele precisaria substituir todas as outras séries de sua grade, algo que provavelmente não fará. O canal tem apenas oito projetos em desenvolvimento, dos quais dois tiveram fotos oficiais distribuídas à imprensa: The Carrie Diaries e Arrow. Por isso mesmo, acredita-se que estes dois projetos tenham maiores chances de conseguir um lugar na grade do canal.

Mas o CW não deve ficar restrito a apenas duas novas séries. É provável que ele aprove três ou quatro novas produções. Dependerá da vontade do CW em cancelar alguns dos títulos que estrearam na última Temporada e que não emplacaram, bem como dar um tiro de misericórdia em algumas das produções mais antigas que já perderam seu brilho e o interesse de seu público alvo. Entre as produções da última Temporada, apenas The Secret Circle consegue chegar perto da audiência média do canal.

Resta aguardar pela segunda quinzena de maio para saber quais serão as novas produções americanas que farão parte da vida dos fãs a partir do próximo semestre. Algumas das quais, com certeza, não durarão muito tempo. A cada ano a TV americana reduz sua audiência, tornando uma tarefa difícil para o veículo conseguir resgatar seu público. Até duas décadas atrás, as séries conseguiam gerar a média de 20 a 30 milhões de telespectadores. Hoje este número está em torno de 10 milhões, embora ele não represente sua totalidade, já que a Nielsen, empresa que mede a audiência americana, trabalha com uma pesquisa por amostragem.

Apesar das dificuldades, a TV aberta ainda é o veículo que mais atrai o público e, consequentemente, o anunciante, o que permite aos canais se acomodarem na produção que atende esses dois interesses, e não no potencial criativo do veículo.

27/03/2012

às 0:38 \ Opinião, Séries Anos 2000-2009

Quinta temporada de ‘Mad Men’ define o início da mudança

Após um longo período fora do ar, Mad Men estreia sua quinta temporada renovando-se. Fiel à sua narrativa lenta e à estrutura de seus personagens, a história traz para o público uma proposta de mudança de rumo. Com duas horas de duração (que representam os dois primeiros episódios da temporada) o episódio  representa as transformações sociais da década de 1960, que até agora vinham sendo mantidas a uma distância segura ao longo das quatro primeiras temporadas.

O texto abaixo contém spoilers.

Mad Men é uma série que retrata através das vidas de pessoas que não promoveram os movimentos sócioculturais de seu período, as transformações da década de 1960. Vivendo esses movimentos de forma distanciada, os personagens assimilaram emocional e inconscientemente os desejos dessa geração. Assim sendo, frustrados com o tipo de vida que levavam, eles buscaram por algo que pudesse preencher os vazios e a estagnação de suas vidas ou seus sonhos.

Peggy desejava seguir uma carreira; Joan queria um marido; Don buscou a felicidade; Roger o prazer; e Pete o sucesso. Sem saber exatamente como conseguir o que desejavam, eles foram atrás de seus sonhos, tateando no escuro, dando ‘cabeçadas’.

Frustrado com sua vida, Don buscou a felicidade em outro lugar. Trocou de identidade, de carreira, de casamento. Teve amantes, teve filhos, teve sucesso nos negócios, mas ainda assim não estava satisfeito. No final da quarta temporada ele encontrou Megan, a quem, impulsivamente, pediu em casamento.

Tentando se tornar uma mulher dos novos tempos, Peggy envolveu-se com Pete, engravidou, entregou o filho para adoção e dedicou-se à sua carreira, com o objetivo de se tornar algo mais que uma dona de casa que cuida dos filhos e frequenta a igreja. Ao longo de quatro temporadas ela lutou para fazer parte da equipe, ser um dos rapazes, deixar sua marca no mundo dos negócios. Ela conseguiu, mas ainda está dando seus primeiros passos. Isto não significa que sua vida amorosa foi deixada de lado, apenas determinou que ela ficará em segundo plano.

Joan já tinha uma carreira e, dentro de sua profissão, atingiu o ponto mais alto. Faltava-lhe um marido e uma família, algo que toda mulher respeitável de sua época era condicionada a buscar. Casou-se com alguém que tinha menos determinação e ambição que ela, mas tinha uma carreira socialmente aceitável: um médico. Grávida de seu ex-amante, Joan se torna mãe e descobre que, embora seja seu desejo de voltar ao que era antes, sua vida sofreu uma mudança definitiva.

A ambição de Pete o levou a ter tudo o que desejava, um bom emprego e uma família. Mas para ele isso é apenas o começo. Certo de que é capaz de conseguir o respeito dos colegas e do meio em que vive, ele está determinado a utilizar todas as suas chances para deixar sua marca no mundo dos negócios.

Para Roger, o prazer pode ser encontrado em qualquer cama ou copo, mas chega uma hora que nem isso é o suficiente. Casado, divorciado e casado novamente, Roger não desistiu de suas escapadas ou festas, mas já demonstra que seu momento passou. Como um bibelô em seu local de trabalho, Roger, tal qual o período que ele representa, já não tem muita função. Agora ele terá que descobrir uma forma de assimilar a passagem do tempo, antes de ser substituído por ele.

Em sua quinta temporada, as mudanças em Mad Men são notadas desde a estética do ambiente e o figurino até o comportamento das pessoas e a forma como elas compreendem a situação, bem como o enfoque dado pelo roteiro, que praticamente re-introduz os personagens, mas sob a ótica de Megan ou da geração que ela representa. Desta forma, temos uma visão do comportamento dos nossos velhos conhecidos como algo que pertence ao passado e que, para se estabelecerem novamente, precisarão se adaptar aos novos tempos.

Apresentando elementos que representam essa simbiose entre o antigo e o novo, a série reestreia com Megan tentando entender os antigos personagens, ao passo que esses começam a conhecer a nova sra. Draper, que graças ao casamento subiu de posto na SCDP.

Embora mantenha uma postura austera e privada, Don sempre abraçou tudo o que representava o novo. Tanto no trabalho, onde várias vezes convenceu seus clientes e colegas a aceitaram as mudanças dos tempos, quanto na vida pessoal, na qual, insatisfeito com o que tinha, buscou e envolveu-se com diversas mulheres mais jovens e com um estilo de vida que representava para ele um universo completamente diferente daquele em que vivia. Mas o que acontecerá com esse homem agora que o ‘novo’ chegou? Apesar de desejar essas mudanças, ele sempre se manteve a uma distância segura, escondido atrás do muro que ergueu entre ele e a sociedade.

Sua nova esposa é um símbolo das transformações sociais de sua época. Jovem, bonita, inteligente e consciente do meio em que vive, Megan leva para a agência e para a vida de Don os ares dos novos tempos. Sentido-se rejeitada pela sociedade que a cerca e que a ridiculariza, ela questiona quem são aquelas pessoas que se enraizaram em um comportamento e linha de pensamento que, para ela, já não existem mais. Em determinada cena, Don lhe diz que o problema não é ela, que o ambiente já estava infectado há anos.

Durante uma festa, Megan, tal qual o que ela representa, choca os demais quando começa a dançar e a cantar, sem demonstrar qualquer constrangimento em mover seu corpo de forma sensual, adotando o ritmo de sua geração. Mas a personagem é apenas um dos símbolos dessas mudanças anunciadas.

Quando o episódio tem início, Sally acorda para uma nova vida: uma casa grande, decorada com móveis modernos e coloridos, e um pai casado, que não tenta esconder da filha sua relação com a nova esposa. Após deixar os filhos na casa da mãe, Don vai para o trabalho onde o telespectador encontra outras mudanças já estabelecidas.

A agência conta com novas funcionárias, mas sem a presença de Joan a disciplina não é a mesma. Embora sejam repreendidas, as secretárias já não demonstram ter vergonha de seus erros. O ambiente está mais descontraído, Pete grita pelos corredores, Don está disperso e as mulheres não se diminuem mais. Não apenas no escritório, mas também na vida pessoal. A esposa de Pete já não é mais a dona de casa impecável, e Megan não pede desculpas a Don por seu comportamento, nem se envergonha por ele.

Em uma cena entre Joan e Pryce, a secretária, que anseia por voltar ao trabalho e à sua antiga vida, chora ao dizer que para ela é difícil entender o que está acontecendo no  ambiente do qual está temporariamente afastada. É como se dissesse que não reconhece mais as pessoas ou o lugar.

No final da década de 1960 muitos dos movimentos que ocorriam nos EUA começaram a conquistar os louros da vitória. Em seu primeiro episódio, a quinta temporada de Mad Men estabeleceu esse ponto de transformação, tanto da época em que ela é situada, quanto da série, que nas próximas duas ou três temporadas deverá registrar a forma como essas mudanças são assimiladas pelos personagens e pelo telespectador.

Embora situada em um período relativamente distante, Mad Men retrata a situação da sociedade dos dias atuais. Tal qual ocorreu na década de 1960, os anos de 2010 representam um ponto de ruptura entre o passado e o futuro. O surgimento das novas tecnologias leva a uma mudança significativa no comportamento das pessoas e na forma de pensar da sociedade. Ninguém sabe o que virá. Muitos anseiam por isso, outros lamentam as mudanças; alguns fazem parte do movimento, outros apenas o assimilam, mas o fato é que, lentamente, hoje estamos passando pelo mesmo processo de transformação pelo qual Don, Roger, Peggy, Joan, Pete e companhia passam.

 

 

Fernanda Furquim: @Fer_Furquim

Os vídeos contêm spoilers.

 

24/03/2012

às 11:47 \ Opinião, Séries Anos 2010-2019

‘Smash’ estreia no canal Universal

Em agosto deste ano Marilyn Monroe completa 50 anos de sua morte. Representante de um período de ouro da meca do cinema, a atriz é lembrada como o símbolo sexual de Hollywood. Ela iniciou sua vida como Norma Jeane e a encerrou como Marilyn. Ao longo de seus 36 anos de vida, sofreu de depressão, solidão e um grande temor de ficar louca como sua mãe. Como uma espécie de Jeckyll e Hyde, Norma criou Marilyn, que com o tempo tomou seu lugar. Foi Marilyn que o público conheceu e é ela que é cultuada. Essa dualidade é retratada na série através das duas personagens que disputam a oportunidade de interpretá-la.

Criada por Theresa Rebeck (Law & Order: CI), com base em uma ideia de Steven Spielberg, a série foi originalmente oferecida para o canal a cabo Showtime. Mas quando Bob Greenblatt, diretor de programação do canal, passou a exercer esta função na NBC, ele levou Smash com ele.

Apresentando músicas originais, além de alguns canções já conhecidas, a história acompanha a vida de personagens que atuam nos bastidores de produção de um musical da Broadway, o qual pretende narrar a vida de Marilyn Monroe. Já renovada para sua segunda temporada, Smash estreia no canal Universal no dia 28 de março, às 23 horas.

O texto abaixo contém spoilers.

Tom e Júlia

A ideia surge quando Ellis (Jaime Cepero), assistente de Tom (Christian Borle), sugere que um musical sobre Marilyn Monroe poderia atrair o interesse do grande público. Assim, Tom, compositor, e sua parceira e amiga Julia (Debra Messing), letrista, começam a brincar com a ideia de criar algumas músicas para ver no que dá. Pouco depois os dois já estão envolvidos com os primeiros preparativos para a montagem do musical.

O trabalho interfere com a vida pessoal de Julia, que tinha prometido ao marido Frank (Brian d’Arcy James), um professor, que se afastaria da carreira por algum tempo para poder se dedicar ao processo de adoção de uma menina chinesa.

Por outro lado, para Eileen (Angelica Huston), o musical pode representar sua independência. Durante anos ela e seu marido formaram uma bem sucedida parceria como produtores de musicais na Broadway. Agora, passando por um processo de divórcio litigioso, Eileen precisa provar ser capaz de produzir sem a ajuda do marido. Para tanto, ela garante a presença de Derek Wills (Jack Davenport), um respeitado diretor e coreógrafo, que estava envolvido com a remontagem de My Fair Lady, projeto inacabado de Eileen e de seu ex-marido. A escolha do diretor desagrada Tom, gay assumido, que não gosta de Derek, um conquistador homofóbico.

Derek Wills

A partir do momento em que o musical começa a ser de fato desenvolvido, a história passa a se concentrar na disputa à la American Idol entre a apática Karen (Katharine McPhee) e a determinada Ivy (Megan Hilty) pelo papel de Marilyn. A escolha é feita ao final do segundo episódio, mas ela não é definitiva. Como o próprio Derek diz, leva-se cinco anos (tempo necessário para a série ter 100 episódios) para que um musical seja produzido e estreie. Ao longo desse período, muita coisa pode acontecer.

Com sete dos quinze episódios produzidos para a primeira temporada já exibidos, a série passou de uma história sobre os bastidores de produção de um musical para um melodrama em torno dos desejos e vontades dos personagens centrais e seus interesses pessoais, que se sobrepõem ao trabalho. A montagem em si ficou em segundo plano.

Até o momento a trama destaca as situações vividas por Julia, Karen e Ivy. A primeira passa rapidamente de uma esposa com um casamento estável, embora com problemas, para o papel de amante que se envolve com um colega de trabalho. Este é um ex-namorado que reaparece em sua vida. Protagonizando uma das situações mal desenvolvidas da série, Michael (Will Chase) ignora sua esposa e um filho pequeno para tentar reconquistar Julia. Na vida real, Will foi responsável pelo fim do casamento de Debra que, após onze anos de união, pediu o divórcio de Daniel Zelman, com quem tem um filho, para assumir seu relacionamento com Will.

Eileen e Lyle West (Nick Jonas), astro de uma sitcom e um investidor em potencial

O destaque dado a Karen e Ivy já era esperado, visto que elas disputam o papel principal. Karen é uma jovem que veio de uma família tradicional de Iowa. Sonhando em se tornar uma estrela da Broadway, ela se muda para Nova Iorque. Sem querer o apoio financeiro da família, que espera vê-la recobrar o juízo, Karen trabalha como garçonete enquanto faz testes para diversos musicais. Nesse meio tempo ela canta em bares de karaokê, festas e outros eventos.

O problema é que Karen nunca lutou de fato por seus sonhos. Sem se dedicar aos estudos que possam aprimorar o dom que tem, apoiando-se no que sua voz é capaz de oferecer, ela não estabeleceu um bom currículo ou um círculo de amizades no meio. Sendo rejeitada ou realizando trabalhos inexpressivos, Karen consegue chamar a atenção de Derek, que insiste em lhe dar uma chance.

Karen vive com Dev (Raza Jaffrey), que trabalha no gabinete do prefeito. Embora não façam parte do mesmo universo, os dois parecem ter encontrado um ponto de equilíbrio em sua relação. Mas é ele quem dá mais apoio ao trabalho de Karen que ela ao dele. Algo que, ao longo da série, deverá pesar.

Ivy e Michael, que interpreta Joe DiMaggio no musical

Ivy é o oposto de Karen. Filha de Leigh Conroy (Bernadette Peters), uma lenda da Broadway que a desencoraja a seguir seus passos (à la Judy Garland-Liza Minnelli), Ivy vem lutando há dez anos para construir sua própria carreira. Começando por baixo, Ivy atua como backing vocal em diversos musicais. Estudando e se aprimorando, ela estabeleceu uma rede social e de contatos para conseguir crescer no meio. Por isso mesmo, ela acha injusto que uma jovem sem qualquer garra ou noção de como funciona o ambiente no qual pretende trabalhar, apareça para lhe tirar a grande chance de conseguir finalmente estrelar um musical. Ivy é amiga de Tom, que desde o início defende sua contratação. Considerando-a a escolha perfeita para interpretar Marilyn, ele mede forças com Derek, seu inimigo declarado.

Nos últimos episódios exibidos nos EUA, a série começou a dar um pouco mais de atenção ao personagem de Angelica Huston, que luta para conseguir financiamento para a produção do musical. Com anos de experiência, tendo testemunhado dezenas de sucessos e fracassos e conhecendo todo mundo que atua no mercado, ela ainda precisa mostrar ao telespectador que aprendeu alguma coisa sobre o funcionamento da indústria da Broadway.

A introdução das cenas musicais em Smash segue o estilo explorado por Fama, série da década de 1980 que adaptou o filme de mesmo nome. Nesta, a história era ambientada em uma escola onde os alunos tinham aulas de música, dança, canto e arte dramática, entre outras. Assim, em Smash, os números musicais surgem durante os testes e os ensaios, bem como nos bares de karaokês e em festas. Mas em episódios recentes, os musicais também começaram a ser inseridos em meio a diálogos ou cenas de personagens vivendo um momento mais intimista, o que pode, a longo prazo, comprometer a série. Com exceção dos testes e dos ensaios, as demais músicas nada têm a ver com a história do musical que está sendo montado.

Mas o que mais chama a atenção, ao menos da minha, é a forma como os roteiristas inserem ao longo dos episódios referências à vida de Marilyn. Elas não seguem um critério, são apenas elementos que podem ser comparados ou identificados como tal. Temos, por exemplo, Karen e Ivy, que disputam o mesmo papel.

Karen poderia ser considerada a própria Norma Jeane, mulher ingênua, sem qualquer experiência artística, que sonha com a oportunidade de se tornar uma estrela, mesmo tendo pouco preparo para isso. Muito embora sua aparência se encaixe mais na descrição da ‘outra mulher’ na vida de Marilyn. Karen é morena, muito magra, com um comportamento recatado e tímido. Vindo de uma família tradicional da classe média alta, ela ainda está presa às convenções sociais. Assim, Karen tenta definir seu trabalho a partir de suas próprias regras de conduta. Com essas características, ela também poderia ser Jackie, esposa do presidente John Kennedy (que teve um caso com Marilyn Monroe), embora tenha sido Karen quem interpretou a música Happy Birthday Mr. President para o diretor Derek Wills, homem cuja atenção é disputada.

Já Ivy é o oposto. Ela representa a mulher determinada, que sabe utilizar sua aparência e sensualidade para conquistar seus objetivos. Ao mesmo tempo, ela revela ser uma pessoa insegura e neurótica quando se vê ameaçada de perder a oportunidade pela qual tanto lutou. Sua insegurança aliada à pressão de ser a profissional que todos esperam que ela seja leva Ivy a cometer erros, o que provoca atrasos nos ensaios. Em um determinado episódio, sua situação prejudica sua voz e provoca a suspensão dos ensaios. Tentando se recuperar rapidamente, ela apela para o uso de remédios, mesmo sabendo que eles podem lhe causar efeitos colaterais. Com essas características, Ivy seria a própria Marilyn.

(E-D) Derek, Eileen, Julia, Tom e Ellis

O elo entre Karen e Ivy é o diretor Derek Wills, que aqui representa Kennedy, um homem considerado brilhante, que está acima de todos, com o poder de decidir o futuro de cada um, bem como a direção artística que o musical terá, embora ainda precise seguir as orientações e opiniões do ‘poder executivo’, que neste caso é representado pela produtora (Eileen) e pelos compositores (Tom e Julia). Embora já tenha sido divulgado que em um próximo episódio, Derek pedirá o apoio de Karen para tentar conseguir conquistar maior controle artístico do musical.

Derek usa seu poder para manipular as duas candidatas, mantendo-as de alguma forma dependentes da vontade dele. Enquanto Ivy cede à pressão e vai para a cama com Derek sempre que este sente desejo por ela, Karen se recusa a ceder, estipulando limites. Mas a presença das duas em sua vida não o impedirá de considerar outras alternativas. Já foi divulgado que Uma Thurman terá participação nos últimos cinco episódios da primeira temporada de Smash, interpretando Rebecca Duvall, uma atriz famosa que deseja o papel de Marilyn. Para os produtores, ter seu nome aliado ao projeto significará atrair o interesse de investidores.

Entre outros elementos que poderiam ser comparados à vida de Marilyn está o fato de que Tom escreveu o musical já pensando em Ivy no papel principal, da mesma forma que Arthur Miller adaptou uma história sua para ser transformada no filme Os Desajustados, com Marilyn em mente para o personagem da divorciada Roslyn.

Ellis, o assistente de Tom, é uma espécie de Eve, personagem de Anne Baxter do filme A Malvada, um dos primeiros que deu a Marilyn um certo destaque. Ambiciosa e dissimulada, Eve era a assistente de Margo (Bette Davis), uma grande estrela do teatro. A relação de Ellis e Julia em Smash se assemelha a de Eve e Birdie, empregada de Margo.

(E-D) Wesley Taylor, Savannah Wise e Katharine McPheel

Apesar dessas referências indiretas, a série insiste em acrescentar diálogos que explicam ao público quem é Marilyn, o que ela pensava, o que desejava, como ela agia ou como se sentia, algo que serve apenas para enfraquecer o texto.

A proposta de Smash é muito boa, as situações são claramente definidas e os personagens conseguem se estabelecer rapidamente, embora tenham dificuldades de escapar da caricatura (culpa dos diálogos apelativos). Mas ela peca ao se apoiar demais nos dramas pessoais e nos clichês sentimentais. Até o momento, os dilemas artísticos e comerciais de se montar uma produção na Broadway ainda não foram explorados, embora se façam presentes.

Smash não é a versão adulta de Glee, como se esperava que fosse quando foi anunciada. Ela tem potencial para tanto, mas precisaria de mais maturidade no desenvolvimento das situações e dos diálogos. Se levada a sério, os problemas aparecem. Por enquanto Smash é um melodrama novelesco indicado a pessoas que, interessadas no tema, buscam por um guilty pleasure (prazer com culpa).

A produção estreou em fevereiro conquistando a média de 11.44 milhões de telespectadores ao vivo, com 3.8/10 de rating/share entre o público alvo do anunciante (18-49 anos). Ao longo da exibição dos episódios seguintes, Smash perdeu parte de sua audiência. O sétimo episódio registrou sua segunda audiência mais baixa, com 6.56 milhões ao vivo. Até o momento, a série mantém cerca de 7.7 milhões ao vivo, com 2.6% entre o público alvo do anunciante (18-49 anos). A esse número não está somada a audiência que deixa gravando para assistir mais tarde.

Cliquem nas imagens para ampliar.

 

 

Fernanda Furquim: @Fer_Furquim

Acusada de plágio, ‘Touch’ faz sua estreia mundial

A nova série de Tim Kring (Heroes) estrelada pelo ator Kiefer Sutherland (24 Horas) terá estreia mundial esta noite, incluindo o Brasil, onde será exibida pelo canal Fox a partir das 22h. Nos EUA, o segundo episódio será apresentado no dia 22 de março, quinta-feira, dia da semana em que Touch terá novos episódios. No Brasil, o segundo episódio será exibido apenas no dia 26 de março, próxima segunda-feira, dia da semana em que o canal Fox programou para exibir a série.

Com treze episódios encomendados para sua primeira temporada, Touch fez sua pré-estreia nos EUA no final de janeiro, quando registrou a média de 12 milhões de telespectadores, com 3.9/10 de rating/share entre o público alvo do anunciante, faixa etária entre 18 e 49 anos.

Vendida a mais de 100 países, incluindo a China, a série é a grande aposta do canal Fox para a atual temporada, depois dos fracassos de audiência de Terra Nova e Alcatraz, duas produções que estrearam na Temporada 2011-2012. A expectativa é tanta que o estúdio chegou a suspender a produção da versão cinematográfica de 24 Horas, prevista para ter início em abril, alegando que, além dos problemas de orçamento, as filmagens poderiam atrasar a liberação do ator para a produção de uma segunda temporada de Touch.

Pelo piloto, Touch não consegue preencher as expectativas geradas. Nem tanto por sua proposta, mas por seu roteiro fraco, repleto de explicações, que se apóia no melodrama, conduzindo a opinião do telespectador.

Touch explora a visão sentimentalista de situações que abordam questões humanas. A ideia é estimular o telespectador a aproveitar a maneira como o mundo está interligado para auxiliar o próximo.

Para tanto, a série cria um ambiente de mistério, que não exige uma conclusão, como forma de manter o interesse do público na história. Mas se tirarmos isso, Touch nada mais é que a continuação de produções como O Homem que Veio do Céu ou O Toque de um Anjo.

Kiefer interpreta Martin Bohm, um ex-jornalista que perdeu a esposa nos ataques do 11 de setembro. Desde então, ele vem realizando diversos trabalhos, em diferentes áreas, sem se prender a nenhum.

Atualmente, ele  trabalha no setor de bagagens do aeroporto internacional de Nova Iorque. Martin tem um filho autista, Jake (David Mazouz), com quem é incapaz de se comunicar. Sem pronunciar uma única palavra e ter aversão ao toque humano, Martin demonstra interesse por aparelhos eletrônicos, em especial celulares, e por números. Seu comportamento se torna perigoso quando ele passa a escalar torres de telefonia móveis. Em função disso, Martin recebe a visita de Clea (Gugu Mbatha-Raw, de Undercovers), uma assistente social encarregada de avaliar sua capacidade de cuidar de Jake.

Logo Martin percebe que Jake é capaz de se comunicar a através de números, o que o leva a buscar ajuda do professor Arthur DeWitt (Danny Glover), um homem que explica a Martin como funciona o sistema de números utilizado por seu filho: eles prevêm o futuro próximo de pessoas espalhadas pelo mundo, que estão em busca de algo ou alguém. Assim, Martin decide ajudar essas pessoas, apesar de não conhecê-las.

O mesmo tema já foi explorado com sucesso na década de 1980 com a série Contratempos/Quantum Leap, na qual um viajante do tempo utilizava a teoria da física quântica para ajudar pessoas em diferentes épocas e lugares a mudarem seus respectivos futuros.

Touch já estreia com uma acusação de plágio. O autor Everett Hallford acusa Kring, Sutherland (que é produtor executivo da série) e as empresas produtoras de infringirem os direitos autorais de seu livro, Visionary, publicado em 2008. Halford entrou com um processo na corte federal esta semana.

Halford aponta diversas similaridades que a série teria com seu livro, entre elas, a presença de um menino autista capaz de compreender a interconectividade de todas as coisas, de se comunicar através de código criptografado e de prever o futuro, bem como a presença de um jornalista que sofre com a perda da esposa.

Esta é a segunda vez que Kring é acusado de plágio. Em 2010, Jazan Wild processou o roteirista e produtor (através de sua produtora, a Tail Wind) acusando-o de ter copiado sua novela gráfica Carnival Souls na série Heroes.

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‘Louco Por Elas’: mesma proposta, outros personagens

A Rede Globo estreou na noite de terça-feira, dia 13 de março, a nova série de João Falcão, autor de Clandestinos, o Sonho Começou. Inspirada em suas próprias experiências, Louco Por Elas explora uma antiga fórmula: a história de homens presos ao universo feminino.

Nesta série acompanhamos a vida de Leonardo (Eduardo Moscovis), um homem que vive cercado por mulheres, seja em casa ou no trabalho. Ainda mantendo contato com sua ex-mulher, Giovana (Deborah Secco), Leonardo mora com sua avó Violeta (Glória Menezes), que começa a apresentar os primeiros sintomas de demência. Na casa também está a filha de Leonardo, Theodora (Laura Barreto), uma menina que se comporta como adulto, e sua enteada Bárbara (Luisa Arraes), a adolescente rebelde.

Esta é uma proposta que a TV brasileira já explorou em outras ocasiões. Em 1994, por exemplo, a Cultura exibiu Confissões de Adolescentes, que contava com a presença de Deborah Secco no elenco. Também inspirada na vida da autora, esta produção apresentava a história de quatro adolescentes que viviam com o pai. Duas delas eram frutos do primeiro casamento de Paulo (Luis Gustavo), a outra do segundo e uma terceira era sua enteada, filha de uma ex-namorada que morreu.

Tal como Louco Por Elas, a série Confissões de Adolescente também utilizava o recurso do narrador, no qual os personagens se dirigiam ao público para desenvolver ideias, explicar sentimentos e opiniões. A diferença é que a série criada por Maria Mariana era focada na vida de mulheres que passavam pela adolescência, e não no personagem do pai.

Desta forma, a série de João Falcão se aproxima mais da linha de O Grande Pai, produzida pelo SBT em 1991. Nesta sitcom temos Arthur (Flávio Galvão), um viúvo responsável pela criação de suas três filhas, sendo a caçula uma menina com menos de dez anos, que gosta de analisar os problemas como se fosse adulta. Na casa também vivia a empregada doméstica, uma mulher de pouca cultura, porém esperta, a quem era necessário explicar algumas coisas aparentemente simples. No trabalho, Arthur mantinha contato com Priscilla, que representava seu potencial romântico. Em meio a tudo isso, ele buscava encontrar uma nova companheira, se relacionando com outras mulheres.

A ideia do homem preso ao universo feminino também é uma velha conhecida da TV americana, que atualmente exibe séries como Last Man Standing, estrelada por Tim Allen. Com um estilo de humor que resgata a década de 1990 e a aproxima do formato de sitcom americana, Louco Por Elas é uma comédia para toda a família, mas programada pelo canal para ir ao ar muito tarde da noite.

Em seu primeiro episódio, a série mostra que o elenco ainda não está afinado, em especial Deborah Secco, que apela várias vezes para uma abordagem caricata de Giovana, sem necessidade. Quem segura bem o personagem é Moscovis que, sem cair no estereótipo, consegue transmitir para o público a confusão mental em que seu personagem se encontra quando se envolve nas situações criadas pelas filhas, a ex-mulher e a avó.

A série é promissora, traz bons personagens e uma proposta bem definida, com diálogos ágeis e focados na situação apresentada. Mas poderia suavizar o tom didático que resulta em diálogos expositivos, por vezes declamados, pouco naturais. E visto que a série já traz cenas nas quais Leonardo conversa com o público explicando suas opiniões e sentimentos, não há necessidade de sobrecarregar os diálogos com a mesma função.

Originalmente foram planejados oito episódios para a primeira temporada de Loucos Por Ela mas, segundo divulgado pelo O Globo, a emissora teria decidido estender a duração da série encomendando mais treze episódios, o que totalizaria uma temporada com 21 episódios.

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03/03/2012

às 17:49 \ Opinião, Séries Anos 1960-1969

‘Os Monkees’ deixaram sua marca na história da televisão

Esta semana a geração baby boomer foi surpreendida com a notícia da morte de Davy Jones, ex-integrante do grupo musical Os Monkees, que também era uma sitcom musical na década de 1960.

Aos 66 anos de idade, sem apresentar qualquer problema de saúde (que tenha sido divulgado), Jones faleceu vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Segundo familiares e amigos, Jones era vegetariano, não fumava e bebia apenas socialmente. Praticando equitação e mantendo uma vida ativa, ninguém imaginava que o mais jovem dos integrantes do grupo seria o primeiro a partir.

Os Monkees foi um grupo fabricado pela indústria de entretenimento. Reunindo quatro jovens com interesses e personalidades distintas, a Columbia produziu a série e o grupo que, em paralelo aos episódios que estrelava na TV, também fazia turnês pelo mundo. Por curiosidade, em 1967, o desconhecido Jimi Hendrix fez abertura de um dos shows do grupo. Com boa parte de seu repertório composto por terceiros, eles enfrentaram duras críticas na época.

Os Monkees surgiram na esteira do sucesso do grupo inglês The Beatles, levando para a TV seu estilo nonsense e a linguagem de videoclipe criada pelo grupo britânico no cinema.

Em uma época em que despontavam músicos como Jim Morrison, Janes Joplin, Rolling Stones e The Who, entre outros, Os Monkees era considerada uma banda água com açúcar, que perpetuava o estilo musical da década anterior, para adolescente ouvir. Com o tempo, o valor do grupo foi reavaliado pela indústria do entretenimento. As reprises dos episódios da série e a presença ininterrupta do grupo no mundo musical influenciou o surgimento de outros grupos, muitos dos quais regravaram várias de suas canções. Enquanto isso, os adolescentes que os transformaram em ídolos cresceram e mantiveram vivo o interesse pelos integrantes da banda, que ainda se apresentava em shows pelos EUA, Canadá e Reino Unido.

O próprio Davy Jones estava com diversos shows agendados para os próximos meses, quando veio a falecer. Segundo o NME, o acesso ao site Spotify, especializado em streamings de músicas, elevou em cerca de 3.000% no dia seguinte ao anúncio da morte de Jones, para as músicas do grupo.

Na TV, a série ainda não conquistou o mesmo reconhecimento, embora tenha sido responsável por explorar neste veículo um estilo estético e narrativo que seria mais tarde reaproveitado por outras produções ao longo dos anos.

Produzida entre 1966 e 1968, com um total de 58 episódios, a série rompeu com a narrativa tradicional e formatada das sitcoms, oferecendo histórias que, apoiando-se na contracultura da época, adaptava e parodiava gêneros, algumas vezes misturando-os, rompia com a quarta parede, explorava, ironizava e distorcia os clichês e mesclava a ficção com a realidade ao oferecer no meio ou no fim de uma história os bastidores de produção.

É válido lembrar que outras produções televisivas antes dela chegaram a oferecer esses mesmos elementos em episódios soltos ou em menor intensidade. Entre elas Batman, que estreou meses antes de Os Monkees. Adotando a linguagem psicodélica, a série parodiava as histórias de super-heróis.

As histórias apresentadas pela série eram simples, embora narradas de uma forma considerada até hoje como esquisita. Um grupo de jovens músicos luta para se estabelecer profissionalmente. Sempre em busca de trabalho, vivendo com pouco dinheiro, eles tentam fazer parte da sociedade em que estão inseridos, sem perder de vista suas opiniões e conceitos.

Apoiando-se no humor irônico e sarcástico (para a época), utilizando-o para levantar questões morais e existenciais, a série se apoiava em duas linhas de frente. Em uma delas, os personagens lutavam constantemente contra a máquina imposta pelo sistema social que predominava na época, a qual determinava como o mundo deveria ser e agir, de forma que pudesse ser explorado.

Nestas histórias, o grupo buscava sempre se adaptar às regras impostas, mas logo percebiam que, além de injustas, existiam apenas para dar lucro à ganância e à sede de poder de uma sociedade que não desejava mudar. Geralmente as histórias terminavam com o quarteto ‘implodindo’ o lugar e destruindo o sistema que o regia. Nessa linha, vemos episódios nos quais eles se envolvem com empresários, soberanos de países estrangeiros, milionários, produtores de cinema, de TV, proprietários de gravadoras, vendedores e comerciantes, etc.

A segunda linha de histórias apresentada pela série era mais familiar. Nela, o quarteto costumava se envolver com garotas de família, super protegidas pelos pais, que não confiavam nos jovens cabeludos e arruaceiros.

Nesses episódios, eles tentavam mostrar que, apesar das aparências e das opiniões já formadas pela geração mais velha, eles eram pessoas iguais aos seus pais, apenas com o desejo de ir mais além do que eles foram, fazendo uso de sua liberdade de escolha.

Diferentemente das histórias que abordavam as questões sociais, políticas e econômicas, nas tramas que tinham a ver com a família, o grupo mantinha respeito pela geração mais velha, trunfo que costumava conquistar os pais.

Parodiando as convenções da televisão, ao mesmo tempo em que necessitava dela para passar sua mensagem, a série explorou diversos gêneros e estilos: faroeste, máfia, contos de fada, terror, espionagem, filmes de pirata,  filmes de praia (muito populares nos anos de 1960), mil e uma noites, suspense, ficção científica, super-heróis, filmes de boxe, circo, moda, orientais, latinos, documental, jurídico, rurais (conhecidos como caipiras),  filmes de motocicletas, sobrenatural, natalino, corridas automobilística e programas infantis, além das histórias ditas normais. Lembrando, é claro, que Os Monkees era uma série musical, que explorou a linguagem do videoclipe na TV muito antes da MTV surgir na década de 1980.

Em geral, as cenas musicais vistas na televisão eram em programas de variedades, muitos dos quais costumavam ser ao vivo. Desta forma eles seguiam, normalmente, a linha do teatro musical, com poucos recursos de câmera, ou de shows nos quais temos o cantor ou a banda apresentando-se diante de um microfone, com seu violão ou piano, ou sem nenhum instrumento.

Em Os Monkees, vemos dois estilos de clipes. Aqueles que trazem imagens montadas para narrar o desenvolvimento da história proposta pelo episódio, e aqueles com imagens desconexas que acompanhavam a letra da música. As histórias eram acompanhadas de um visual psicodélico e de um figurino que adotava o estilo hippie, algo considerado uma afronta.

Na vida real, o grupo representava tudo aquilo contra o qual os personagens lutavam ou pregavam ser contra. Fabricado por uma gravadora com o objetivo de explorar um tipo de público e gerar lucro, o quarteto estava sob o comando dos interesses dos empresários, algo que incomodava Michael Nesmith.

Ele foi um dos primeiros atores de séries de TV a lutar para ter mais controle criativo sobre a produção. Michael queria poder introduzir suas próprias canções na série e nos shows, algo que chegou a conseguir, mas não da forma significativa que ele esperava.

As brigas de bastidores levaram ao cancelamento da série e, com o tempo, com o fim do grupo, que se separou. Nas décadas seguintes, quando se reuniam para shows, Michael não se juntava aos demais.

Ao longo dos anos, poucas foram as produções que utilizaram a mesma proposta narrativa explorada pelos Monkees. Na década de 1980, A Gata e o Rato e Parker Lewis chegaram a aproveitar diversos elementos. Muitas das séries infanto-juvenis da Nickelodeon e da Disney também se aproximam da série, entre eles, Big Time Rush, ainda em produção.

Atualmente, podemos dizer que séries como 30 Rock, Community, The Flight of the Conchords, The Sarah Silverman Program, Glee e Arrested Development, entre outras, são os descendentes do estilo narrativo que Os Monkees perpetuou na TV.

Review – ‘Call the Midwife’ – 1ª temporada

Call the Midwife estreou na Inglaterra com uma temporada em seis episódios conquistando rapidamente público e crítica. Segundo nota divulgada pela BBC, Call the Midwife conquistou a maior audiência do canal nos últimos dez anos, entre as produções em sua primeira temporada. Ela registrou a média de 8.7 milhões de telespectadores ao vivo (chegando a 10.25 milhões com as reprises) o equivalente a cerca de 29.6% da audiência em seu horário. Para se ter uma ideia, a primeira temporada de Sherlock, uma das maiores audiências de estreia do canal até então, registrou cerca de 8.27 milhões ao vivo e 28% do público.

A série é uma adaptação de Heidi Thomas(Cranford) para a trilogia autobiográfica de Jennifer Worth, falecida em 2011, vítima de câncer, quando a produção teve início. Em seus livros, Jennifer faz um relato de sua experiência como enfermeira e parteira no final da década de 1950 na Inglaterra.

(E-D) Trixie, Chummy, Jenny Lee e Cynthia Miller

Essa era uma época em que as mulheres de classe baixa não confiavam ou não tinham condições de frequentar hospitais, preferindo ter seus filhos em casa, mesmo que isto significasse um risco à sua saúde e à do bebê. Com pouco conhecimento sobre higiene ou os cuidados necessários durante a gestação, elas mantinham uma qualidade de vida variada. Elas eram donas de casa, feirantes, faxineiras, cozinheiras, operárias e empregadas domésticas que contavam com o auxílio das freiras do convento mais próximo. Já as freiras eram mulheres que, conscientes das restrições do ambiente, abriram suas portas para oferecer atendimento pré-natal, serviço de parteiras e acompanhamento nas primeiras semanas após o parto.

Este também era o período pré-pílula anticoncepcional. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, milhares de soldados voltaram para casa. Alguns se casaram com suas antigas namoradas, outros voltaram para suas esposas e ainda tinham aqueles que buscavam o conforto nas camas de prostitutas, as quais, geralmente, escolhiam entre o aborto e a entrega de seus filhos para adoção.

Em seu livro, Jennifer menciona que, como parteira, ela e seu grupo chegavam a realizar cerca de 800 partos por mês, apenas na área em que o Convento atendia. As mulheres começavam a parir aos 14 anos, chegando aos 20 anos com quatro ou cinco filhos, em média.

Em um dos episódios da série vemos uma das parteiras tentando explicar às mulheres reunidas em um salão a importância da pílula e do preservativo masculino, que estão recém sendo introduzidos para aquelas pessoas.

Mas apesar de todos os problemas de saúde e financeiros pelos quais elas passavam, essas pessoas seguiam em frente, pois para elas essa era a única vida que conheciam. Os livros de Jennifer retratam essas mulheres como heroínas que sobreviveram ao ambiente e aos obstáculos, mantendo a cabeça e o espírito sempre erguidos.

(E-D) Monica Joan, Evangelina, Julienne e Bernadette

Tal qual os livros, a série é um melodrama leve, que traz uma narrativa em tom de crônica.

Mantendo um olhar romântico sobre o período e as pessoas retratadas, a produção acompanha a vida de jovens parteiras que moram e trabalham em um convento, auxiliando um grupo de freiras no atendimento de grávidas da classe operária, que vivem em um bairro perto das docas de Londres.

Dentro desta proposta, Call the Midwife traz uma boa construção de personagens e ambiente, que até mereciam ser desenvolvidos com mais profundidade, embora perceba-se não ser este o objetivo da série.

Em sua primeira temporada, a série se propõe a apresentar duas situações por episódio.

Os personagens fixos iniciam atuando como coadjuvantes dos atores convidados mas, ao longo dos episódios vão gradualmente ganhando maior presença, se estabelecendo como protagonistas no final.

Com isso, a série dá atenção aos dois lados da história: o lado que apresenta as situações vividas pelas grávidas e outros pacientes, e aquele que mostra como as enfermeiras que atuavam como parteiras conseguiam equilibrar seu trabalho com sua vida pessoal.

O texto, embora previsível e sem grandes reviravoltas, traz boas situações desenvolvidas de forma simples e direta. Sem a intenção de debater ou solucionar os problemas sócio-culturais do período, a série se limita a introduzir essas questões para que o público possa compreender o comportamento dos personagens.

O texto abaixo contém spoilers.

No primeiro episódio conhecemos Jenny Lee (Jessica Raine), personagem que representa a autora do livro. Deixando para traz o conforto de seu lar e da família, tentando esquecer sua paixão por um homem casado, ela chega no convento Nonnatus disposta a permitir que suas novas experiências a façam esquecer seus próprios problemas. Sem saber que viveria e trabalharia em um convento, Jenny chega no local achando que tinha sido designada para uma clínica particular. Logo ela é apresentada às freiras que mantêm o local.

Jenny Lee e a irmã Monica Joan

O grupo é formado pela irmã Julienne, interpretada por Jenny Agutter, que ficou conhecida pelos fãs de ficção científica pelo filme da década de 1970 Logan’s Run.

Julienne é a freira que está no comando do convento. Serena e compreensiva, porém firme, Jullienne tem sempre uma palavra sábia ou uma opinião clara sobre as situações que se apresentam ou sobre as pessoas.

Irmã Evangelina (Pam Ferris, de Little Dorrit) é a freira com um olhar prático da vida e das pessoas. Mantendo uma postura de bulldog, ela é um cão que ladra mas não morde.

Irmã Bernadette (Laura Main, de Murder City) é a mais jovem do grupo. Ainda insegura, ela precisa dos conselhos e das orientações das demais freiras, embora consiga realizar seu trabalho de forma objetiva.

A personagem protagoniza uma bela cena em um dos episódios. Depois que as enfermeiras, tendo passado horas se arrumando, saem para uma noitada na cidade, Bernadette volta para o quarto, agora vazio, e ao se olhar no espelho, retira os óculos e o hábito, admirando a mulher que existe por baixo do véu de freira.

O grupo se completa com a irmã Monica Joan (Judy Parfitt, de Little Dorrit e Plantão Médico/ER), a mais velha das freiras, que começa a apresentar os primeiros sintomas de demência. Irreverente, esperta e bem humorada, ela gosta de provocar a revolta da irmã Evangelina tomando atitudes contrárias àquelas que a colega espera dela. Até que chega o momento das demais freiras questionarem se a atitude faz parte da personalidade irreverente de Monica Joan ou se este seria um sintoma de senilidade.

Nos dois primeiros episódios, Jenny conhece as outras jovens enfermeiras que, como ela, vivem no convento trabalhando como parteiras. Trixie Franklin (Helen George) faz o estilo Marilyn Monroe. Preocupada com a aparência e apaixonada pela vida, da qual ela espera um dia tirar melhor proveito, Trixie tem um único sonho imediato: pintar as unhas sem a preocupação de estragá-las com o uso excessivo de luvas. É ela quem ensina a Jenny pequenos truques para manter a boa aparência em um lugar tão depressivo, como por exemplo utilizar  comprimidos para dor de cabeça como botão para prender a meia nylon no elástico. Apesar de seu aparente comportamento fútil e distanciado dos problemas de suas pacientes, Trixie tem uma visão muito clara do sofrimento que a cerca e de sua responsabilidade para com as pessoas que ela atende.

Outra colega de Jenny é Cynthia Miller (Bryony Hannah, vista em Above Suspicion), uma jovem romântica e tímida que com sua aparência frágil revela ter uma grande força de caráter. Capaz de se identificar com os problemas de seus pacientes, a ponto de se envolver emocionalmente, Cynthia se torna confidente de Jenny.

Jenny Lee

O grupo de enfermeiras se completa com a chegada de Chummy, apelido de Camilla Fortescue-Cholmondeley-Browne (Miranda Hart, da sitcom Miranda).

Filha de uma mulher da alta sociedade que passa a maior parte do tempo no exterior, Chummy é uma jovem que passou a vida lutando contra o preconceito das pessoas em relação à sua aparência.

Sua estatura grande, tanto em altura quanto no peso, e desajeitada a levou a ter baixa autoestima. Mas ao invés de manter uma postura amarga diante da vida, Chummy prefere olhar sempre o lado positivo.

Por isso não se deixa abater quando a irmã Evangelina coloca em dúvida sua capacidade de se tornar uma boa parteira.

Para exercer o cargo, Chummy se vê obrigada a se adaptar ao ambiente, aprendendo uma rotina de vida com a qual não está acostumada. Entre elas, aprender a andar de bicicleta para poder atender suas pacientes com mais rapidez.

No convento também vive Fred (Cliff Parisi), o caseiro, jardineiro e faz tudo do local. Bem humorado e com sonhos de ficar rico, ele está sempre buscando investir em novas formas de ganhar dinheiro, algumas das quais podem ser considerados ilegais, dependendo do ponto de vista.

O elenco da série se completa com Ben Caplan (Band of Brothers), que interpreta o oficial Peter Noakes, que se apaixona por Chummy; Stephen McGann, marido da roteirista, como o Dr. Turner, que atende na clínica montada pelas freiras; e George Rainsford (Waking the Dead/Despertando os Demônios), como Jimmy, jovem apaixonado por Jenny.

De longe as freiras são as melhores personagens da série. Com personalidades distintas e irreverentes, elas são consideradas excêntricas para a época. A roteirista soube dosar sua presença na trama. Nos primeiros episódios elas estão praticamente em terceiro plano, atrás das pacientes retratadas em cada episódio e das jovens parteiras. Mas conforme a temporada progride, elas ganham maior espaço, tal qual as parteiras, chegando ao ponto de estrelar o último episódio.

As situações apresentadas na série são as mais diversas, sendo que em alguns episódios vemos as enfermeiras cuidando de outras pessoas, não apenas as grávidas, simplesmente porque elas não tinham a quem recorrer.

Chummy e uma de suas pacientes

A temporada inicia apresentando ao público a história de uma mulher espanhola que está em sua 23ª gravidez.

A situação desta mulher soa meio forçada, mesmo que possa ser verdadeira, já que ela vive na Inglaterra desde seu primeiro filho e até agora não fala uma única palavra em inglês. O mesmo vale para o marido dela, um britânico que até agora não sabe nada de espanhol. Para se comunicar a mulher conta com a ajuda da filha mais velha, que atua como intérprete. Também no primeiro episódio vemos Pearl, uma grávida que não percebe sofrer de uma doença venérea.

Ao longo da temporada conhecemos outros casos, como a de uma prostituta grávida acolhida por um padre, que tem seu bebê entregue à adoção sem seu consentimento, algo que era considerado uma prática comum; um ex-combatente de guerra que perdeu esposa e filhos e agora vive sozinho, na imundície e na doença; uma mulher de quarenta e poucos anos que se casou com um homem mais velho apenas para ter segurança financeira e acaba tendo um filho de outro homem; uma mulher que passa por depressão pós-parto agravada com o sequestro de seu bebê; e um jovem casal, formado por almas gêmeas, que se vê separado pelo destino quando a mulher grávida entra em coma. Todas as histórias são apresentadas com uma abordagem leve, com soluções vistas no mesmo episódio em que são introduzidas.

Os dois últimos episódios da temporada dão à série um outro ritmo, visto que as situações apresentadas estão diretamente relacionadas aos personagens do elenco fixo. Jenny precisa definir sua relação com Jimmy, de quem ela deseja apenas amizade, e Chummy precisa enfrentar sua mãe e suas neuroses quando o oficial Noakes lhe propõe casamento. O último episódio é estrelado pelas freiras, que se surpreendem ao descobrir que a senilidade da irmã Monica Joan a levou a praticar pequenos roubos.

O penúltimo episódio traz uma situação interessante. Nele vemos Jenny ajudando as freiras a cuidar do irmão de Peggy, faxineira do convento. Ele sofre de câncer no pâncreas e está à beira da morte, fato que Peggy não consegue aceitar. Durante os cuidados do paciente, Jenny descobre que os irmãos vivem como marido e mulher, dormindo na mesma cama. Entre todas as situações propostas ao longo da série, o final desta história foi a única que surpreendeu.

Esta é uma série que soube equilibrar o ambiente histórico cultural com o estilo narrativo escolhido pela produção. Equilíbrio que faltou na série americana Pan Am, por exemplo, que optou por glamourizar o período e as pessoas retratadas na trama, o que levou ao esvaziamento dos personagens e das situações propostas. Call the Midwife optou pela idealização, sem se afastar demais da realidade. Com isso, o ambiente, que ficou em segundo plano em relação aos personagens, consegue se estabelecer como base referencial de comportamento.

Call the Midwife é uma série indicada para pessoas que não gostam ou já estão cansadas de assistir a dramas que só valorizam a luta pelo poder, os desejos de vingança, as famílias disfuncionais, os criminosos e os assassinos ou as conspirações políticas.

Já renovada para sua segunda temporada, que será composta de oito episódios, a série ainda não tem previsão de quando será exibida no Brasil, estando disponível no mercado internacional.

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Review – Borgia, versão de Tom Fontana

(E-D) Juan, Rodrigo, Cesare e Lucrécia

Esta é uma produção do Canal + da França em parceria com o ZDF da Alemanha. A estreia ocorreu primeiro na Itália, em julho de 2011. Em outubro, Borgia foi exibida na França, Áustria, Alemanha, Israel e Estados Unidos (pelo site Netflix). Filmada na República Tcheca, a série foi produzida no idioma inglês, contando com a participação de atores que representam diversos países.

Borgia foi anunciada na mesma época em que o Showtime encomendou a primeira temporada de The Borgias, estrelada por Jeremy Irons. Segundo o Hollywood Reporter, existiu uma tentativa de unir as duas produções, mas Neil Jordan, responsável pela série americana, e Tom Fontana não conseguiram chegar a um acordo em relação aos rumos da história e sua abordagem.

Como resultado, o público tem duas séries que pretendem traçar a trajetória da família Borgia, a partir da vida de Rodrigo, que se tornou o Papa Alexander VI em 1492.

O texto abaixo contém spoilers.

Na versão de Fontana, Rodrigo Borgia é vivido por John Doman (The Wire e Damages), que oferece uma interpretação mais séria e objetiva do personagem, evitando transformá-lo em um fanfarrão. Este Rodrigo mantém uma integridade própria, na qual considera o assassinato político uma necessidade, mas que não deve ser utilizado como um recurso. O inimigo precisa ser combatido através de manobras e acordos, os quais podem ser quebrados quando as necessidades se apresentam.

Nascido na Espanha, Rodrigo sempre foi tratado pelos italianos como estrangeiro. Este talvez tenha sido o principal motivo que o levou a desejar dominar Roma. Para tanto, precisaria ser eleito Papa. Ao longo de 27 anos ele trabalhou para que essa oportunidade surgisse. Tendo perdido duas eleições anteriores, Rodrigo está determinado a ser eleito, custe o que custar, quando Inocêncio VIII morre.

É durante o conclave, que dura três dias (retratados em dois episódios), que Rodrigo revela todo seu poderio de manipulação política. Os demais Cardeais exitam em elegê-lo pois, além de ser estrangeiro, sua conduta moral compromete o cargo. Assim, ele faz diversos acordos e promessas, além de cobrar favores para conseguir com muito esforço ser eleito. Mesmo assim, não é por unanimidade.

Rodrigo nunca assumiu os filhos que teve com Vanozza, de quem está separado há algum tempo. Tendo sido casada anteriormente, os filhos de Vanozza são apresentados como os sobrinhos de Rodrigo. Razões políticas o levam a assumir no episódio seis a paternidade de seus filhos, que não tinham certeza quem era seu verdadeiro pai.

Ao longo da história, vemos um homem frio e calculista traçar seu caminho para o poder, bem como sua luta para se manter no cargo. Para conseguir ser eleito, Rodrigo promete adotar os princípios rígidos estipulados pela igreja, além de afastar de Roma seus sobrinhos/filhos. Para conseguir o último voto, ele promete casar Lucrécia com Giovanni, sobrinho do Cardeal Sforza.

Mas Rodrigo não cumpre tudo o que prometeu. Ele mantém como amante Giulia Farnese, esposa do oficial Orsino Orsini, filho de Adriana, prima de Rodrigo, que atua como uma espécie de governanta da família Borgia. Além disso, ele substitui o chefe de segurança por seu filho Juan e elege Cesare como Cardeal, antes mesmo dele ter sido ordenado padre.

Por questões políticas, cumpre a promessa de casar Lucrécia com Giovanni, mas a mantém afastada do marido, que não consegue consumar o casamento. Apenas quando se torna politicamente conveniente para ele é que Rodrigo permite a consumação. Mas, para desespero de Lucrécia, Giovanni se revela impotente.

Quando assume a paternidade de seus filhos, Rodrigo provoca a ira do Cardeal Giuliano della Rovere, que até então vinha sufocando seu descontentamento por ter perdido a eleição para Papa. Rumores de que Rodrigo mantém relações sexuais com Lucrécia, que também dividiria a cama com seus irmãos, Cesare e Juan, não são suficientes para tirar Rodrigo do poder. Assim, della Rovere parte para a França para buscar alianças políticas que derrubem seu oponente.

Ao longo de quatro episódios, a história apresenta o vai-e-vem político que faz com que inimigos se tornem amigos e vice-versa. Os principais rivais de Rodrigo são os Colonna e os Orsini. Através de acordos e promessas, algumas quebradas pelos caminho, Rodrigo consegue se manter no cargo. Declarando seu amor por Roma ele acredita que está fazendo um bem à cidade e à igreja.

Nesta versão, Rodrigo não confia em seus filhos, que ele considera incompetentes e indisciplinados. Seu braço direito é Francesc Gacet, com quem articula seus planos. Enquanto Juan não se importa com Rodrigo, Cesare é um jovem que vive à sombra do pai tentando lhe chamar a atenção e conquistar seu respeito.

Quando Cesare nasceu, Rodrigo fez um trato com Deus: o menino cresceria sem pecado e dedicaria sua vida à igreja, permanecendo puro. Em troca, Deus permitiria que Rodrigo se tornasse Papa. Em função dessa promessa ele obriga Cesare a seguir uma carreira na igreja, contrariando os desejos do filho, que preferia ser oficial militar. Em nome da família, Cesare tenta manter a promessa feita por seu pai (que ele acreditava ser seu tio). Assim, sempre que sente desejos ou fúria ele se autoflagela.

Durante o período do Conclave, Cesare percebe que pode ter comprometido o futuro de Rodrigo. Tentando recuperar sua pureza ele oferece a Deus seu filho recém-nascido, de uma relação que ele mantinha em segredo. Acreditando ter sacrificado seu próprio filho para que o tio/pai conquistasse seu sonho, Cesare ignora que a criança foi salva por seu melhor amigo, o irmão de Giulia, a amante de seu pai.

Nada do que faz parece conseguir atrair a atenção de Rodrigo que, por questões políticas, negocia um acordo com Marcantonio Colonna quando Roma enfrenta a França. Este acordo estipula que Cesare seja entregue como prisioneiro. Durante este período, Cesare é violentado (supõe-se que regularmente), o que ele parece considerar ser seu flagelo final. Na versão americana é Lucrécia que é violentada, neste caso pelo marido.

Quando manobras políticas o levam de volta à Roma, Cesare retorna com uma postura mais determinada. Ele não teme a fúria do pai, nem luta para conquistar sua atenção, embora ainda defenda o nome da família. Cesare também passa a enfrentar abertamente seu irmão Juan, com quem ele constantemente discorda.

(E-D) Lucrécia e Giulia

Juan é um homem violento e incompetente para o cargo que ocupa. Buscando satisfazer apenas seus interesses imediatos, ele não pensa no futuro ou nas razões que levam Rodrigo a tomar as atitudes que considera necessárias para se manter no poder. Nesta versão, é Juan quem mantém um assassino à sua disposição.

Um acordo político força Juan a se casar contra sua vontade. Mas isto não o impede de manter relações com a esposa de seu irmão Jofre que aos 11 anos é forçado a se casar para manter um acordo político.

Após o conflito com a França, a temporada dedica os três episódios finais ao assassinato de Juan e suas consequências.

É a morte de Juan que leva Rodrigo a uma profunda reavaliação de sua conduta. Acreditando estar sendo punido por Deus, ele decide implementar as reformas que vinha prometendo, o que afeta a vida de cada membro de sua família, em especial Cesare.

Em meio a tudo isso, Lucrécia é uma jovem que, no início da história, recém entrou na puberdade. Mimada, ingênua e determinada a seguir o destino que as mulheres de sua época têm, ela cobra do tio, que mais tarde descobre ser seu pai, um casamento. Após passar por um período enferma, ela decide entrar para o Convento, o que não é aceito por Rodrigo. Ao longo de sua trajetória, Lucrécia rebela-se e contraria a vontade do pai em diversas ocasiões.

Sua participação é restrita à da jovem adolescente que tenta encontrar um lugar no mundo. Se renovada, a série deverá apresentar uma versão mais adulta da personagem.

Além da trajetória, a versão de Tom Fontana difere em outros aspectos da produção do canal Showtime. Enquanto que The Borgias explora a luta pelo poder através da violência e do sexo, utilizando uma edição que oferece um ritmo mais ágil para a trama, a produção francesa é essencialmente um drama político. Com um ritmo mais lento, a série não se apóia nas cenas de violência e sexo para narrar sua história. Elas existem, mas aparecem apenas para determinar a personalidade de personagens ou pontuar um momento ou uma ideia.

Basicamente, os personagens da série do Showtime se movem a partir de seus desejos e luxúrias, enquanto que na produção de Tom Fontana os personagens são construídos a partir de seu racional, o que os leva a viver  um jogo de xadrez político no qual as peças são movimentadas através da manipulação de interesses, ideologias, fé e ganância, bem como dos conflitos morais que fazem parte da cultura de sua época.

Outra diferença significativa é que na produção de Fontana os Cardeais têm vida e personalidades próprias. Eles não são meros figurantes que são mortos ou baixam a cabeça sempre que Rodrigo se manifesta. Nesta versão, eles enfrentam o Papa, colocando em dúvida suas ideias e atitudes. Os dois episódios que retratam o Conclave são bons exemplos. A partir desta situação, alguns Cardeais ganham rostos e opiniões. Nem todos permanecem na história, visto que alguns deles partem para a França em busca de aliados para tirar Rodrigo do poder. A série falha em não mostrar ao público as cenas em que eles tramam com a França a invasão da Itália.

Ao longo da história, Rodrigo precisa negociar novamente com os Cardeais que o cercam. Alguns ele trai e com outros ele reata alianças. Nos episódios finais, durante o inquérito da morte de Juan, um dos Cardeais se manifesta contra Cesare, assumindo o controle das investigações.

Além de Rodrigo, Lucrécia e Cesare, Vanozza também tem uma personalidade e comportamentos diferentes do que é retratado pela série americana. Aqui ela é uma mulher consciente do lugar que ocupa no mundo de Rodrigo. Já casada com outro homem, Vanozza não se ressente da forma como é ignorada pelo ex-amante. Com isso ela não cobra afeição, nem protagoniza cenas de ciúmes.

(E-D) Vanozza, Juan, Giulia, Rodrigo, Lucrécia, Cesare e Adriana

O problema na versão de Fontana é que muitas mudanças do quadro político são retratadas através de relatórios. Boa parte do conflito entre Roma e França é vista através de diálogos expositivos que relatam a situação, e não por cenas de movimentos de tropas ou por diálogos entre os protagonistas da ação.

Com isso, os quatro ou cinco episódios que apresentam esse período se apóiam em uma quantidade enorme de informações passadas em forma de relatórios à Rodrigo, que é constantemente informado sobre as manobras dos inimigos. Por outro lado, o conflito encerra com uma divertida situação protagonizada entre Rodrigo e o Rei da França, no jardim do Vaticano.

A produção foi inicialmente divulgada como uma minissérie, mas em conversa com jornalistas durante o TV Fest em Monte Carlo, em 2011, o produtor Takis Candilis disse que se trata de uma série de TV, com a primeira temporada composta de 12 episódios. Sua renovação depende da audiência que a série conseguirá conquistar durante a exibição da primeira temporada em países europeus. Borgia já foi comprada por canais da Espanha, Rússia, Polônia, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Áustria e mais 40 países.

Na França, Borgia estreou em canal a cabo com 1.7 milhões de telespectadores, número maior que o conquistado pela série do Showtime nos EUA, que registrou cerca de 1.06 milhões ao vivo. Na Alemanha, a série de Tom Fontana estreou com 6.5 milhões de telespectadores, em rede aberta. Até o momento não há informações sobre a produção da segunda temporada

Em 2011, a produção foi vendida para a HBO Latin America, mas ainda não há previsão de quando será exibida no Brasil. Por enquanto ela está disponível em DVD e Blu-Ray no mercado internacional.

12/02/2012

às 14:43 \ Opinião, Séries Anos 2010-2019

Primeiras Impressões: ‘The River’

(E-D) Joe Anderson, Paulina Gaitan, Paul Blackthorne, Bruce Greenwood, Daniel Zacapa, Shaun Parkes, Thomas Kretschmann, Leslie Hope e Eloise Mumford. (Fotos: ABC/Bob D'Amico)

The River, nova aposta do canal ABC, estreou conquistando a média de 7.5 milhões de telespectadores, 2.4/6 de rating/share entre o público alvo do anunciante (18-49 anos). Veja como fazer a leitura dos números da audiência aqui. Em geral, é necessário a exibição de três a quatro episódios para que o canal tenha uma ideia da audiência média que se estabelece em torno de uma nova produção ou temporada. Os números de estreias costumam revelar o interesse do público americano por aquela produção, naquele  determinado momento. Pelo resultado obtido (audiência ao vivo), The River parece não despertar um grande interesse do público.

The River é uma nova produção de suspense e terror que tenta conquistar um segmento o qual vem sendo explorado com sucesso pelos canais AMC, com The Walking Dead, e FX, com American Horror Story. Ambas da TV a cabo, que costuma produzir um número menor de episódios por temporada, estreando as duas produções no período do Dia das Bruxas. Mas tal como foi visto na primeira temporada de American Horror Story, a série The River é uma produção que está presa às diversas referências do gênero, o que levanta dúvidas quanto a sua capacidade de desenvolvimento próprio.

O texto abaixo pode conter Spoilers.

As referências mais diretas são as de estéticas, com os filmes A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal. Em termos de enredo, é possível distinguir influências de Apocalipse Now, filme de 1979, que por sua vez era uma adaptação da obra de Joseph Conrad, Heart of Darkness. Deixemos de lado o fato de que a produção é uma das obras de artes do cinema americano e nos foquemos no enredo. No filme, um oficial no Vietnã recebe a missão de localizar e eliminar um Coronel renegado que agora posa como um Semideus da região, fazendo ameaças aos governos. Ao longo de sua jornada de barco, o oficial e seu grupo encontra pelo caminho personagens que sucumbiram à loucura da guerra e aos horrores do ambiente.

Na série, um grupo de resgate, liderado por mãe (Leslie Hope) e filho (Joe Anderson), tenta localizar Emmet (Bruce Greenwood), o apresentador de um reality show, e seu cinegrafista, que há meses desapareceram na Amazônia brasileira. Durante a viagem de barco eles entram em contato com as superstições e o folclore da região, além de encontrarem sinais que indicariam que os dois ainda estão vivos. Sem que todos saibam, um dos membros do grupo tem uma missão secreta: eliminar Emmet caso ele tenha descoberto ‘a fonte’ (mistério a ser resolvido ao longo da série).

Um dos pontos centrais da trama é a obsessão de Emmet pelo conhecimento em torno da magia que se esconde na selva. Se as referências ao filme continuarem, o grupo terá de encontrar Emmet posando como Semideus de alguma tribo indígena. Afinal, se ele descobriu uma forma de dominar a magia, com certeza sua mente já não é mais a mesma.

Além de mãe e filho, o grupo de resgate é formado por um produtor (Paul Blackthorne) e um cinegrafista (Shaun Parkes) do reality show que era apresentado por Emmet, que agora buscam material para a nova temporada do programa; Lena (Eloise Mumford), a filha do cinegrafista que desapareceu junto com Emmet; Kurt (Thomas Kretschmann), um oficial do exército que atua como segurança do grupo; Emilio (Daniel Zacapa), o mecânico de barco que costumava trabalhar para Emmet, mas que foi dispensado em sua última viagem, e a filha deste, Jahel (Paulina Gaitan).

Segundo informações da produção, Emílio esteve preso antes de se unir à tripulação de Emmet, e a filha passou a maior parte de sua vida no barco com o pai. Supõe-se que sejam mexicanos e daí falarem espanhol em território brasileiro (informações incluídas como adendo ao texto após publicação).

Nenhum dos personagens é bem construído ou consegue atrair o interesse por muito tempo. Mas entre eles, a relação entre Emmet e seu filho Lincoln é o que chama a atenção e estabelece uma identificação com público.

Tendo crescido à sombra do pai, Lincoln demonstra não ter apreciado o estilo de vida que Emmet lhe proporcionou. Boa parte de sua infância foi passada em lugares exóticos, em meio a animais selvagens; a outra parte foi passada em cidades americanas, com a mãe, quando esta não acompanhava o marido.

Ele é o primeiro a aceitar a morte de Emmet e a querer seguir em frente com sua própria vida. Mas a mãe o impede, forçando-o a abandonar tudo para voltar a um estilo de vida que não deseja seguir para localizar uma pessoa com quem não tem um bom relacionamento. Para piorar, ele precisa expor-se constantemente às câmeras do reality show de seu pai, responsável por escrutinar sua infância e destruir a vida em família que ele desejava ter.

Emmet era o apresentador de um programa sobre vida selvagem e lugares exóticos chamado The Undiscovered Country, expressão popularizada por Hamlet ao fazer referência à morte. Coincidentemente ou não, a pronúncia do nome de Emmet é parecida com a do personagem de Shakespeare. Mas é o filho do apresentador que parece carregar as mesmas características do personagem clássico, deixando Emmet na função do fantasma do pai. Lincoln é um jovem atormentado que acusa a mãe de trair o pai, o que teria forçado Emmet a buscar refúgio no trabalho, afastando-o de sua família. Agora o ‘fantasma de Emmet’ o força a descobrir a verdade sobre ele, e na esteira, sobre sua mãe.

Lena, a filha do cinegrafista desaparecido, cresceu com Lincoln, mas mantém alguns segredos. Era com ela que o apresentador mantinha contato antes de desaparecer. Aos poucos, conforme as exigências dos roteiros, ela vai revelando os temas abordados nas conversas que teve com Emmet.

A história é narrada em dois tempos: presente e passado, ambos através de imagens captadas por câmeras. No tempo presente, a história é vista pelo telespectador através das câmeras que acompanham os personagens, seja pelas mãos dos cinegrafistas que fazem parte do grupo, seja pelas câmeras espalhadas em pontos estratégicos no barco em que viajam.

O tempo passado é apresentado ao público através de imagens que fizeram parte do programa apresentado por Emmet, desde a época em que Lincoln e Lena eram apenas crianças. As cenas são exibidas como se fizessem parte de um documentário, o que levanta a dúvida no telespectador se o que ele está vendo está de fato ocorrendo, ou se já é o programa final editado e em exibição, sobre o resgate de Emmet. Outras cenas que fazem parte da série são aquelas deixadas para trás por Emmet, as quais revelam seus últimos momentos antes do desaparecimento. Mas como as fitas não trazem identificação ou uma ordem, elas são vistas aleatoriamente.

The River é uma alternativa para quem está cansado de assistir apenas séries dramáticas familiares-médicas-policiais-jurídicas. O ambiente proposto pela série é bom. A trama exige movimento contínuo, que permite desvendar segredos a cada episódio, enquanto leva o telespectador a descobrir a existência de novos mistérios, os quais resgatam, ou tornam conhecidos, o folclore e as superstições da região. É fato que a situação de Emmet não pode permanecer um mistério por muito tempo, caso contrário, a história se desgasta.

Mas o problema da série é a rapidez com a qual ela foi construída. Com exceção da família de Emmet, os demais personagens apresentados são vazios e sem personalidade, sustentando apenas características. Os atores também não ajudam. Sem conseguir se estabelecer de imediato, os membros do grupo terão que se esforçar muito para que, nos próximos episódios, possam se estabelecer como pessoas reais. A pior de todas é Jahel, filha do mecânico do barco, que só fala em espanhol. Incluída na trama para ser ‘o oráculo’ da expedição, ela compromete a credibilidade do grupo e da própria história.

Além da construção de personagens, os diálogos da série também são sofríveis. Acentuando o óbvio,  eles descrevem o que está sendo visto ou o que pode ser perfeitamente entendido pela sequência da ação e desdobramento da situação.

As soluções propostas para as situações nas quais o grupo se envolvem também são fracas. Percebe-se que o roteirista ‘forçou a mão’ para que a história pudesse seguir em frente. Desta forma, o grupo assimila rapidamente o que está acontecendo, fazendo surgir qualquer solução para ultrapassar um obstáculo, que funciona na primeira tentativa. Para piorar, não há qualquer esforço de oferecer um desenvolvimento psicológico dos personagens diante da situação em que se encontram.

Este tipo de roteiro leva a uma fórmula que poderá se repetir ao longo dos próximos episódios. Já nos dois primeiros é possível distinguir uma situação que poderá se tornar recorrente, visto que cada episódio se propõe a apresentar um novo obstáculo para o grupo, com base e um folclore. No piloto, o grupo depara-se com a lenda do Corpo Seco, um espírito maligno que vaga pela Terra. Emmet, antes do grupo, encontrou uma forma de aprisionar esse espírito, livrando-se dele. Mas, quando o grupo chega, inadvertidamente liberta este espírito. A solução: Lincoln repete a ação do pai.

No segundo episódio eles encontram a Árvore dos Espíritos, que consiste em uma árvore com bonecas e animais de pelúcia pendurados para afastar maus espíritos (no filme Apocalipse Now víamos cabeças presas a estacas). Depois de desprender um dos bonecos da árvore, Lincoln abre caminho para o perigo. A solução: repetir a ação do pai, pendurando o brinquedo na árvore. A própria ideia de oferecer um obstáculo e folclore por episódio já é uma fórmula, que prende o desenvolvimento da história proposta. Portanto, não há necessidade de se repetir ações e soluções.

A julgar pelos dois primeiros episódios, The River terá problemas para conseguir estabelecer uma boa audiência. Além de seu desenvolvimento precário, a exploração de folclore que não diz respeito à cultura americana também é um obstáculo. Magia negra, superstições e folclore latino nunca sustentaram um seriado americano, apenas episódios. Arquivo X chegou perto, oferecendo epsiódios soltos que exploravam o folclore de outras culturas, mas seu tema principal era a conspiração do governo para esconder a existência de vida alienígena. The River não tem um ponto fixo e palpável que possa seduzir o público americano, o que permitiria que os roteiristas viajassem por outros temas ou culturas.

The River é como um filme classe B de terror. Seu episódio piloto foi filmado em Porto Rico, os demais no Havaí. A primeira temporada tem um total de oito episódios.

 

Por Fernanda Furquim: @Fer_Furquim


 

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