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08/04/2011

às 10:45 \ Lançamentos em DVD, Minisséries, Opinião

Dica: Orgulho e Preconceito em Blu-Ray

Para os fãs de séries e minisséries inglesas uma das maiores frustrações era saber que essas produções não tinham a menor chance de ter seus lançamentos em DVD (muito menos em Blu-Ray) com regularidade no Brasil. Por não serem extremamente populares, elas não interessam uma ‘major’ (distribuidora de grande porte). A meta de venda dessas empresas não permite que títulos menos conhecidos (ou populares) façam carreira nessa mídia.

Por isso mesmo, foi uma grata surpresa ver que a Log On Editora, distribuidora que tem um acordo para distribuir os títulos da BBC no Brasil, decidiu lançar em Blu-Ray uma minissérie britânica produzida em 1995. Talvez seja pelo fato de ter em seu elenco o ator Colin Firth, que este ano ganhou o Oscar de Melhor Ator por “O Discurso do Rei”. Esta é uma produção histórica do canal; além de definir a carreira do ator, ela marcou uma geração, estabelecendo uma nova fase na produção de minisséries de época do país.

Andrew Davis adaptou em seis episódios a obra de Jane Austen publicada originalmente em 1813. O famoso romance entre Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy foi o acontecimento televisivo do ano na Inglaterra. Além de conquistar o público e seduzir a crítica, a minissérie foi uma das produções da época a promover o surgimento de uma euforia em torno da obra de Jane Austen, a qual influenciou a produção de “O Diário de Bridget Jones”.

A história acompanha a vida da família Bennet, composta do casal e cinco filhas, que vive em uma pequena comunidade no interior da Inglaterra. Quando os milionários Sr. Bingley (Crispin Bonham-Carter, primo de Helena) e Sr. Darcy (Colin Firth) chegam ao lugar, estimulam a curiosidade e os interesses dos moradores. O primeiro se apaixona por Jane (Susannah Harker), a filha mais velha dos Bennet, a quem passa a cortejar; o segundo por Elizabeth (Jennifer Ehle), mas mantém o fato em segredo. Considerado um grosso, em função de seu comportamento extremamente reservado, Darcy tem dificuldades para conseguir se adaptar ao lugar.

Esta foi a quinta versão de “Orgulho e Preconceito” da BBC (em parceria com o canal A&E), que já tinha adaptado o livro em 1938, 1952, 1958, 1967 e 1980. A minissérie é considerada a mais próxima da obra de Austen, mas também um marco divisor entre as produções de época em vista da forma como elas eram filmadas. Até a década de 1990, boa parte das séries e minisséries situadas no passado alternava o ambiente entre estúdio (com um visual artificial) e externas.

A partir dos anos de 1990, as produções de época passaram a ter um tratamento mais apurado na reconstrução dos períodos retratados, saindo com mais regularidade de dentro do estúdio, tornando-as mais reais. Mas foi com “Orgulho e Preconceito” que elas conseguiriam atingir seu ápice, atraindo o interesse popular. Com uma reconstrução de época rica em detalhes, complementada com uma estética cinematográfica que explora o ambiente externo, a minissérie atraiu cerca de 10 milhões de telespectadores, provocando o surgimento de novas adaptações de clássicos da literatura, que seguiram o mesmo estilo estético, evoluindo para o que é feito nos dias de hoje.

Jennifer Ehle e Colin Firth

Ainda assim, pelo olhar que temos agora, é possível perceber que sua estética já está datada, mas não ultrapassada. A minissérie traz um trabalho com a câmera fixa, que oferece poucos movimentos, explorando imagens que basicamente informam o público sobre os personagens e o ambiente. A câmera não faz grandiosos passeios pelos cenários, nem invade a intimidade dos personagens. Também não vemos apurados trabalhos de planos ou de luz, que dariam ao visual uma atmosfera mais romântica (ou poética ou sombria, etc.) como tem sido feito atualmente nas minisséries britânicas.

A edição acompanha essa linguagem, oferecendo, também, alguns momentos cômicos, como quando uma das filhas do Sr. Bennet está cantando e tocando piano e a cena corta para um cachorro uivando. Por ser uma minissérie, e não um filme, a história e os personagens levam mais tempo para se definir, utilizando várias cenas mudas, que marcam rotinas de vida ou estado emocional.

Com uma bela paisagem, cenários e figurinos, a minissérie propõe abordagens opostas para os dois pontos altos de sua história. O primeiro é a cena em que Darcy pede Elizabeth em casamento. Retratada de uma forma simples, seca e destituída de qualquer romantismo, a cena traz Darcy extremamente incomodado e crítico com o o fato de que está fazendo uma proposta de casamento a alguém a quem ainda não aceitou de fato. Isto nos leva a concordar com a recusa de Elizabeth, que se mostra contida, embora extremamente abalada.

O segundo ponto alto da história é a cena em que Elizabeth se descobre apaixonada por Darcy. Ao contrário da anterior, nessa temos uma abordagem mais romântica, cômica e sensual (para o período retratado). Ela inicia com o sr. Darcy mergulhando em um lago para refrescar-se; ao sair dele, com a roupa toda molhada, dá de cara com Elizabeth, que fica surpresa e desconcertada, revelando dificuldade em se expressar. A cena foi considerada a imagem mais sensual do ano, transformando Colin Firth em um símbolo sexual.

Colin oferece uma interpretação suave, mais introspectiva, quase tímido e, em algumas ocasiões, tem o olhar arredio. Na construção do personagem, o ator faz com que Darcy esteja de corpo presente, mas com a alma ausente, sempre que é obrigado a participar de eventos sociais.

A família Bennet

A Elizabeth de Jennifer também mantém um ar sereno, não tão maroto ou intelectualmente desafiador, como vemos na versão cinematográfica de 2006, estrelada por Keira Knightley. Ela é mais contemplativa, embora mantenha um olhar atento a tudo que está à sua volta. A atriz consegue equilibrar uma postura madura com a juventude da personagem.

Outro destaque está na atuação de Alison Steadman, que interpreta a sra. Bennet, mãe de Elizabeth. Ela nos oferece uma ótima personagem tragicômica sem, contudo, cair no caricato. O mais interessante na construção da personagem é ver que a atriz conseguiu acertar o tom de voz que define a sra. Bennet: aguda, nervosa e quase sem fôlego, que chega a ser irritante de escutar, principalmente nas cenas em que a mulher está histérica; com isso ela leva o público a ter o mesmo sentimento que os demais personagens têm quando estão em sua companhia.

No elenco também está Julia Sawalha, que os fãs de “Absolutely Fabulous” conhecem como a filha certinha de Edie. A atriz foi vista recentemente em séries como “Cranford” e “Lark Rise to Candleford”. Em “Orgulho e Preconceito”, ela interpreta a ‘desmiolada’ Lydia Bennet, que protagoniza um escândalo.

A distribuidora já tinha lançado esta versão de “Orgulho e Preconceito” em DVD; me parece que a diferença para o Blu-Ray, além da qualidade de imagem, que foi restaurada, é o conteúdo do material de Extra. Pelo que foi divulgado, o DVD traz apenas o ‘making of’, já o Blu-Ray traz um total de 104 minutos de material, com documentários sobre a produção, outro sobre a restauração, uma visita de dois dos atores ao local onde a minissérie foi filmada e entrevistas recentes com o elenco, que relembra alguns momentos curiosos das filmagens e, é claro, tem o ‘making of’.

Sr. Bingley e as irmãs

O documentário que fala do legado da produção é bem interessante. Produtores, roteirista e críticos tentam explicar o frenesi que a minissérie gerou na época e o significado que esse movimento teve para esse tipo de produção na TV inglesa. Vistas como algo ultrapassado, que interessava apenas ‘gente velha’, esta versão de “Orgulho e Preconceito” mostrou que o público jovem também pode ser cativado por adaptações da literatura clássica.

Infelizmente, as entrevistas não contam com as participações de Colin e Jennifer. Fofoquinha: durante a produção os dois iniciaram uma relação, a qual durou algum tempo. Quem assistiu ao filme “O Discurso do Rei” poderá vê-los juntos novamente. Colin interpreta o príncipe Albert, que busca ajuda de Lionel para acabar com sua gagueira. Jennifer interpreta a esposa de Lionel. Pelo que me lembro, os dois foram vistos juntos em uma única cena do filme.

A versão em Blu-Ray de “Orgulho e Preconceito” traz a minissérie dividida em dois discos, ambos com Extras. A produção inicia direto, o menu somente é acessível através do PopUp. Por fim, vale a pena parabenizar a distribuidora pelo fato de todos os documentários e entrevistas trazerem a opção de legendas em português, algo quase raro no material de Extras das séries de TV.

★★★

Acompanhem os lançamentos em DVD e Blu-Ray de séries e minisséries pelo nosso Calendário.
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Por Fernanda Furquim: @fer_furquim

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6 Comentários

  1. Érica

    -

    14/05/2014 às 16:37

    Não costumo fazer comentários mas este não posso deixar passar. Muito bom!!!!!! Adorei! Amo muito!

  2. Edgar_in_Indy

    -

    04/12/2012 às 13:55

    Does anybody know how I could purchase this in the United States? I already have the US blu-ray, but it does not have Portuguese subtitles. My wife and I love this movie, so we would love to have a version that her parents could watch, but their English is not very good. Thanks!

  3. Alan Ferreira

    -

    10/04/2011 às 15:50

    Muito bom! Será que temos alguma chance de ver o Inspetor Morse saindo por aqui? Adorava este seriado no Multishow. Um amigo me mandou da Inglaterra a sexta temporada em DVD e os discos já estão quase se desgastando.

  4. Patrícia

    -

    09/04/2011 às 20:20

    vc sabe como comprar pelo site da Log On?

  5. Marcelo

    -

    09/04/2011 às 14:00

    Embora eu goste da série, faço algumas restrições. Ao contrário de você, acho a atuação da Alison Steadman extremamente caricata. Se se tratasse de uma paródia de Orgulho e Preconceito, teria funcionado perfeitamente. Prefiro muito mais a sra. Bennet vivida pela Brenda Blethyn no longa-metragem. Outro problema é que a Julia Sawalha estava velha demais para o papel de Lydia, chega a ser ridículo vê-la bancar a adolescente. Sem falar que tira todo o impacto causado por sua relação com o sr. Wickham. E aquele casamento duplo no final parece algo saído da novela das oito.

    Resposta - Obrigada por seu comentário Marcelo! Concordo que a atuação de Alison seja considerada exagerada, mas achei que ela estava mais próxima do livro do que a interpretação de Brenda no filme. Ao meu ver, a sra. Bennet é uma pessoa nervosa, infantil, fútil, ansiosa, que se deixa levar pela emoção por consequência dos fatos e não pela razão. A personagem no filme é retratada de forma mais racional, controlada, que planeja e de certa forma manipula. Alguém que conseguiria se infiltrar na sociedade, algo que a personagem, como descrita, não seria capaz. Abs.

  6. luly

    -

    08/04/2011 às 21:44

    Não gosto de escrever em “caixa alta” mas esse merece: QUERO MUITO!
    Pena é eu ñ ter bluray…nem mt chance de ter um… mas enfim, é a vida. Se eu pudesse ter o dvd eu já estaria feliz mas infelizmene só vende numa única loja online cujo frete é…problemático.

    Adorei o texto. Adoro essa minissérie. Melhor adaptação das três que vi.Colin Firth é o Darcy perfeito (ñ só pela cena do lago rs) e conseguiu mergulhar bem no personagem. O Matthew (?), do filme, é mais bonito e ñ é ruim, mas sei lá, o Colin é perfeito.

    Espero um dia poder ter pelo menos o DVD normal mesmo.Já ficaria feliz demais.

 

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