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Arquivo de 17 de Julho de 2012

17/07/2012

às 22:32

Congresso aprova LDO para entrar em recesso com números que já não valem mais

Na VEJA Online:
O Congresso Nacional aprovou na noite desta terça-feira, em votação simbólica, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que define os critérios de aplicação do Orçamento para 2013. Com a decisão, deputados e senadores iniciaram oficialmente o recesso até o dia 1º de agosto.

A medida aprovada nesta terça prevê salário mínimo de 667,75 reais no ano que vem, um aumento de 7,35% em relação a 2012. O valor é resultado da fórmula criada no ano passado pelo governo. O cálculo leva em conta o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes e a inflação do ano anterior. O valor, entretanto, ainda pode ser alterado pelo Executivo e pelo Legislativo na Lei Orçamentária Anual, que deve chegar ao Congresso até 31 de agosto. O texto também prevê 45,3 bilhões de reais para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e cria dispositivos que adequam a execução orçamentária às normas da Lei de Acesso à Informação.

A LDO havia recebido o aval da Comissão Mista de Orçamento na tarde desta terça. Apesar da falta de acordo em trechos do projeto e da animosidade alimentada pela falta de liberação de emendas parlamentares, os prognósticos mais pessimistas não se confirmaram e o Congresso aprovou a proposta a tempo de iniciar o recesso na data prevista.

O acordo para a votação incluiu a liberação de emendas parlamentares por parte do governo: serão 4,5 milhões de reais para os governistas e 3 milhões de reais para os oposicionistas. As emendas são importantes para a realização de obras nos redutos eleitorais dos parlamentares.

O acerto incluiu ainda a retirada de um item que gerava divergência entre governo e oposição: foi suprimido o dispositivo que permitia ao governo destinar recursos a obras do PAC mesmo que o Orçamento não seja aprovado até o dia 31 de dezembro.

Na Comissão de Orçamento, os parlamentares aprovaram uma emenda que flexibiliza as regras para licitações promovidas por empresas estatais que mantêm negócios no mercado internacional;  as empresas ficariam livres de seguir as tabelas oficiais de preços para obras rodoviárias e civis. A proposta, defendida pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR), contrariava o relator da LDO, o também senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE).

Em plenário,  entretanto, deputados e senadores aprovaram uma emenda apresentada pelo PSDB e reestabeleceram o texto original, que não cria privilégios para as estatais. A medida derrubada beneficiaria especialmente a Petrobras. A liderança do governo apoiou a proposta tucana.

Cenário
Apesar da mudança no cenário econômico e da redução da previsão de crescimento do PIB, o texto aprovado pelo Congresso manteve os parâmetros macroeconômicos elaborados pelo governo em abril. A elevação do PIB seria de 4,5% em 2012, e de 5,5% para 2013 – números bem acima do que avaliam analistas de mercado. Com isso, a expectativa é de que a Lei Orçamentária Anual traga mudanças significativas em relação à LDO.

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 22:09

Greve já atinge todas as agências reguladoras do país, diz sindicato

Por Aretha Yarak, Ana Clara Costa, Keila Cândido e Gabriel Castro, na VEJA Online:Os servidores das agências reguladoras federais entraram em greve por tempo indeterminado nesta segunda-feira. De início, a participação era parcial. O primeiro dia do movimento teve adesão em torno de 35% a 40%. Contudo, no final da tarde, todas as onze autarquias já haviam aderido ao movimento, diz o Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação (Sinagências).

De acordo com a entidade, a paralisação atinge, em média, 60% dos servidores. Algumas áreas, no entanto, como a de tecnologia da informação (TI) da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), estão 100% paradas. Apenas as áreas de atendimento ao consumidor devem ser poupadas.

Riscos
De acordo com o diretor de Comunicação do Sinagências, Ricardo Holanda, os órgãos mais afetados são a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Anatel e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os funcionários da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) paralisaram as atividades por meio período no Rio. Na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a greve já prejudica a fiscalização de aeronaves em São Paulo. A paralisação no departamento de TI da Anatel, segundo o sindicato, pode causar problemas ao sistema de telecomunicações nacional.

As onze agências reguladoras do país são a Agência Nacional de Águas (Ana), Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Agência Nacional do Cinema (Ancine), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

Reunião
Por volta das 15 horas desta terça-feira, o secretário de Relações de Trabalho no Serviço Público do Ministério do Planejamento, Sérgio Eduardo Arbulu Mendonça, reuniu-se com assessores e membros do governo para discutir a greve das agências reguladoras. Nesta quinta-feira, os representantes dos servidores terão um encontro com o governo, às 20 horas, na sede do Planejamento.

Segundo o diretor jurídico do Sinagências, Nei Jobson, no mesmo dia, às 16 horas, os servidores farão a “Marcha da Regulação”, com caminhada saindo da catedral em direção ao ministério.

Outros protestos
No aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, haverá amanhã um ato público no posto da Anvisa, às 10h30, com a presença de representantes de todas as agências, diz o regional do Sinagências em São Paulo, Anésio Evangelista de Oliveira Filho. A paralisação acontecerá também no posto da ANTT, na Avenida Paulista, em frente à Casa das Rosas, às 15h. Na próxima semana, haverá mobilização no Porto de Santos, nos aeroportos de Viracopos, em Campinas (SP), e de São José dos Campos (SP).

De acordo com Evangelista, o Porto de Santos está parado nesta terça. Apenas as “cargas de urgência” estão sendo liberadas. Ele não soube especificar quais são essas cargas.

Reivindicações
Segundo o sindicato, os grevistas reivindicam modernização do plano de carreira; o fim das gratificações por desempenho, com a incorporação dos valores aos vencimentos; e um aumento salarial de 22,08%, por perdas acumuladas desde 2008 - valor que fica em torno de 22,5% a 25%. “Estamos em greve por tempo indeterminado, em protesto contra o sucateamento das agências reguladoras”, diz Holanda.

As agências reguladoras empregam 7 mil servidores no Brasil. “Encontrar uma solução para esse universo é muito simples para o governo”, afirmou Jobson. Hoje, o salário mais baixo pago pelas agências é para o cargo de auxiliar em início de carreira, de 2.170 reais. O mais alto é para os especialistas, já em final de carreira, que recebem 18.400 reais.

LDO
O Sinagências aproveita o momento da discussão da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) na Câmara dos Deputados e no Senado para pressionar o Palácio do Planalto. Nesta terça, o projeto deve ser apreciado em plenário no Congresso – no último dia antes que os parlamentares saiam em recesso. O texto-base da lei foi aprovada pela Comissão Mista de Orçamento (CMO) no início da tarde e agora estão em votação os destaques. À noite, o projeto final deve ser sancionado.

O Ministério do Planejamento argumenta que tem até 31 de agosto para tomar decisões sobre possíveis reajustes, pois esta é a data final para encaminhar ao Legislativo a Lei Orçamentária Anual (LOA). Esta lei, diferentemente da LDO que só traça diretrizes gerais, incorpora os valores dos gastos previstos para o próximo orçamento. A pretensão do governo é fechar um acordo antes dessa data.

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 22:04

O assassinato do agente da Polícia Federal um pouco além do óbvio

Um agente da Polícia Federal foi assassinado no cemitério quando visitava o túmulo dos pais. Ele havia trabalhado na Operação Monte Carlo. Não sou especialista em AIDS, não sou especialista em investigação policial, não sou especialista em nada — os meus críticos têm razão. Sou apenas fã da lógica e costumo dar importância ao óbvio para tentar ultrapassá-lo. Leiam o que informa o Portal G1. Volto em seguida.

*
Um agente da Polícia Federal foi assassinado com dois tiros na cabeça na tarde desta terça-feira (17) no cemitério Campo da Esperança, em Brasília. O agente Wilton Tapajós Macedo visitava o túmulo dos pais, por volta das 15h, quando um homem se aproximou e disparou. Macedo trabalhava no núcleo de inteligência da PF que investigou a operação Monte Carlo, que resultou na prisão do bicheiro Carlinhos Cachoeira. O chefe da operação, delegado Matheus Rodrigues, disse que Macedo participou das investigações desde o início, em 2009.

Em nota, a empresa Campo da Esperança informou que não pode restringir o acesso ao cemitério e que os visitantes não são revistados. A empresa informou ainda que quatro equipes com quatro seguranças armados trabalham, em escala, 24 horas no local. Também por meio de nota, a Polícia Civil disse que a 1ª Delegacia de Polícia está apurando o caso. Um jardineiro que trabalha no local viu o crime e informou à direção. A polícia investiga se o homem que cometeu o crime agiu sozinho.

De acordo com a PF, Macedo estava armado, mas não chegou a reagir. Ele morreu no local. O assassino levou o carro que estava com o policial, um Gol branco que era do filho de Macedo. A arma que o policial portava – uma Glock 9 milímetros – não foi roubada. O presidente do Sindicato dos Policiais Federais do DF, Jones Borges Leal, não descartou que o crime pode ter sido queima de arquivo.

Macedo estava na PF desde 1987. Leal disse que além do núcleo de inteligência da PF, o agente assassinado já tinha passado pelos serviços de proteção a testemunhas e de repressão a entorpecentes. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulgou nota de pesar pela morte de Macedo e se solidarizando com a família do agente.

Comento
É evidente que a tentação de ligar a morte do agente à operação é grande. Pode ser? Claro que pode ser. Tudo pode ser. Mas essa é uma operação gigantesca. O jogo está jogado. O que tinha de ser colhido já foi. Os vazamentos ainda estão em curso e não dependem mais da ação desses funcionários da PF. Mais: trata-se de uma ação grande, envolvendo vários profissionais. A suposição de que um deles concentrasse informação suficiente a ponto de fazer dele uma peça a ser eliminada é remota. Ele já havia atuado no combate ao narcotráfico e à pedofilia.

Por que o policial escolheria justamente o túmulo dos pais para marcar um encontro profissional, ligado a alguma investigação, dadas as muitas larguezas de Brasília? A polícia diz trabalhar com a hipótese de latrocínio, já que seu carro foi levado. Ladrões dando plantão em cemitério em plena terça-feira? Pode ser? Tudo pode ser, mas…

A Polícia Federal certamente vai trabalhar com todas as hipóteses. Que não descarte, então, uma delas: um crime que nada tem a ver com a atuação profissional de Macedo, praticado por quem sabia da atuação do policial da operação Monte Carlo e enxergou uma janela de oportunidades. É uma hipótese, como as outras.

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 21:17

Mercadante diz que “não há margem” para ir além na proposta a professor

Por Vitor Matos, do Portal G1:
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou nesta terça (17) que “não há margem fiscal para ir além” da proposta de aumento que o governo ofereceu aos professores federais em greve. Na semana passada, o governo apresentou novo plano de carreira e reajuste de até 45%, mas parte da categoria é contra. “O valor da proposta [tem impacto] de R$ 4 bilhões. Não há margem fiscal para ir além”, afirmou o ministro, após participar, em Brasília, de reunião com 42 reitores de universidades em greve.

Os professores têm de entender o momento pelo qual o país passa e que outros servidores não tiveram aumento” Aloizio Mercadante, ministro da Educação Mercadante enfatizou a dificuldade que o governo tem de conceder aumento em um momento como o atual, de crise financeira no mundo.

“O governo tem priorizado enfrentar a crise e preservar o emprego de quem não tem estabilidade. [...] Os professores têm de entender o momento pelo qual o país passa e que outros servidores não tiveram aumento”, disse Mercadante. Na reunião, de acordo com o ministro, ele ouviu dos reitores o pedido de antecipação, por parte do governo, do reajuste dos professores, previsto para vigorar a partir de 2013. “Não tenho, da área econômica, resposta sobre antecipação dos salários”, respondeu o ministro.

Mercadante afirmou que um grupo de trabalho, formado pelos reitores das federais, vai ser criado para apresentar propostas sobre pontos da carreira para os quais o governo está “aberto a consultas”, segundo o ministro. Um deles diz respeito às 12 horas-aula que o docente deve cumprir por semana. Alguns dos reitores presentes à reunião argumentaram que professores envolvidos em projetos de pesquisa deveriam cumprir carga horária menor em sala. O grupo tem até 90 dias para apresentar suas propostas. Outro tema que ainda está em debate, de acordo com Mercadante, é a formulação de um método para avaliar individualmente o professor.

O ministro ressaltou, no entanto, que o governo não vai abrir mão da titulação como mecanismo de ascenção na carreira. Titulação é a exigência de títulos, como mestrado e doutorado, para ascensão na carreira. Alguns sindicatos de professores têm reclamado do critério. ” Não vamos recuar em tirar a titulação para fazer acordo sindical”, afirmou o ministro. Para Mercadante, a titulação é garantia de “universidade de excelência”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 20:44

A AIDS e três leitores que respondem àquilo que não escrevi. Ou: Que tal ler direito antes de dar “socos na cara”?

Um dos dramas do nosso tempo, infelizmente, está na pressa com que as pessoas leem um texto e, pior, na pressa maior ainda com que respondem àquilo que julgam ter lido. Três manifestações de leitores sobre texto que escrevi a respeito da AIDS são uma evidência disso. Responderei  porque, à sua maneira, são emblemas de alguns equívocos.

Publiquei um post que traz a fala de Edward Green, uma das maiores autoridades do mundo no estudo da doença. Ele comenta um fato aparentemente contraditório: em comunidades da África, a ampla distribuição de camisinha acabou resultando numa elevação do número de pessoas infectadas pelo vírus. Como isso é possível? Ele explicou: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação’. Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.

Pois bem. Recebi algumas grosserias que devem ser ignoradas. Três comentários, no entanto, merecem destaque. Seguem em vermelho. Comento em azul.

Diz a leitora Brenda Pinheiro:
“Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.
Deixa eu ver se entendi: Se alguém usar airbags em seu carro, estará na verdade correndo MAIS RISCOS de acidente do que aqueles que não usam?? Aviões que utilizam T-CAS na verdade correm MAIS RISCOS de colidirem com outro avião em pleno vôo?? Limpadores de vidraças de edifícios comerciais que utilizam cintos de segurança, na verdade estão correndo MAIS RISCOS do que aqueles que não utilizam nada para se protegerem de uma queda??
REINALDO AZEVEDO: MAIS UM CATÓLICO PRESTANDO UM DESSERVIÇO À HUMANIDADE!!!

Comento
Brenda, Brenda… Agradeço o seu comentário porque ele me ajuda a manter a temperança. É bom que eu aprenda a controlar os meus impulsos. Não, você não entendeu nada. Mas eu explico.

Começo pelo fim. Se eu lhe pedir que faça o elenco dos males do catolicismo, você certamente não conseguiria tartamudear nada além de preconceito e ignorância — no sentido do “não saber”. Não é uma ofensa. Claro, Brenda! Conheço essa ladainha… É bem provável que você começasse a sua porfia pela Idade Média, a Santa Inquisição… Suaves e humanistas foram todos os impérios não católicos, não é?, antes e depois do advento do cristianismo. Se quiser bibliografia, posso quebrar seu galho. O trecho realmente encantador é este: “Mais um católico prestando um desserviço à humanidade”. Ora, pessoas e convicções que prestam “desserviço à humanidade”, suponho, devem ser eliminadas, não é? A causa seria justa. É o que Hitler pensava sobre os judeus, por exemplo.

Agora quanto ao mérito. É evidente que você não entendeu a afirmação de Green. Quanto mais as pessoas se cercam de segurança em operações de risco, Brenda, melhor. Correr, no entanto, riscos deliberados ou fazer mau uso — e é disso que se cuida — desses instrumentos pode induzir efeitos contraproducentes. É uma regra básica da vida, moça! O cinto de segurança pode salvar vidas. Se alguém passa a exercer direção temerária confiando nas virtudes do cinto, a proteção vira fator de risco.

O que se está a dizer, cara Brenda, é que a simples distribuição de preservativos, sem a direção segura (sacou a metáfora?), não resolve o problema. Ou por outra: sem uma mudança de comportamento (e isso não significa deixar de fazer sexo ou discriminar essa ou aquela práticas sexuais), não só não se atinge o objetivo desejado como pode ser contraproducente. O nome da palavra é “educação”. Entregue carros com cinto, airbag e todos os mais modernos dispositivos de segurança a adolescentes que não estejam dispostos a respeitar as leis de trânsito: você estará fabricando uma tragédia. É praticamente certo que haverá mais mortos nesse grupo do que num outro que conduzisse, dentro da prudência, algumas latas velhas.

A questão de fundo, Brenda, é esta: dispositivos de segurança manejados por imprudentes produzem mais desastres do que os menos seguros nas mãos dos mais sóbrios. Não é o instrumento em si que faz a diferença, mas quem os manipula. Entendeu? Nas questões que dizem respeito a comportamento, então, todo cuidado é pouco. Todos os profissionais de saúde que lidam com a área sabem que a distribuição gratuita de pílulas do dia seguinte — um instrumento de segurança — tem estimulado o sexo sem proteção…

Escreve o Fábio:
O raciocínio é equivocado, novamente pela contaminação com argumentos religiosos. A Suécia é um país que não segue dogmas religiosos, tem uma cultura muito liberal em relação ao sexo e a AIDS é uma doença sem qualquer incidência relevante no país. Quer resolver o problema da AIDS na África? Resolva-se o problema da África (socioeconômico). Invista-se em educação, e não na ignorância! Pregações de dogmas religiosos que só contribuem para aumentar ainda mais a ignorância do povo.

Respondo
Eu não usei um só argumento religioso no texto. Como você sabe que sou católico, apela a uma informação que está fora do artigo para tentar desqualificá-lo. Fosse futebol, seria uma canelada, Fábio. Não conheço os números da Suécia e não sei o que quer dizer “cultura liberal em relação a AIDS”. Estamos de acordo numa coisa: invista-se na educação. Mas suponho que não será possível esperar que se resolvam todos os “problemas socioeconômicos e educacionais” da África para pôr em prática uma política de combate à AIDS.

O que se tem, empiricamente testado, é a tal política ABC de Uganda (fidelidade no casamento, abstinência e uso de camisinha) e as outras que, suponho, você chamaria “liberais”, como a ampla distribuição de preservativos. Num caso, houve uma significativa redução do contágio; no outro, uma elevação.

Atenção, Fábio! Não foi a mão de Deus que operou um milagre, viu? Foram os seres humanos mesmo! À medida que houve uma drástica redução no número de parceiros sexuais e na exposição ao risco, caiu a contaminação. A religião, se entrou, foi só emprestando alguns valores que, no fundo, são éticos (não, Fábio, eu não disse que só os religiosos são éticos). Uganda, no que concerne à AIDS, não prova que a solução está com Deus; prova que a resposta está na mudança de comportamento.

O caso mais complicado é o de José Bonifácio, a quem já respondi na área de comentários. Mas ele insiste em me atacar por aquilo que não escrevi. Vamos ver.

Esse post seu e o do Truvara me deixaram realmente chateados com você Reinaldo, gostaria que você me olhasse na cara e me chamasse de promíscuo, eu iria te dar um SOCO na FACE imediatamente.
Sou soropositivo, isso que você está falando é altamente preconceituoso.
eu sou leitor do seu blog, leio todos os dias, mas isso aqui já esta beirando o ridículo, parece que você está apelando para conseguir mais fama nas redes sociais ( como canais apelativos de televisão que mostram bunda para ganhar audiência). me poupe desses seus comentários antiquados e obsoletos.
espero que você nunca mais escreva nada sobre AIDS aqui, por que como jornalista você é um péssimo médico. e Farei questão de vir aqui comentar quando me sentir ofendido por você, não sou promíscuo, e contrai a doença de uma pessoa que também não é. VOCÊ NÃO TEM A DOENÇA, NÃO É ESTUDIOSO SOBRE O ASSUNTO, NÃO DEVE SABER MUITA COISA SOBRE O ASSUNTO ( PELO QUE ESCREVE) E VEM AQUI POSTAR BOBAGENS.
EU TO ENVIANDO SEU BLOG PARA ALGUNS INFECTOLOGISTas QUE EU CONHEÇO.
Que você nunca tenha esse azar, mas e se sua filha numa relação sem proteção pega o vírus? aí ela passa a ser promíscua? e aquela senhora que teve uma relação com um senhor que nem sabia que tinha aids? VELHA PROMÍSCUA!
Reinaldo, você está sendo mais radical que muita gente por aí. não seja preconceituoso, leia mais e se informe,isso que está faltando.
alias, deixe o assunto para médicos, você fala mal do PT muito bem, limite-se a isso.

Respondo
O José Bonifácio leu tão mal e com tanta pressa o que escrevi que errou até no nome do remédio: é “Truvada”, não “Truvara”. O seu primeiro equívoco é achar que, porque é soropositivo, pode me dar lições sobre o assunto. O segundo é achar que, nesse caso, é preciso ser infectologista para pensar com lógica.

Tudo indica que você conhece as formas de contágio, Zé Bonifácio. É evidente que não escolheu ter o vírus, mas, parece, escolheu correr o risco (bem como seu parceiro ou parceira). Não, não estou dizendo um “você que se vire, ninguém mandou…” Ao contrário: espero que tenha todas as condições para se cuidar e se tratar. Tudo indica que você só está contaminado pela conjugação de duas imprudências: a sua e, antes, a da pessoa com quem você se relacionou.

Isso faz de você um “promíscuo”? Não! Eu sei muito bem o que escrevi. Isto:
“As pessoas que trabalham com saúde pública por aqui, e eu conheço algumas, sabem que a AIDS é majoritariamente, sim, uma doença associada ao sexo promíscuo. Tirem da palavra o conteúdo de censura moral. O ponto é outro: chamo de “promíscua” a prática sexual com vários parceiros, sem restrição ou proteção.”

Sim, senhor! Como você define, José Bonifácio, a “prática sexual com vários parceiros, sem restrição ou proteção”? Na África, rapaz, a AIDS é um flagelo, especialmente entre as mulheres, em razão do sexo promíscuo, sim! Você precisa recorrer mais ao dicionário e menos aos punhos. Houaiss pra você: “Promíscuo = constituído de elementos heterogêneos juntados desordenadamente; misturado, mesclado, baralhado”.

Esse negócio de apelar a filha ou filho, José Bonifácio, achando que assim dá um soco do estômago do outro e o cala para sempre, é uma tolice. Não funciona comigo. AS MINHAS FILHAS SABEM QUE, SE FIZEREM SEXO SEM PROTEÇÃO, MESMO COM PESSOAS CONHECIDAS, ESTARÃO EXPOSTAS AO RISCO DA AIDS E DE OUTRAS DOENÇAS. Se o fizerem, não estarão escolhendo ter o vírus, mas estarão escolhendo correr o risco.  Espero que não o façam. A escolha, agora, é delas. Entendeu o ponto?

Quanto ao caso da mulher que contrai a doença na relação com o marido, eu mesmo escrevi a respeito:
“Exceção feita aos casos de contaminação em transfusões ou em decorrência da infidelidade de um dos parceiros (geralmente o homem) no casamento, fato ignorado pelo outro, a contaminação se dá em razão de uma escolha desastrada.” Como você chamaria essa escolha, a sua inclusive? De “acertada”? Acho que não! Não chamei você ou qualquer outro de “promíscuo”. Não saia distribuindo murros na cara à toa, rapaz! O vírus não torna o seu pensamento nem errado nem certo.

Estima-se em 34 milhões os contaminados no mundo. Uma boa parte está na África, onde o flagelo da doença se mistura ao flagelo da pobreza e da ignorância — também já escrevi isso. Mas há milhões de portadores do vírus em países de economia mais avançada (nesse caso, o Brasil já está nessa categoria), aos quais não faltaram informação, advertência e políticas públicas. “Ah, então são culpadas pela sua doença, Reinaldo?” Não! São responsáveis pela escolha que fizeram. Nem por isso devem ser negligenciadas. Ao contrário: merecem ser tratadas com dignidade. Felizmente, nesse particular, no que concerne à questão médica, o Brasil tem feito um trabalho razoável — já foi melhor.

Na área comportamental, no entanto, o trabalho deixa muito a desejar. A AIDS é tratada como se fosse uma fatalidade, uma decorrência natural do fato de fazermos sexo. E não é! Consideradas as exceções aqui expostas, é uma decorrência de um tipo de sexo: o inseguro — em muitos casos, inseguro e promíscuo.

Faça isto mesmo, José Bonifácio: envie meus textos a infectologistas. Vamos ver onde eles apontam as minhas falhas técnicas. Recomendo a você que leia com mais prudência os textos antes de sair por aí a distribuir socos na cara, ainda que à distância.

PS: Nos comentários, sejam respeitosos com os leitores. Não estou batendo boca com eles. Acho que é um trabalho de esclarecimento.

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 17:31

Wikipedia, Chico Venâncio, “há”, “a” e ahhh…

Eita!!! Está faltando atenção a alguns leitores.

Sabem aquele post sobre o tal Chico Venâncio, o “Diderot da Wikipedia”, o enciclopedista de texto semianalfabeto? Pois é… Transcrevi trecho de um post que ele publicou em seu blog e negritei os erros mais grosseiros. O pior deles era trocar “há” por “a” para indicar tempo decorrido. Vamos ler de novo trecho do que ele escreveu (em vermelho):

Não comentei o motivo que me retornou a escrever no blog no último post. Na terça-feira a noite recebi um email de uma repórter da Folha de São Paulo me pedindo uma entrevista sobre a Wikipédia. A última coisa que eu esperava é que fosse um pedido de reação ao incômodo de Gilmar Mendes com as minhas edições em seu artigo!

Devo afirmar de antemão que é claro que eu não gosto de Gilmar Mendes e o considero o pior ministro que o STF possui. Acredito que ele tornou profecia as palavras de Dalmo Dallari. Os mais atentos lembrarão que iniciei esse blog a pouco mais de um ano expondo motivos de porque acredito que Gilmar Mendes deva ser removido do STF.

Voltei
No post que escrevi, não comentei todos os erros. É evidente que aquele “a”  no primeiro parágrafo está assinalado porque falta o acento grave, indicador da crase. O erro que comentei no post original está no segundo parágrafo. Escreve Venâncio: “iniciei esse blog a pouco mais de um ano (…)”. Ele quis escrever “ pouco mais de um ano…”

No post anterior, trato da baixa qualidade do ensino universitário no país. Parece que Venâncio integra aquele grupo dos 38% de universitários que não são plenamente alfabetizados. No Brasil do lulo-petismo, no entanto, ele se tornou um enciclopedista…

ataque-a-gilmar-analfabetismo

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 16:57

Milagres da dupla Apedeuta-Haddad: 2,4 milhões de universitários quase alfabetizados e 255 mil quase analfabetos! Tudo com o seu dinheiro!

A herança maldita da dupla Luiz Inácio Apedeuta da Silva-Fernando Haddad no ensino superior não será vencida no curto prazo. Marcará o setor por muitos anos porque certas armadilhas não serão facilmente desmontadas, especialmente aquelas que juntam o populismo à incompetência. É evidente que já havia problemas no ensino superior antes de o PT chegar ao poder. Mas eles se tornaram mais agudos, e a solução ficou mais distante porque, como sempre, Lula empenhou também o futuro em suas não-soluções.

A crise que toma conta das universidades federais, em greve há 60 dias, decorre não do crescimento da área ou das “dores do parto”, no clichê dramático do ministro Aloizio Mercadante. Decorre do inchaço irresponsável. Era preciso pôr mais alunos da universidade pública federal? Digamos que sim. Mas forçoso seria fazê-lo com qualidade, ou haveria o que antevi há alguns anos: a “supletivização” do ensino universitário, uma espécie, assim, de “Madureza” (lembram-se dela?) do terceiro grau. Ela está aí.

Dada a realidade salarial do Brasil, os professores (ver post anterior) estão longe de viver uma situação miserável. Cumpre, também, não absolutizar, se me permitem a palavra, a pauta de reivindicações, mas é evidente que os problemas que aí estão decorrem na falta de planejamento, da pressa e do atabalhoamento. Lula e Haddad trabalharam para fazer volume, não para qualificar o ensino universitário. Se salários e plano de carreira são as questões mais candentes porque determinam, afinal, se os professores voltam ou não ao trabalho, não se pode dizer que sejam as mais sérias. Grave mesmo é a falta de infraestrutura de boa parte das universidades federais. Os hospitais universitários, com uma exceção ou outra, são verdadeiros pardieiros. Não satisfazem as necessidades nem dos pacientes nem dos alunos. Numa universidade, há esgoto a céu aberto; na outra, faltam luz e água; uma terceira fica num descampado — o asfalto não chega até os muros da instituição. Em boa parte delas, faltam prédios para abrigar os cursos. O país passará os próximos anos tentando suprir essas lacunas. Lula “criou” as suas universidades para que outros não pudessem criar mais nenhuma.

O voluntarismo populista é parceiro da irresponsabilidade. Em passeio ontem pela Zona Leste de São Paulo, Fernando Haddad, este incrível falastrão, ao responder a uma moradora que reclamou das supostas dificuldades de ingressar no ensino superior por intermédio do ProUni, afirmou que só não há uma universidade federal na região porque a Prefeitura teria criado dificuldades. Atenção! É MENTIRA, MAS PODERIA SER VERDADE, ENTENDERAM? Este senhor jamais conseguiria explicar, e isso não lhe é perguntado, por que, em vez de melhorar as condições lastimáveis do campus da Unifesp de Guarulhos, ele criaria um novo na Zona Leste. Ou por outra: Haddad acha que não espalhou subuniversidades federais o suficiente. Esse sujeito é uma piada!

No dia 4 de maio, pouco antes de ter início a greve nas federais — e lembro que, no ano passado, elas ficaram paradas mais de quatro meses —, o Apedeuta recebeu títulos de Doutor Honoris Causa às baciadas. Foram conferidos em conjunto pelas instituições públicas localizadas no estado do Rio: Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UFF (Universidade Federal Fluminense) e UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

No discurso, como apontei aqui, esmerou-se na mentira. Afirmou ter chegado ao poder com 6 milhões de universitários no país. Já seriam, disse, 12 milhões. Os números reais, segundo o Censo Universitário feito pelo MEC, sob o comando de Fernando Haddad, que estava presente, são estes: havia, em 2001, 3 milhões de estudantes matriculados nas universidades do país; no fim de 2010, eram 6,37 milhões — quase a metade do que Lula alardeou. Atenção! 14,7% desse total (quase um milhão de alunos) estão matriculados na modalidade “ensino à distância”. Com raras exceções, esse troço virou um caça-níqueis ainda mais vantajoso do que instituições de ensino meia-bomba que vendem suas vagas para o ProUni. Não passa de picaretagem! Mas sigamos. A meta do Plano Nacional de Educação, estabelecida em 2000, era chegar a 2010 com 33% dos jovens de 18 a 24 anos na universidade. Segundo o Censo, o governo do Apedeuta ficou bem longe disso: apenas 17,4%. Como? Petistas não acreditam em mim? Faz sentido. Então acreditem nos números postos no portal do MEC, com foto de Fernando Haddad e tudo (aqui).

Ou por outra: o governo não cumpriu a meta, e a expansão ocorreu à matroca. O crescimento se deu em boa parte do ensino público privado de baixa qualidade. O espírito que animou a ação, na hipótese de ter havido um, foi este: “Vamos lá, vamos crescer, vamos fazer volume; da quantidade se fará a qualidade!” Fez-se? Não! O mal que assola os ensinos fundamento e médio chegou de forma avassaladora ao ensino universitário. Entre os estudantes do ensino superior, 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa. Vejam quadro.

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Em 2001/2002, 2% dos alunos universitários tinham apenas rudimentos de escrita e leitura. Em 2010, essa porcentagem havia saltado para 4%. Vale dizer: 254.800 estudantes de terceiro grau no país são quase analfabetos. Espantoso? Em 2001/2002, 24% não eram plenamente alfabetizados. Um número já escandaloso. Em 2010, pularam para 38%. Isso quer dizer que 2.420.600 estudantes do terceiro grau não conseguem ler direito um texto e se expressar com clareza. É o que se espera de um aluno ao concluir o… ensino fundamental!

E agora?
Cabe a este governo (não está fazendo isso também!) e aos próximos corrigir a herança maldita de Lula. Não dá para saber o volume de recursos necessários para dotar as federais da infraestrutura adequada. A relação do poder público com instituições privadas tem de mudar, mas se trata de uma operação delicada porque o Estado brasileiro, por intermédio do ProUni, se transformou num comprador e repassador de vagas se cursos de baixa performance, levados adiante apenas na base da saliva. A demanda é grande e passou a se confundir com um dos “direitos básicos” da população. E agora?

Entendam: os outros terão de corrigir as irresponsabilidades da dupla Lula-Haddad. O Apedeuta correu para o abraço, alardeando seus números milagrosos. Os outros que se encarreguem agora de tornar realidade as suas fantasias: custa caro e rende mais desgaste do que votos. Lula sempre preferiu os votos ao desgaste…

Durante oito anos, bem poucos se atreveram — modestamente, estive entre os poucos — a perguntar em que condições se dava a expansão do ensino universitário. Ao contrário até: alguns colunistas se esmeravam, e se esmeram ainda, em anunciar a grande revolução feita pela dupla Lula-Haddad. Eis o milagre da multiplicação de analfabetos de terceiro grau. Lula e a universidade, em suma, é a metáfora do cruzamento malsucedido de uma vaca com um jumento. O híbrido nem puxa carroça nem dá leite.

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 15:15

Greve nas federais faz 2 meses com impasse longe do fim

Na VEJA Online:
A greve dos professores de universidades e institutos federais de ensino superior completa dois meses nesta terça-feira, com 95% das instituições paralisadas e um impasse entre grevistas e o governo federal que parece longe do fim. Os professores de 57 das 59 universidades federais do país estão com os braços cruzados. As mais recentes instituições a aderir à greve foram a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Apenas a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a Universidade Federal de Itajubá (Unifei) não interromperam as atividades, segundo balanço do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes). A greve atinge ainda 34 dos 38 institutos federais, dois centros de educação tecnológica e 14 unidades do Colégio Pedro II, localizadas no Rio de Janeiro. O sindicato classifica a greve como a maior da história em número de adesões.

Na última sexta-feira, o governo propôs reajuste salarial e mudanças no plano de carreira dos professores, a vigorar a partir de 2013. O Andes, contudo, criticou veementemente as propostas dizendo que o governo “faz um jogo de números maquiados”, consolidando uma “soma de distorções”. Por meio de documento enviado às seções sindicais filiadas, o sindicato pede que os professores rejeitem a proposta e mantenham a paralisação. “A tarefa é manter e radicalizar a greve, o que significa intensificar o movimento e desmascarar a proposta do governo”, diz o comunicado. Do outro lado, o governo pede o fim da paralisação e reitera a greve como “precipitada”.  

A história ainda terá novos capítulos. Para quarta-feira, os professores prometem uma manifestação em Brasília. Ao longo de toda a semana, as seções sindicais de cada estado devem realizar assembleias locais para avaliar e votar as propostas. Na próxima segunda-feira, os docentes devem apresentar uma contraproposta em nova reunião com o governo.   

Impasse - A greve teve início no dia 17 de maio com professores de 33 instituições federais de ensino superior. À época,o ministro da educação, Aloizio Mercante, minimizou a paralisação e chegou a comparar os problemas de infraestrutura das federais às “dores do parto”.

A primeira reunião de negociação aconteceu no dia 13 de junho. Na ocasião, o Ministério do Planejamento propôs a reestruturação da carreira docente tomando como referência de remuneração a carreira de servidores do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A proposta, contudo, foi rejeitada pela categoria. Uma segunda reunião, prevista para o dia 19 de junho, foi cancelada pelo governo, sem justificativas. Na última quarta-feira, o Andes protocolou uma carta no Palácio do Planalto dirigida à presidente Dilma Rousseff pedindo a retomada do diálogo. Na sexta-feira, Mercadante e a ministra Miriam Belchior, do Ministério do Planejamento, se reuniram com os professsores. 

Pela proposta apresentada, o salário inicial do professor com doutorado e regime de dedicação exclusiva será de 8.400 reais ao final de três anos – os aumentos serão graduais no período. Os vencimentos dos docentes que já estão na universidade, com título de doutor e dedicação exclusiva, passarão de 7.300 reais para 10.000 reais. Por fim, também ao final de três anos, os salários de professores titulares com dedicação exclusiva passarão 17.100 reais, antes os 11.800 reais pagos hoje. Isso representa um aumento de 45% em termos nominais, mas não considera a inflação futura (confira aqui a proposta completa). O governo também aceita reduzir de 17 para 13 os níveis de carreira, como é exigido pelos docentes.

Para os institutos de educação, ciência e tecnologia, o governo afirma que, além da possibilidade de progressão pela titulação, haverá um novo “processo de certificação do conhecimento tecnológico e experiência acumulados” (confira aqui a proposta completa). O governo afirmou que os valores anunciados já incluem o reajuste de 4% à categoria garantido por uma medida provisória editada pelo governo federal em maio deste ano. Segundo Miriam Belchior, o reajuste vai custar 3,9 bilhões de reais ao orçamento federal.

Críticas – Já o Andes alega que a proposta toma como base os salários de julho de 2010 e projeta um resultado para 2015, omitindo a inflação do período – superior a 35%. Outra crítica é de que a proposta apresenta apenas ganho real para a classe de professor titular, topo da carreira, que hoje representa menos de 10% da categoria. “A proposta não é atrativa para todos os níveis de professores. Eles não têm garantia de uma remuneração adequada e constante”, diz Marinalva Oliveira, presidente do sindicato. 

Os docentes reivindicam reestruturação da carreira, com valorização da atividade acadêmica, baseando-se no tripé ensino, pesquisa e extensão. Em vez dos atuais 17 níveis de remuneração, pedem 13, com variação salarial de 5% entre eles e piso de 2.329,35 reais para 20 horas semanais de trabalho. Hoje, é de 1.597,92 reais. Além disso, querem dedicação exclusiva como regime preferencial de trabalho e pleiteiam carreira única para os professores federais – sem distinção entre magistério superior e magistério do ensino básico, técnico e tecnológico.

Outro ponto está relacionado a melhores condições de trabalho e infraestrutura. Eles criticam a processo de “precarização” vivido pelas universidades como consequência, principalmente, do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), criado pelo governo federal em 2007.

Muitas universidades expandiram o número de alunos sem que houvesse infraestrutura adequada. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, aumentou em 520% o número de vagas, mas faltam laboratórios, refeitórios e até salas de aula nos novos campi criados. No Rio de Janeiro, a expansão acontece em universidades de lata. No interior do estado, contêineres servem de sala de aula e de depósito para material que deveria servir para cursos da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre 2007 e 2011, o Ministério da Educação (MEC) repassou 4,4 bilhões de reais às federais para obras do Reuni. Contudo, um relatório da Controladoria Geral da União (CGU) aponta atraso em uma de cada quatro construções avaliadas.
(…) 

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 7:28

LEIAM ABAIXO

A AIDS e o ódio à razão de certo “libertarismo”. Ou: O melhor remédio contra a AIDS é a mudança de comportamento, mas muitos preferem apostar no homicídio ou no suicídio. Ou: Bento 16 está certo!;
A universidade da Era Apedeuta — No ensino superior, 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente;
O roteiro da farsa: A versão que Delúbio combinou com Dirceu; ex-tesoureiro diz ter agido sozinho;
Deputados do Paraná deixam partidos para se filiar ao recém-criado PEN;
Câmara aprova texto-base da MP que desonera folhas de pagamento;
Governador de Goiás nega ter recebido valores para garantir pagamentos à empresa;
O “Truvada”, a AIDS e a lógica. Ou: Um remédio de combate à AIDS que pode induzir uma elevação dos casos de contaminação;
FMI baixa projeção de crescimento mundial; a do Brasil cai para 2,5%; mercado prevê apenas 1,9%;
Edir Macedo, racismo e misoginia: cadê os ministros da Igualdade Racial e das Mulheres?;
Daqui a pouco, Edir Macedo…;
Vejam quem é um dos Diderots da Wikipedia no Brasil! Ou: Nessa enciclopédia, Tiririca será professor!;
A Wikipedia se transformou, no Brasil, num instrumento de difamação, manipulado por ignorantes e militantes a soldo;
Governo Dilma parado – Obras de mobilidade urbana para a Copa não andam;
Esta terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai se tornar um imenso Butão! E será uma obra conjunta do PT e da oposição!;
Marcos Valério pede ao STF foco nos “protagonistas políticos”

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 7:17

A AIDS e o ódio à razão de certo “libertarismo”. Ou: O melhor remédio contra a AIDS é a mudança de comportamento, mas muitos preferem apostar no homicídio ou no suicídio. Ou: Bento 16 está certo!

Então tá. Já que voltei, né?, por que não comprar mais algumas boas brigas, contra a chamada metafísica influente e as mistificações? Quem quer debater tira o pé do chãããooo
*
É impressionante a disposição de muitos para ler o que não está escrito. Publiquei ontem um post sobre a liberação do remédio Truvada, que pode ajudar a impedir a contaminação pelo vírus da AIDS — embora, está claro, ele não a impeça. Vale dizer: com ou sem Truvada, o sexo de risco continua a ser um… risco! Observei o óbvio: a depender de como se passe a usar o remédio, pode é haver uma elevação do número de pessoas infectadas. Se mais gente decidir correr mais riscos, apostando na efetividade da droga, é o que vai acontecer. Não sou médico nem especialista, mas penso com lógica. E não seria a primeira vez que uma boa intenção daria efeitos contrários ao pretendido.

Uma das maiores autoridades mundiais no estudo das formas de contágio da AIDS é o médico e antropólogo Edward C. Green. Ele já foi diretor do Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS (APRP, na sigla em inglês), do Centro de Estudos Sobre População e Desenvolvimento de Harvard. Hoje, está no Departamento de População e Saúde Reprodutiva da Universidade Johns Hopkins. Pois é… Green deixou muita gente irritada em 2010 quando, cientista que é, endossou uma afirmação do papa Bento 16 sobre a AIDS. Escrevi sobre o assunto à época. Relembro e avanço.

Numa visita a Camarões, um dos países que sofrem com o flagelo da AIDS na África, o papa afirmou que a distribuição maciça de camisinhas não era o melhor programa de combate à doença. Afirmou que o problema poderia até se agravar. A estupidez militante logo entendeu, ou fingiu entender, que Sua Santidade contestara a eficiência do preservativo para barrar a transmissão do vírus. Bento 16 não tratava desse assunto, mas de coisa mais ampla. Referia-se a políticas públicas de combate à expansão da doença. Se elas não estiverem atreladas a uma mudança de comportamento, não haverá a redução desejada nos casos de contaminação. Apanhou de todo lado. De todo mundo. No Brasil, noticiou-se a coisa com ares de escândalo. Os valentes nem mesmo investigaram os números no país — a contaminação continua alta e EM ALTA em alguns grupos — e no mundo. Adiante.

Em entrevista, então, aos sites National Review Online Ilsussidiario.net, Green afirma que as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África. Na verdade, ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsussidiario, assumiu claramente a posição do papa —  e, notem bem!, ele fala como cientista, como estudioso, não como religioso: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação’”. Literalmente, nas palavras ditas ao NRO: “Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, frequentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”. Entenderam o ponto, senhores radicais ou ditos libertários, que preferem pôr a opinião acima da razão e da lógica?

Nem se trata de debater se a camisinha é, em si, eficaz ou não ou de estabelecer a sua porcentagem de segurança. Quando se diz que a AIDS é uma doença associada a comportamentos de risco, não se está diante de uma questão de gosto, mas de uma questão de fato. O mau uso de uma tecnologia de redução de risco conduz a uma maior exposição ao… risco! Compreenderam, ou preciso desenhar? Todas as propagandas feitas pelo Ministério da Saúde no Brasil estimulando o uso da camisinha, por exemplo, tratavam e tratam o sexo irresponsável — muitas vezes, com desconhecidos — como se fosse coisa corriqueira. Numa delas, um sujeito acordava assustado, no meio da noite, olhava um estranho que dormia a seu lado e só suspirava aliviado quando via o invólucro aberto de uma camisinha. Sei. Quem nem sequer se lembra com quem foi pra cama ou se usou ou não o preservativo escolheu a segurança ou o risco?

Pois é… Green afirma também que o chamado programa ABC — abstinência, fidelidade e, sim, camisinha (se necessário), que está em curso em Uganda — tem-se mostrado muito mais eficiente para diminuir a contaminação. E diz que o grande fator para a queda é a redução de parceiros sexuais. Que coisa, não?

NÃO É MESMO INCRÍVEL QUE SEXO MAIS RESPONSÁVEL CONTRIBUA PRA DIMINUIR OS CASOS DE CONTAMINAÇÃO? Pois é… Critico as campanhas de combate à AIDS no Brasil desde o site  Primeira Leitura, como sabem. E, aqui, desde o primeiro dia. Há textos às pencas no arquivo. A petralhada que se pensa cheia de veneno e picardia erótica gritava: “Você quer impor seu padrão religioso ao país…”. Ou então: “Você não gosta de sexo…”. Pois é. Vai ver Harvard e, agora, a Johns Hopkins escolheram um idiota católico e sexofóbico para dirigir o programa…

Bento 16 apanhou que deu gosto. E apanhou pelo que não disse — e ele jamais disse que a camisinha facilita a contaminação de um indivíduo em particular — e pelo que disse: a AIDS é, sim, uma doença associada ao comportamento de risco e, pois, às escolhas individuais. Sem que se mude esse comportamento (o que não quer dizer um gay deixar de ser gay, por exemplo), nada feito. Pois é… O mundo moderno não aceita que as pessoas possam ter escolhas. Como já escrevi aqui certa feita, transformaram a camisinha numa nova ética. E, como tal, ela é de uma escandalosa ineficiência.

O caso dos contraceptivos
O combate a doenças associadas a comportamento pode passar por lugares insuspeitados. Em novembro do ano passado, o New York Times publicou uma
reportagem sobre pesquisa divulgada na revista médica Lancet dando conta de que, em alguns países africanos, o número de infectadas pelo vírus da AIDS era muito maior num grupo de mulheres que usavam um contraceptivo injetável  do que no daquelas que não usavam. O levantamento foi feito com casais de Botsuana, África do Sul, Zâmbia, Quênia, Ruanda e Tanzânia. A proporção era de 6,61 por 100 contra 3,78 por 110; no caso dos maridos, de 2,61 por 100 contra 1,51 por 100.

As razões não estavam claras, diziam os cientistas. Especulava-se sobre a possibilidade de o hormônio injetável causar mudanças no sistema imunológico, na lubrificação vaginal etc. Cientistas, muitas vezes, não gostam de pensar hipóteses que vão além dos bichinhos, humores corporais, proteínas, essas coisas… A minha hipótese, bem aqui à distância, é que o tal hormônio injetável, aplicado a cada três meses, dava a muitas mulheres a garantia na não concepção, um fator a mais — e não é preciso ser muito bidu para descobrir por quê — a estimular o sexo despreocupado. Isso deve ter induzido uma elevação do número de parceiros, com sexo desprotegido. O resultado se fez sentir na elevação brutal da contaminação.

Não se constatou aumento significativo num grupo que tomava comprimidos diários. Isso elimina a minha hipótese? Ao contrário: reforça. A mulher que se lembra de tomar diariamente um contraceptivo estabelece um compromisso maior com o controle da sua sexualidade do que aquela que toma uma injeção a cada três meses.

A AIDS ainda não tem cura, mas o contágio, ah, esse tem, sim! O melhor remédio chama-se “comportamento”. Os médicos não falam isso porque têm medo de cair na rede de difamação dos grupos militantes. Mas fatos são fatos. Os militantes podem até se achar donos da causa, mas não são donos da verdade.

Texto publicado originalmente às 5h58
Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 7:10

A universidade da Era Apedeuta — No ensino superior, 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente

Pois é… Há algum tempo critico, e quase isolado, a forma como se deu e está se dando a expansão do ensino universitário no país. Os resultados começam a aparecer. Leiam o que informam Luis Carrasco e Mariana Lenharo, no Estadão:

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Entre os estudantes do ensino superior, 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa. O indicador reflete o expressivo crescimento de universidades de baixa qualidade. Criado em 2001, o Inaf é realizado por meio de entrevista e teste cognitivo aplicado em uma amostra nacional de 2 mil pessoas entre 15 e 64 anos. Elas respondem a 38 perguntas relacionadas ao cotidiano, como, por exemplo, sobre o itinerário de um ônibus ou o cálculo do desconto de um produto.

O indicador classifica os avaliados em quatro níveis diferentes de alfabetização: plena, básica, rudimentar e analfabetismo (mais informações nesta pág.). Aqueles que não atingem o nível pleno são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações. Segundo a diretora executiva do IPM, Ana Lúcia Lima, os dados da pesquisa reforçam a necessidade de investimentos na qualidade do ensino, pois o aumento da escolarização não foi suficiente para assegurar aos alunos o domínio de habilidades básicas de leitura e escrita. “A primeira preocupação foi com a quantidade, com a inclusão de mais alunos nas escolas”, diz Ana Lúcia. “Porém, o relatório mostra que já passou da hora de se investir em qualidade.”

Segundo dados do IBGE e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), cerca de 30 milhões de estudantes ingressaram nos ensinos médio e superior entre 2000 e 2009. Para a diretora do IPM, o aumento foi bom, pois possibilitou a difusão da educação em vários estratos da sociedade. No entanto, a qualidade do ensino caiu por conta do crescimento acelerado. “Algumas universidades só pegam a nata e as outras se adaptaram ao público menos qualificado por uma questão de sobrevivência”, comenta. “Se houvesse demanda por conteúdos mais sofisticados, elas se adaptariam da mesma forma.”

Para a coordenadora-geral da Ação Educativa, Vera Masagão, o indicativo reflete a “popularização” do ensino superior sem qualidade. “No mundo ideal, qualquer pessoa com uma boa 8.ª série deveria ser capaz de ler e entender um texto ou fazer problemas com porcentagem, mas no Brasil ainda estamos longe disso.” Segundo Vera, o número de analfabetos só vai diminuir quando houver programas que estimulem a educação como trampolim para uma maior geração de renda e crescimento profissional. “Existem muitos empregos em que o adulto passa a maior parte da vida sem ler nem escrever, e isso prejudica a procura pela alfabetização”, afirma.

Jovens e adultos. Entre as pessoas de 50 a 64 anos, o índice de analfabetismo funcional é ainda maior, atingindo 52%. De acordo com o cientista social Bruno Santa Clara Novelli, consultor da organização Alfabetização Solidária (AlfaSol), isso ocorre porque, quando essas pessoas estavam em idade escolar, a oferta de ensino era ainda menor. “Essa faixa etária não esteve na escola e, depois, a oportunidade e o estímulo para voltar e completar escolaridade não ocorreram na amplitude necessária”, diz o especialista.

Ele observa que a solução para esse grupo, que seria a Educação de Jovens e Adultos (EJA), ainda tem uma oferta baixa no País. Ele cita que, levando em conta os 60 milhões de brasileiros que deixaram de completar o ensino fundamental de acordo com dados do Censo 2010, a oferta de vagas em EJA não chega a 5% da necessidade nacional.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

17/07/2012

às 6:47

O roteiro da farsa: A versão que Delúbio combinou com Dirceu; ex-tesoureiro diz ter agido sozinho

Olhem para Delúbio Soares. Pensem em Delúbio Soares. Lembrem-se de Delúbio Soares. Vocês podem acreditar que ele decidiu, sozinho, fazer a lambança do mensalão — cuja existência, claro!, ele nega? Pois ele diz que foi exatamente isso o que aconteceu. Nem José Genoino, então presidente do PT, nem José Dirceu, o então poderoso chefe da Casa Civil — e da quadrilha, segundo o procurador-geral — sabiam de suas ações. Uau! Delúbio era o grande autocrata do PT.

Corrupção? Nem pensar! Tudo caixa dois de campanha! E a dinheirama manipulada por Marcos Valério? Ele insiste que teve origem em empréstimos bancários e que a milionária verba de publicidade oficial que passava pela agência do publicitário não tinha qualquer vinculo com a dinheirama repassada aos políticos.

Considerando que a grana do mensalão era repassada a políticos e partidos da base aliada, ficamos sabendo, assim, que Delúbio era, além de tesoureiro, o grande articulador político de Luiz Inácio Apedeuta da Silva, certo?

Há mais: se, como sustenta, agiu sozinho, causando tantos dissabores ao partido, o normal seria que os petistas estivessem bravos com ele, não é? Mas quê… Foi reintegrado ao partido com todas as honras… Delúbio não diz por que decidiu optar pelo esquema clandestino para pagar as contas e por que recorreu justamente a Valério, que tinha algumas contas graúdas do governo federal.

Pois é, meus caros: em matéria de cara de pau, os petistas não têm competidores. Leiam o que informa Vanildo Mendes, no Estadão:
*
Em memorial sucinto enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares assumiu sozinho a responsabilidade pela distribuição de recursos ilegais a políticos e partidos da base aliada do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Mas negou que os pagamentos tivessem relação com o “falacioso mensalão” e alegou ser inocente das acusações de corrupção ativa e formação de quadrilha.

 

A estratégia de colocar a conta do mensalão nos ombros de Delúbio para livrar os demais réus foi combinada pelo “núcleo central da quadrilha”, definição usada pela Procuradoria-Geral da República na denúncia entregue ao STF em 2007, como antecipou o Estado em 2 de julho. O acerto teria sido articulado entre o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), apontado como “chefe da organização criminosa”, o ex-presidente do PT José Genoino e o próprio Delúbio.

Segundo o ex-tesoureiro, as acusações “não se sustentam”. “Os repasses de valores (…) tiveram como única finalidade o pagamento de despesas decorrentes de campanhas eleitorais, tanto dos diretórios estaduais do PT, quanto dos partidos que integravam a chamada base aliada”, afirma Delúbio. “Restou comprovado que o dinheiro utilizado para pagamento de dívidas de campanha foi obtido por meio de empréstimos, junto ao Banco Rural e ao banco BMG”, insistiu, embora a CPI dos Correios, em 2005, tenha afirmado que o dinheiro teve origem em repasses irregulares do governo para empresas do empresário Marcos Valério e, de lá, para o caixa do PT.

Ao contrário do que afirma o Ministério Público, Delúbio nega a existência de corrupção no esquema. “Os elementos probatórios colhidos na presente ação penal revelam com clareza que não houve transferência de dinheiro para compra de votos no Congresso”, disse ele. “É fundamental destacar que as principais reformas votadas no período questionado só foram aprovadas com votos da oposição.”

O julgamento do mensalão começa no dia 2 e Delúbio, um dos 38 réus, pode pegar até 12 anos de prisão, além de ficar inelegível por até 15 anos. O ex-tesoureiro se mostra confiante em ser absolvido de acusações como a de corrupção. “Como restou demonstrado na defesa, inclusive por gráficos, não há nenhuma relação entre o repasse do dinheiro e o apoio ao governo, o que desnatura o falacioso mensalão”, disse. “Não há, aliás, nenhum pagamento mensal, como também se demonstrou.”

Campanha. Da mesma forma, conforme ele, não há relação entre o apoio dos partidos da base com o dinheiro dos empréstimos. Delúbio dá uma explicação duvidosa: “Ao longo do período em que foram feitos os repasses, a taxa de apoio ao governo diminuiu, o que mostra a absoluta improcedência da acusação de corrupção”. Todo o dinheiro que circulou entre partidos e candidatos de 2002 a 2004, segundo ele “está inequivocamente relacionado a despesas de campanha”.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

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