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Arquivo de 4 de Março de 2012

04/03/2012

às 7:11

PSDB pode comemorar resultado de pesquisa, claro!, mas a corrida mal começou. Ou: A pergunta que o Datafolha não fez. Ou: Leituras estranhas

Bem, vocês viram os dados do Datafolha. Dois números são muito expressivos: Serra ganhou nove pontos percentuais de um mês para outro e poderia até vencer no primeiro turno a depender do cenário – oscilando de 30% a 49%. O petista Fernando Haddad, no melhor cenário, obtém 8%. Naquele que é chamado o “Cenário Um”, com todos os partidos grandes e médios lançando candidatos, obtém apenas 3% — só ganha de Levy Aeorotrem Fidelix (PRTB) e Flávio Durso (PTB) e empata com “não sabe”. É cenário definitivo? É claro que não!

Eu sou partidário, com sabem, da tese dos três terços do eleitorado: um terço vota contra o PT (em São Paulo, entenda-se “PSDB”), um terço vota contra o PSDB (é o PT), e é preciso disputar o terceiro terço. Alguém poderia indagar: “Pô, Reinaldo, por que você não escreve de modo diferente: ‘um terço vota a favor do PSDB, um terço a favor do PT…’?” Porque não é assim que as coisas se dão nesta cidade e neste estado. Fala-se muito de “conciliação” disso e daquilo e coisa e tal… Por aqui, é diferente! Atenção! Há até quem aprove o governo Dilma, mas jamais votaria no PT; o mesmo se diga do governo Alckmin e do não-voto no PSDB. Bem, alguns bobalhões acham que isso faz mal ao Brasil… Eu acho que isso faz bem! Democracia que não tem oposição é ditadura — ainda que ditadura do consenso! Os fanáticos do consenso vão passar a vida comendo grama. Se olharem bem, nas disputas eleitorais ao menos, Lula sempre apostou no confronto. Depois ele se junta até com o capeta — desde que não tenha bico (rabo, pêlo e chifre, isso pode!) — para governar. Mas não vou me perder nesse aspecto agora. Adiante.

Serra tem a vantagem de ser muito conhecido — 99% sabem quem ele é; apenas 49% conhecem Fernando Haddad, que Lula tirou da cartola. De todo modo, é um índice de conhecimento relativamente alto para tão baixa performance eleitoral. Mas é claro que chegará fácil, segundo a teoria dos três terços, aos 30%, 30 e poucos, tão logo fique  claro que é ele o candidato antitucano. Como Serra é conhecido, já se sabe que é ele o nome antipetista — assim, cresceu nove pontos de um mês para outro. Não por acaso,  sua rejeição é de 30% — era de 33% no fim de janeiro. Haddad alcançando o patamar dos 30% — o que significa que terá ficado claro ser ele o candidato do PT —, é quase certo que a rejeição subirá para patamar semelhante.

Fator Lula
O Datafolha quis saber o peso dos padrinhos no voto dos candidatos. Poderiam, segundo o instituto, votar em alguém indicado por Lula 44% dos entrevistados — 31% no caso de Alckmin. Não votariam em alguém com apoio de Lula, 21% (19% no caso do governador). E o apoio seria indiferente para 33% no caso do líder petista e 48% no do líder tucano.  Atenção! Entre o “poderia” e o “votaria com certeza” vai uma grande diferença. De fato, as influências, respectivamente, de Alckmin e Lula não são muito diferentes.

Essa “influência” tende a ser superestimada pelos analistas por dois motivos: a) porque Dilma saiu do quase nada e se elegeu (e se imagina que o mesmo pode acontecer com Haddad) e b) porque o candidato do PT é o nome preferido de boa parte da imprensa. Ora, contraponho a esse dado dois fatos: Lula conseguiu, sim, transferir seus votos para Dilma em 2010, mas, nas eleições minicipais de 2008, tinha sido um fiasco. Quando o cargo disputado não é o mesmo exercido pelo potencial transferidor, essa passagem é mais difícil — Lula nem está com mandato agora. Pode acontecer? Pode! O fato é que o PT tem sido malsucedido em São Paulo — Lula e Dilma perderam as eleições presidenciais na capital e no Estado.

Vem pauleira por aí
Bem, queridos, vou aqui fazer uma crítica severa ao Datafolha. E convoco especialistas em pesquisa para avaliar se a minha observação é pertinente ou se apenas estou puxando brasa para a sardinha do candidato em que vou votar — atenção! Eu digo em quem vou votar! O leitor pode desconfiar de mim se quiser. MAS TALVEZ DEVA DESCONFIAR MAIS DE QUEM NÃO DIZ!

Lá no título, deixo claro que vou escrever sobre o que defini como “a pergunta que o Datafolha não fez”. Bem, se a fez, ao menos não publicou. O instituto indaga:
“Você sabia que Serra deixou a prefeitura em 2006, menos de dois anos após ser eleito, para de candidatar ao governo de SP?”

Este “menos de dois anos depois” não acrescenta informação nova nenhuma; serve apenas para convocar o entrevistado para se escandalizar. Resposta: 76% disseram que sabiam; 19%, que não sabiam; e 5% não souberam responder. Bem, não deixa de haver um dado positivo para Serra aí: a esmagadora maioria do eleitorado tem consciência do fato. Muito bem, em seguida, pergunta o Datafolha: “Você acha que ele agiu mal, bem ou não sabe?” Para 66%, agiu mal; para 26%, bem; 7% não souberam responder. O Datafolha achou que era pouco e se mostrou ainda mais curioso: “Caso Serra seja eleito prefeito, você acha que ele vai se afastar em 2014 para concorrer à Presidência? Resultado: sim; 66%; não: 24%; não sabe: 10%.

Mauro Paulino, o diretor-geral do Datafolha, que me perdoe, mas ele está produzindo números para os adversários de Serra. Que tal, Paulino, esta pergunta:
“Você sabia que Serra deixou a Prefeitura em 2004, menos de dois anos após ser eleito, para impedir a vitória de um candidato do PT ao governo de São Paulo? Você acha que agiu bem, mal ou não sabe responder?”
Alguém dirá: “Mas essa é uma pergunta muito serrista!” Sei… E a feita pelo Datafolha? Não é muito anti-serrista?

A pergunta que não foi feita
Ora, então que se produzam dados contra todos, por uma questão de isonomia. Eu sugiro uma questão:
“Você sabia que Haddad é o ministro em cuja gestão se fizeram os kits gays para as escolas? Você acha que ele fez bem, mal ou não sabe responder?”
Já até ouço alguém gritando: “Mas essa não é uma questão relevante!” Não??? A presidente Dilma Rousseff acaba de acomodar um nome no Ministério da Pesca só para tentar desfazer certo mal-estar com evangélicos. Poderia trocar essa pergunta por outra:
“Você sabia que Fernando Haddad era ministro da Educação nas três vezes em que o Enem deu problema?”

Ora, essa história de Serra ter deixado a Prefeitura é, obviamente, uma pauta dos seus adversários. Fica até parecendo que deixou o cargo para ir até a esquina. Não! Candidatou-se ao governo de São Paulo e venceu no primeiro turno — inclusive na cidade. É claro que os jornalistas de Mercadante e alguns de seus parentes queriam que Serra tivesse ficado na Prefeitura em 2006… Sim, é evidente que esse é um flanco que vai ser atacado pelos adversários. Mas cadê o flanco dos demais?

O Datafolha poderia ter perguntando sobre Gabriel Chalita, o mais novo enfant gâté da imprensa paulistana e garoto de ouro de Michel Temer, algo assim:
“Você sabia que Gabriel Chalita se elegeu vereador pelo PSDB e foi o PSB; eleito deputado, mudou para o PMDB?”

Terá o Datafolha feito essas perguntas? O resultado ainda será divulgado nos próximos dias? Ou o instituto resolveu aderir à pauta dos adversários de Serra para demonstrar que é isento?

Record e UOL
Neste momento, quase seis da manhã de domingo, a manchete do UOL é esta: “66% não crêem em Serra e acham que ele deixará a Prefeitura”. De novo, convoco Mauro Paulino e indago: FOI ESSA A PERGUNTA FEITA PELO DATAFOLHA??? Não foi!

Para que essa manchete fosse possível, seria preciso ter feito esta pergunta: “Você acredita em Serra quando diz que vai ficar na Prefeitura se eleito?” Mas se perguntou outra coisa, como fica evidente acima.  “Ah, mas a gente deduz…” EPA!!! Nesse caso, dedução é proibido! O QUE SE PERGUNTOU É OUTRA COISA. A manchete, como fica óbvio, transforma uma pesquisa positiva para o tucano em algo negativo.

Não é mesmo curioso? Fernando Haddad, o candidato da Presidente da República, do maior partido do país e de Lula, tem 3% das intenções de voto; Serra tem 30%. O que fazer? Ora! Dar uma notícia negativa para… o tucano!!! Faz ou não faz sentido? “66% não crêem em Serra…” Ora… O Datafolha não apurou nada disso, e Mauro Paulino e a Folha sabem muito bem!

A Rede Record não agiu de modo diferente. Também achou que essa abordagem era a melhor. Faz sentido e nem se esperava outra coisa. Afinal, ao tomar posse no Ministério da Pesca, Marcelo Crivella houve por bem agradecer o tio, Edir Macedo, dono da emissora.

Caminhando para o encerramento
Todos sabem o que penso, e espero que o leitor jamais perca isso de vista. A questão é saber se trato ou não de coisas pertinentes. Desafio qualquer um a justificar tecnicamente a manchete do UOL — já que ancorada numa pesquisa. E pergunto por que a pauta dos adversários dos demais candidatos não virou perguntas do Datafolha, como virou a dos adversários de Serra.

Os resultados são, sim, auspiciosos para os tucanos e aliados, mas a corrida mal começou. Pesquisas servem para delinear estratégias, determinar mudança de rumos etc. Uma coisa é certa: podem se preparar para o baguncismo sindical, protestos, provocações à polícia, tentativas de confronto, manifestações disso e daquilo… Querem ver como são as coisas? Leiam o que informa Daniela Lima, na Folha Online:
“O ex-governador José Serra passou por um constrangimento em seu primeiro dia de campanha como pré-candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo. Ao visitar o Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na Vila Nova Cachoeirinha (bairro da zona norte da capital paulista), ele foi vaiado por um grupo de jovens que aguardava show no local, do rapper Criolo. Apoiadores e eleitores simpatizantes do tucano tentaram abafar as vaias com aplausos, mas foi preciso que Serra fosse para outro ambiente no local para que o barulho acabasse. O ex-governador, que inaugurou o local quando prefeito (2005 a 2006), minimizou o episódio. “É normal. Você tem outros partidários. O importante é ver isso aqui funcionando. Esse centro foi uma questão pessoal. [...] Isso aqui era um mercado em ruínas, cheio de ratos. Hoje recebe 50 mil jovens. Inclusive esses que estão aí e não sabem que fui eu que fiz”, afirmou.
(…)

Como todo mundo sabe, onde quer que esteja um candidato tucano, há petistas organizados para vaiar. A cada vez que o jornalismo dá destaque a isso, acaba se comportando como parte do grupo militante. É questão de lógica elementar. Leiam o texto acima: os que vaiaram Serra são definidos como “um grupo de jovens”; já os que o aplaudiram eram “eleitores e apoiadores simpatizantes”… Militante tucano é tratado como militante tucano. Militante petista vira povo!

É, a campanha começou!

Por Reinaldo Azevedo

04/03/2012

às 7:07

Manifesto já conta com 455 militares, 62 deles oficiais-generais. Não mudei de idéia: que se cumpra a lei! Os com farda e os sem-farda!

Chega a ser vergonhosa a cobertura que boa parte da imprensa dispensa à desnecessária truculência com que a presidente Dilma Rousseff e o ministro Celso Amorim (Defesa) decidiram avançar contra um abaixo-assinado de militares da reserva que protestavam contra a censura a um manifesto assinado pelos clubes militares. Chamo a cobertura de “vergonhosa” por uma razão muito simples: há gente achando que o que está em julgamento é o direito de os militares darem um golpe! Isso é estúpido!

Há, reitero, uma lei que permite aos militares da reserva se manifestar nos termos em que se manifestaram. É mentira que tenham contestado a autoridade de Amorim. Eles afirmaram, e com razão, que o ministro não tinha autoridade no caso específico — isto é, para obrigar os clubes a retirar do ar o manifesto. No mais, fizeram o que Lei 7.524 permite, a saber:
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA,
faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei:
Art 1º
Respeitados os limites estabelecidos na lei civil, é facultado ao militar inativo, independentemente das disposições constantes dos Regulamentos Disciplinares das Forças Armadas, opinar livremente sobre assunto político e externar pensamento e conceito ideológico, filosófico ou relativo à matéria pertinente ao interesse público.

O que vai aí é incontroverso. Qualquer punição aplicada pelos respectivos comandos será ilegal, como é ilegal a exigência de Dilma e Amorim. Falta de aviso não foi. Um episódio que poderia passar quase despercebido está virando uma bola de neve. Por quê? Porque Celso Amorim é aquele tipo de doutor que, ao perceber que um remédio piorou as condições do doente, manda dobrar a dose porque acredita que, com a convicção e o radicalismo, corrigirá um erro de diagnóstico.

Bem, meus caros, quando a dupla do barulho mandou punir os signatários do manifesto, havia apenas 98 militares, 13 deles generais. Às 18h30 de ontem, o protesto já reunia 647 adesões. Ao todo, são 455 militares — 61 deles oficiais-generais —, 1 desembargador do TJ-RJ e 191 civis.

Atenção!
Não se trata de concordar com os dois textos ou de discordar de ambos. Não é isso o que está em debate. A questão é saber se a lei será ou não respeitada. Dilma e Amorim estão antecipando um clima ruim para a tal “Comissão da Verdade”. Ora, se um protesto de militares, feito no mais rigoroso cumprimento da legalidade, merece esse tratamento, quero ver o que virá depois, quando o proselitismo revanchista decidir que a Lei da Anistia e o STF não são de nada…

Aqui e ali, referem-se aos militares da reserva como “milicos de pijama”, “saudosos da ditadura”, “reacionários”… Bem, apreço pela ditadura demonstra quem quer atropelar a lei para fazer valer a sua vontade; isso, sim, é reacionário; antes um “pijama” amparado na legalidade do que um terno ou um tailleur vestindo o arbítrio.

Chega de papo-furado! Cumpra-se a lei! Ponto! Se decidirem não cumprir, que os punidos recorram à Justiça!

PS – Gostaria de ver alguns coleguinhas a defender a tese de que, nesse caso em particular, a lei deve ser ignorada. Será um momento lindo do estado de direito! Coragem, valentes! Já há gente cantando as glórias até do infanticídio como a mais bela face do humanismo. Advogar que se jogue a lei no lixo é fichinha.

Por Reinaldo Azevedo

 

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