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César Benjamin

19/05/2011

às 11:49 \ Feira Livre

‘Ler, escrever, calcular’, de César Benjamin

ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA EM 6 DE FEVEREIRO DE 2010

César Benjamin*

Não devem passar despercebidos dois artigos publicados nesta Folha nos últimos dias. Em “Repetência e alfabetização”, de 27 de janeiro, João Batista Araújo e Oliveira apresentou resultados de um teste aplicado em 338 mil alunos do segundo ao quinto ano em 350 municípios brasileiros espalhados por 25 Estados, uma amostra muito representativa. Nada menos de 70% dos avaliados foram considerados analfabetos, e 50% dos estudantes do quinto ano foram classificados assim.

No dia 4, a Folha noticiou o desempenho de alunos da rede municipal de São Paulo em matemática. Não me estenderei. Ocimar Alavarse, da USP, avaliou o resultado como “escandaloso”. Um teste semelhante, em escala nacional, mostraria resultado igual ou pior. Tais avaliações mostram que o Brasil ainda recusa à maioria dos seus filhos a possibilidade de participar das potencialidades da civilização contemporânea. Estamos diante de um problema grave, antigo, estrutural, que envolve todos os níveis de governo e a sociedade. Mas não conseguimos reagir.

Há íntima relação entre a capacidade formal de expressão e os conteúdos que se deseja expressar. Em um dos Seminários de Zollikon, Heidegger pergunta: “Por que os animais não falam?”. Ele mesmo responde, de maneira simples e muito perspicaz: “Porque não têm o que dizer”. Quando depois se refere ao homem como “o animal falante”, talvez possamos ler “o animal que tem o que dizer”.

Os homens sempre tiveram muito a dizer. Todas as sociedades, das mais primitivas às mais avançadas, separadas por dezenas de milhares de anos, criaram línguas que apresentam grau semelhante de complexidade, a ponto de até hoje não ter sido possível construir uma teoria evolutiva da linguagem, esse grande enigma humano.

Pois é de uma linguagem criativa que se trata, o que nos diferencia. Adquirimos na infância a misteriosa capacidade de construir e entender um número indefinido de sentenças que jamais ouvimos e que talvez jamais tenham sido enunciadas, enquanto os sistemas de comunicação usados por outras espécies só permitem a transmissão de um pequeno conjunto de mensagens cujo significado é fixo.

Assim, além das funções de expressão pessoal e de comunicação imediata, que compartilhamos com os animais, nossa linguagem possui funções superiores que lhe são específicas, como descrição, conceitualização e argumentação.

Graças a elas, podemos desenvolver, por exemplo, padrões de crítica, a ideia de verdade, o conceito de razão. Popper é enfático: “É ao desenvolvimento das funções superiores da linguagem que devemos a nossa humanidade, a nossa razão, pois nossos poderes de raciocínio nada mais são do que poderes de argumentação crítica”.

A capacidade de abstração, a formulação de explicações, a compreensão de objetos complexos -tudo isso exige o cultivo das funções superiores da linguagem, que, no mundo contemporâneo, implica o domínio pleno da leitura e da escrita, além de fundamentos de lógica que nos são transmitidos, principalmente, pela matemática.

Nenhuma sociedade poderá se manter à tona, no século 21, sem disseminar essas capacidades em suas populações. Isso exige que as crianças aprendam a ler, escrever e calcular, com proficiência, na idade adequada. É a base do que vem depois. Se isso não for obtido no tempo certo, toda a estrutura educacional do país permanecerá comprometida. Eis um grande tema para a campanha presidencial, se ela quiser ser mais que uma pantomima.

* Editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006).

03/12/2009

às 14:46 \ Direto ao Ponto

Nós não esqueceremos

Com a serena firmeza de quem tem razão, César Benjamin retomou na Folha desta quarta-feira o caso do menino do MEP. Resolveu revelar a infâmia, explicou no segundo artigo, pelo desconforto que lhe tem causado a canonização malandra ensaiada pelo filme “Lula, o filho do Brasil”. Mostrou a quem sabe ler que conhece o presidente muito bem. E não retirou uma só vírgula da gravíssima denúncia que fez.

Passados sete dias e dois textos devastadores, está claro que Lula não vai processar César Benjamin. Sabe que não contou nenhuma piada, como fantasiou o cineasta federal Sílvio Tendler. Sabe que o réu tem coragem e trunfos suficientes para recorrer à figura jurídica da exceção da verdade e provar o que afirmou. Melhor esperar que o país dos desmemoriados esqueça mais essa. A fuga pelo silêncio evita escoriações generalizadas.

Não contem conosco. O Brasil que presta continuará sugerindo a Lula que acione judicialmente César Benjamin. Nós não esqueceremos.

01/12/2009

às 20:33 \ Direto ao Ponto

A piada do presidente e o panetone do governador

Cinco dias depois da publicação do artigo na Folha de S. Paulo, está provado que César Benjamin não mentiu: o cineasta Sílvio Tendler, um dos participantes do encontro ocorrido em 1994, confirmou que Lula efetivamente fez o relato reproduzido no texto. A diferença está na interpretação dos ouvintes. Para Benjamin, Lula revelou um capítulo da vida real ao evocar a  tentativa de subjugar um companheiro de cela. Para Tendler, o narrador estava apenas brincando.

Tendler não contou como reagiu ao que lhe pareceu uma piada. Sorriu? Caiu na gargalhada? Se achou graça, foi o único. Benjamin ficou perplexo. O marqueteiro americano que não falava português nada entendeu. O publicitário Paulo de Tarso, que completava a mesa, não se lembra de ter ouvido conversas sobre cela, assédio ou cadeia. Lula não deu um pio sobre a revelação assombrosa, nem parece interessado em processar Benjamin. É provável que espere a poeira baixar e encampe a versão de Tendler.

Frágil desde sempre, a versão passou a padecer de raquitismo com a constatação de que o “menino do MEP” existe. Identificado na última edição de VEJA, João Batista dos Santos confirmou nesta terça-feira, em entrevista à Folha, que esteve preso junto com Lula. O que achou do artigo de Benjamin? “Um horror”. Alguém tentou subjugá-lo? “Não tenho nada a comentar sobre este assunto”, resumiu o ex-metalúrgico. “Estou convertido em uma religião que não me deixa mentir”. O alvo do assédio não achou divertidos os parágrafos que mencionam o “menino do MEP”.

Tendler garante que só débeis mentais não entendem a piada. Se é assim, está convidado a contá-la num programa de auditório. Apresentadores de TV não perderão a chance de inflar o ibope com a entrada no palco de uma testemunha ocular e auditiva da história. Se alguém na plateia exibir um simulacro de sorriso, o Brasil que presta topa endossar a explicação. Caso contrário, fica estabelecido que a versão da piada é tão verossímil quanto o festival de panetones do governador José Roberto Arruda.

30/11/2009

às 13:15 \ Sanatório Geral

Defesa contra

“O artigo do sr. César Benjamin me causou profunda indignação pela sua leviandade e irresponsabilidade. A inverossímil agressão contra o presidente Lula ofende a ele e à (sic) toda a cidadania, na medida em que ataca o que há de mais precioso em cada ser humano — a sua dignidade”.

José Sarney, vulgo Madre Superiora, testemunha de defesa que compromete qualquer acusado, na Folha de hoje, deixando claro que jamais foi leviano, é muito responsável, acha que a dignidade vale mais que dinheiro e ainda não aprendeu, embora imortal da Academia, o uso da crase.

29/11/2009

às 4:24 \ Direto ao Ponto

Melhor suspender o falatório e combinar o que dizer

O presidente Lula, sempre tão loquaz sobre qualquer tema, especialmente os que ignora, submergiu num silêncio estrepitoso.. “Ele ficou  muito abatido”, alegou o secretário Gilberto Carvalho, que dispensou o jaleco para brincar de médico e expedir o diagnóstico sobre a denúncia feita por César Benjamin: “É coisa de psicopata”.

O publicitário Paulo de Tarso, obrigado a interromper o trabalho assegurado por contas federais, passou a sofrer de memória seletiva. Numa nota tão clara e precisa quanto as declarações de Dilma Rousseff, admitiu lembrar-se da reunião e do tom informal das conversas. Mas não se recorda de ter visto César Benjamin na mesa, nem de ter ouvido o relato espantoso de Lula.

O cineasta sem plateia Sílvio Tendler correu a demonstrar que a memória melhorou com a idade. Acabou provando que Paulo de Tarso é um amnésico de araque. Lembra-se de ter visto Benjamin e escutado o relato do chefe. Mas foi só uma piada, interpretou. Quem não entendeu assim é “debil mental”, decidiu, já prestando serviços de emergência à clínica de Gilberto Carvalho.

Companheiros de prisão de Lula afirmaram que não havia entre eles nenhum “menino do MEP”. Havia, sim, contradisse Enilson Simões de Moura, o Alemão, um dos hóspedes do motel-cadeia do delegado Romeu Tuma. Tanto havia que o menino foi atingido no rosto por uma bola de basquete arremessada por Lula.

Melhor o governo suspender o palavrório, reunir a turma toda, combinar o que dizer, uniformizar detalhadamente o discurso e só então retomar o assunto. Com todos, de preferência, transformados em depoentes na ação judicial que o acusado continua devendo ao país.

O governo sabe que a renúncia ao processo valida automaticamente a gravíssima denúncia.

28/11/2009

às 16:50 \ Sanatório Geral

Debilidade mental

“Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era um marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara. Só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira”.

Silvio Tendler, deixando claro que havia na mesa pelo menos dois débeis mentais: um que conta piadas em português para um americano que só entende inglês e um autor de filmes sem plateia que confirma o relato que o publicitário Paulo de Tarso nega ter existido.

27/11/2009

às 22:49 \ Direto ao Ponto

Alguém cometeu um crime. O país quer saber quem é o criminoso

A biografia do sociólogo César Benjamin proíbe que se tente enquadrá-lo em qualquer dos  figurinos impostos a quem não se submete ao presidente Lula. Não é louro, nem tem olhos azuis. Não é paulista, e portanto jamais será um granfino quatrocentão. E a trajetória desenhada desde a adolescência passou a distâncias cósmicas das paragens onde conspiram, segundo o serviço de desinteligência do PT, reacionários de alta periculosidade a serviço da elite golpista.

César Benjamin filiou-se a um grupo clandestino de extrema-esquerda aos 15 anos, atravessou os dois seguintes metido na luta armada, foi preso aos 17, torturado durante meses e expulso do país aos 22. Voltou do exílio aos 24, ajudou a fundar o PT aos 26 e foi um dos coordenadores das duas primeiras campanhas presidenciais de Lula. Rompeu com o partido em 1995, transferiu-se mais tarde para o PSOL e figurou como candidato a vice-presidente na chapa de Heloísa Helena.

Aos 55 anos, as semelhanças entre o editor da Contraponto e um direitista ortodoxo são tantas quanto as existentes entre a Amazônia e o sertão do Piauí. Mas também há a separá-lo da esquerda governista o fosso que começou a ser escavado em 1994 e aprofundou-se dramaticamente em 2005, quando César revelou, num programa da TV Bandeirantes, que deixara o PT por ter testemunhado a origem (e ter fracassado na tentativa de neutralizá-la) do escândalo do mensalão.

Em 1993, contou, Lula dispensou-se de consultas e conversas para indicar o representante da CUT no Conselho do Fundo de Assistência ao Trabalhador, o FAT. Cabe aos conselheiros decidirem onde, quando e como serão investidos os muitos milhões movimentados mensalmente pela entidade. O chefe resolveu deslocar do semianonimato para o empregão um companheiro goiano que dava aulas de aritmética a crianças do curso primário e lições de greve a marmanjos inexperientes. Chamava-se Delúbio Soares.

Ainda no início da campanha de 1994, César descobriu que Delúbio, com truques e artifícios ilegais, vinha transferindo do FAT para o PT quantias com dígitos suficientes para deixar excitado um banqueiro americano. Confiante na discurseira sobre valores éticos, relatou o que sabia aos mandarins do partido. Terminada a narrativa, espantou-se com a serenidade dos ouvintes. Ficou mais espantado ao ouvir de Lula e José Dirceu que, “em nome do partido”, deveria esquecer o assunto.

Ignorou a recomendação até render-se às evidências de que denunciara um delinquente aos mandantes do crime. Em 1995, despediu-se de Lula com um aperto de mãos e uma advertência: ”Isso aí é o ovo da serpente”.  Era mesmo, soube-se dez anos mais tarde. A trama exposta por César nunca foi desmentida ou retocada pelos acusados. Todos submergiram no silêncio que consente, endossa ou autoriza.

Nesta sexta-feira, num longo artigo publicado na Folha, César Benjamin surpreendeu o país com dois parágrafos extraordinariamente mais explosivos que a grave revelação sobre as primeiras anotações no prontuário de Delúbio. O cenário é uma sala na sede do PT em São Paulo:

Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: “Você esteve preso, não é Cesinha?” “Estive.” “Quanto tempo?” “Alguns anos…”, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: “Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta”.

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o “menino do MEP”, em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do “menino”, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

O artigo merece ser lido na íntegra, mas os dois parágrafos resumem a ópera assombrosa. “Coisa de psicopata”, revidou Gilberto Carvalho, secretário da Presidência. Quem o conhece  não tem motivos para duvidar da sanidade mental do articulista. Mentira!, berraram incontáveis devotos de Lula. O publicitário Paulo de Tarso, numa carta pouco afirmativa, confirmou o encontro, mas avisa, numa linguagem torturada, que não se recorda de ter visto César entre os presentes.

Em 2004, o correspondente do jornal The New York Times, Larry Rohter, quase foi expulso do Brasil por ter registrado que o presidente gosta de beber. Confrontados com as linhas publicadas pela Folha, 99 em 100 leitores previram que César, pela altíssima voltagem do relato, não se livraria de retaliações muito mais severas que as planejadas contra o repórter americano.

Erraram: até agora, Lula não emitiu qualquer sinal de quem pretende ao menos acionar judicialmente o acusador. Para Gilberto Carvalho, fazer isso seria “sujar-se”.  É certo que, com ou sem processo, o autor do artigo está obrigado a provar o que afirmou. Mas ninguém se suja lavando a honra. E não há como varrer para baixo do tapete uma interrogação de tais dimensões. O Brasil ─ e com mais ênfase o Brasil que presta ─ vai exercer o direito de conhecer a verdade.

Sabe-se que houve um crime. Falta saber quem é o criminoso. Se o acusador mentiu, é César. Se não mentiu,  é Lula. Seja quem for o culpado, não pode escapar do castigo.

27/11/2009

às 18:23 \ Sanatório Geral

Chefe refinado

“Não vamos nos sujar por causa disso”.

Gilberto Carvalho, secretário da Presidência, explicando que o chefe não vai processar César Benjamin pela reprodução da conversa em que Lula conta que molestou um companheiro de prisão porque, como todo mundo sabe, o presidente não gosta de coisas vulgares, não entra em baixarias, não trata de assuntos íntimos e, além de sifu, nunca falou palavrão.


 

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