Tarifaço: A corrida de exportadoras contra prazo de 29 de julho
Empresas brasileiras tentam acelerar a entrada de cargas no mercado americano para evitar sobretaxa de 25%
A entrada em vigor do tarifaço dos Estados Unidos provocou uma corrida entre exportadoras brasileiras para tentar evitar a cobrança adicional de 25%. A disputa contra o relógio, porém, não termina quando a mercadoria deixa um porto brasileiro.
Pela regra americana, somente escapam da nova tarifa as cargas colocadas no meio final de transporte antes de 22 de julho e formalmente internalizadas nos Estados Unidos até o dia 29. Isso significa que produtos já embarcados podem ser tarifados caso cheguem depois do prazo ou enfrentem atrasos no desembaraço aduaneiro.
A exigência também coloca em risco mercadorias transportadas com transbordo. Um contêiner que deixou o Brasil antes da entrada em vigor da medida, mas ainda precisa trocar de navio no Panamá, no Caribe ou em outro porto, pode não ser considerado embarcado no trajeto final dentro do prazo exigido pelas autoridades americanas.
Uma estimativa baseada no fluxo recente de comércio mostra a dimensão da corrida. O Brasil exportou US$ 3,47 bilhões aos Estados Unidos em junho. Considerando que aproximadamente 19% das vendas brasileiras ao país foram atingidas pelo tarifaço, cerca de US$ 667 milhões em mercadorias ficam expostos à cobrança em um mês típico.
Em uma janela de sete dias, o volume potencialmente envolvido chega a aproximadamente US$ 156 milhões. Caso toda essa carga fosse submetida à nova tarifa, a cobrança adicional poderia alcançar US$ 39 milhões. O cálculo indica a escala do comércio ameaçado, mas não corresponde a um levantamento de cargas específicas atualmente em trânsito.
O principal problema é logístico. Uma viagem marítima entre Santos e Houston, por exemplo, pode levar cerca de 18 dias, prazo muito superior à janela de uma semana concedida pelos Estados Unidos. Para boa parte das empresas, portanto, antecipar o embarque não foi suficiente para escapar do tarifaço.
Entre os principais produtos brasileiros afetados estão móveis, madeira, máquinas, equipamentos elétricos, calçados, roupas, papel, açúcar, etanol e granito. Muitos desses itens são transportados por navios e vendidos em grandes lotes, o que reduz a possibilidade de trocar o modal marítimo pelo aéreo.
A pressão agora está concentrada nos portos e nas aduanas dos Estados Unidos. Importadores e despachantes tentam acelerar a apresentação de documentos, a descarga e o registro das mercadorias para consumo. Uma inspeção adicional, uma fila para atracação ou uma falha documental pode fazer uma carga ultrapassar o prazo de 29 de julho.
O tarifaço também abriu uma disputa comercial entre exportadores brasileiros e compradores americanos. Os contratos definirão quem arcará com os 25% adicionais. Dependendo das condições de venda, o custo poderá ficar com o importador, ser repassado à empresa brasileira ou provocar a renegociação e até o cancelamento da operação.
Na prática, a regra de transição protege menos mercadorias do que a expressão “cargas em trânsito” sugere. O número decisivo não será quanto o Brasil conseguiu embarcar antes de 22 de julho, mas quanto dessas exportações efetivamente entrou nos Estados Unidos até o dia 29. Tudo o que ficar pelo caminho chegará ao mercado americano já sob o tarifaço.







