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Economia

Crianças agora buscam ‘carreira’ de youtuber

Com menos de 12 anos, jovens acumulam milhões de seguidores jogando videogame e abrindo brinquedos em frente às câmeras

por Leticia Fuentes
30 mar 2018
08h00

O Brasil é o segundo maior consumidor de vídeos do Youtube, segundo pesquisa coordenada pelo Media Lab da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Um dos principais públicos da plataforma de vídeo é o infantil. Dos 100 canais mais vistos no Brasil, 36 deles têm conteúdo direcionado ou consumido por crianças de zero a 12 anos, totalizando mais de 17 bilhões de visualizações. Isso explica o sucesso do YouTube Kids, voltado para a faixa de dois a oito anos, que possui mais de 11 milhões de usuários ativos semanalmente.

Nesse cenário, graças ao constante contato com a tecnologia por parte dos pequenos, um fenômeno diferente começou a acontecer nos últimos cinco ou seis anos. As crianças saíram da posição de espectadoras para apresentar seus próprios canais, dando origem a uma nova onda de ídolos digitais: os youtubers mirins. Hoje, esses jovens – alguns com apenas três anos de idade – acumulam milhões de seguidores e ganham dinheiro por meio do canal na plataforma, no qual compartilham sua rotina e exibem brinquedos novos para outras crianças.

As irmãs Eloah, de 11 anos, e Ester, de seis anos, são dois sucessos dessa nova geração de youtubers. Cada uma possui seu próprio canal  a mais velha somando mais de um milhão de inscritos e, a mais nova, mais de 250.000. A fama foi tanta que a família (composta pelas meninas, a mãe Eliane Rocha, o pai Giltone Rocha e o irmãozinho Silas) teve de se mudar de Brasília para São Jose dos Campos, no estado de São Paulo, para acompanhar os eventos para os quais as pequenas eram convidadas. O casal tem uma empresa de venda de cartuchos e impressoras, que ainda representa a principal renda da família.

As irmãs youtubers Ester, 6 anos, e Eloah, 11 anos, junto com o irmão mais novo Silas, de 4 anos, que ingressou no youtube a pouco tempo, e os pais Eliane e Giltone Rocha
As irmãs youtubers Ester, 6 anos, e Eloah, 11 anos, junto com o irmão mais novo Silas, de 4 anos, que ingressou no youtube a pouco tempo, e os pais Eliane e Giltone Rocha Arthur Moreira/Divulgação

Segundo Eliane, Eloah começou a gravar quando tinha apenas oito anos. A mãe tinha um canal próprio no YouTube, no qual publicava apenas vídeos para os familiares. Um dia, a filha pediu uma boneca de presente e ela decidiu gravar o momento em que entregava a surpresa. As imagens repercutiram surpreendentemente e a postagem recebeu vários comentários.

Depois disso, a própria Eloah, que já acompanhava canais de youtubers mirins, pediu para gravar outros vídeos abrindo embalagens de brinquedos novos e brincando com a irmã. Ester, que na época tinha três anos, entrou na onda e pediu também para começar seu próprio canal. Agora, até o pequeno Silas, de quatro anos, tem seu perfil na plataforma para mostrar suas coleções de máquinas, tratores e carrinhos de brinquedo.

“É impossível evitar que as crianças usem esse tipo de tecnologia”, opina o pai, Giltone. “E justamente por isso, acho que falta educação para os pais sobre como lidar com essas situações. Deveria existir mais diálogo, não proibição.”

Eliane complementa, ainda, que sempre se preocupa em colocar conteúdos educativos no canal e respeita a vontade das meninas de gravar. “Elas gravam quando querem. Tem dias em que elas não sentem vontade e, por mais que os fãs cobrem, tenho de respeitar. Se amanhã me disserem que querem parar [com o canal], elas podem. É uma fama e, às vezes, é passageira, então sempre as incentivo a estudar e pensar outras opções [de profissão] também.”

Ester confessa que tem o sonho de ser cantora, bailarina ou veterinária. Já Eloah não tem certeza do que deseja fazer no futuro, mas afirma que gosta muito de redação e se imagina como uma cientista. “Quero trabalhar em um laboratório”, diz.

Profissão do futuro

Para muitos adultos que trabalham com o YouTube, no entanto, o canal já se tornou a principal fonte de renda. Dados do Fórum Econômico Mundial estimam que 65% das crianças de hoje vão trabalhar em profissões que ainda não existem. Por isso, especialistas já questionam se, daqui a alguns anos, ser youtuber pode se tornar também uma profissão, assim como ator, jornalista, apresentador ou empresário.

O advogado Luiz Kignel, especialista em Direito da Família da PLKC Advogados, acredita que a regulamentação dessa “nova profissão” não deve demorar a acontecer. Se, de fato, a ocupação for considerada uma forma de trabalho no futuro, ela deverá ser submetida a um conjunto de regras assim como qualquer outra – inclusive para os menores de idade que desejem atuar na área.

As youtubers Ester, 6 anos, e sua irmã Eloah, 11 anos
As youtubers Ester, 6 anos, e sua irmã Eloah, 11 anos Arthur Moreira/Divulgação

“Pelo artigo 60 do ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] qualquer forma de trabalho antes dos 14 anos de idade é completamente proibida – e, até os 18 anos, só será permitida na condição de aprendiz”, explica. A função de youtuber só não se enquadra, ainda, nessas regras, porque é algo que surgiu há poucos anos, diz o especialista. Se regulamentada, provavelmente, será muito parecida com o que acontece hoje com os atores mirins. Nesse caso, as crianças podem trabalhar, desde que tenham a autorização dos pais, uma carga horária máxima para as gravações e a garantia de que o trabalho não atrapalhará os estudos. “O ECA protege esses menores contra situações vexatórias e condena o impacto psicológico causado pela exposição excessiva”, diz Kignel.

Porém, ainda que uma regulamentação dessas atividades para além do ECA e das próprias regras do YouTube não tenha sido estabelecida (a plataforma requer que os usuários tenham mais de 13 anos para administrar o próprio canal – antes disso, a conta deve ficar no nome dos responsáveis), muitos já enxergam a área como um nicho de investimento promissor e oferecem cursos para capacitar esses jovens.

Escola de youtubers

A Happy Code, uma escola de programação para crianças com 102 unidades espalhadas pelo Brasil, é um exemplo. Ela fundou um “curso de youtuber” voltado para jovens de 8 a 14 anos há aproximadamente dois anos. No início, as aulas eram ministradas apenas em junho e julho, como um curso de férias – mas, devido à grande demanda, decidiram expandir para módulos de 6 meses com 18 aulas por semana de 1h30 cada. Agora, contam com mais de 1.500 alunos formados apenas nesse curso.

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“As crianças aprendem desde a concepção da ideia do canal até noções de direitos autorais, roteirização, criação de vinheta e edição de vídeo”, explica Walter Fernandes, diretor comercial da Happy Code. Ele diz que, ao ingressar no curso, as crianças são encorajadas a criar um canal no YouTube (se já não tiverem) e ir postando os vídeos que são produzidos em sala de aula, para que os professores possam ajudá-los a acompanhar as métricas e melhorar o desempenho.

“Mas nosso objetivo não é rentabilizar o canal, e sim dar as ferramentas para que eles possam falar do que quiserem no canal, das coisas que eles realmente gostam.” Ainda assim, Fernandes diz que não deixa de ser uma forma de estimular o empreendedorismo entre os pequenos.

Walter Fernandes, diretor comercial da Happy code – 27/02/2018
Walter Fernandes, diretor comercial da Happy code – 27/02/2018 Gustavo Luizon/VEJA.com

Erick, de 11 anos, acaba de entrar no curso de youtuber para melhorar o canal sobre games que possui há dois anos. Confessa que deixou o perfil um pouco abandonado no último ano, especialmente porque tinha vergonha de postar os vídeos. Mas, agora que voltou a gravar, espera conquistar milhões de seguidores na plataforma. A mãe, Márcia Laboissiere, que é nutricionista, diz que apoia o filho e acompanha cada passo dele. “Decidi procurar [o curso] porque acho melhor ter alguém que ensine ele a fazer do jeito certo, com o que pode ou não pode ser dito, como respeitar os direitos autorais na hora de utilizar músicas e imagens, todas essas coisas.”

O mesmo vale para a advogada Ana Maria Bezerra, mãe de Nicholas, de 9 anos, e Christopher, de 6 anos. Ela conta que, um dia, encontrou um vídeo dos filhos fingindo ser youtubers de sucesso no seu celular e ficou surpresa com a brincadeiras. “Não fazia ideia de que eles tinham gravado. Brincavam disso do mesmo jeito que a gente brincava de professora quando criança”, diz. Depois disso, a mãe decidiu criar um canal para Christopher falar sobre games com o irmão. Ana diz que incentiva os filhos, mas procura acompanhar sempre o que andam fazendo na internet.

A mensalidade desse tipo de curso varia de 200 a 400 reais, dependendo da escola. Em São Paulo, outras duas instituições que oferecem cursos para capacitar jovens youtubers são a SuperGeeks e a ComSchool. A primeira trabalha com crianças de 9 a 16 anos e tem como foco ensinar os pequenos a editar de vídeos e produzir roteiros. Segundo o gerente, Fábio Bezerra, o curso tem duração de dois meses e cada turma tem 12 alunos.

Já a segunda não tem limite de idade para os participantes, desde que eles tenham autorização dos pais. Por ser uma escola de empreendedorismo digital, o foco, neste caso, está nas métricas do canal – mas também ensina a parte de produção e edição de vídeo. “Tentamos adaptar o conteúdo aos nossos alunos mais novos”, diz o professor Maurici Junior, que ministra o curso. Ao todo, são quatro dias de curso, que podem ser acompanhados presencialmente ou online, e cada turma tem 20 alunos.

Em Curitiba, onde o mercado está em ascensão, a Gamescola, que nasceu como uma escola de desenvolvimento de jogos, também decidiu incluir o curso de youtuber na sua lista. As aulas são voltadas para produção audiovisual. Segundo o presidente, André Leandro, a escola aceita crianças a partir de 10 anos e conta com quatro turmas de dez alunos, que desenvolvem as aulas durante um ano e três meses. “Os jovens estão assistindo cada vez menos televisão e passando mais tempo na internet. Isso faz com que eles tenham vontade de produzir o próprio conteúdo”, diz Leandro. “Para isso, ensinamos a eles não só técnicas de produção de vídeo e melhora de áudio, mas também trabalhamos a timidez.”

Preocupações

Ainda que muitas crianças sonhem em conquistar a fama por meio do YouTube, especialistas alertam que é preciso ficar atento para que isso não prejudique o desenvolvimento dos pequenos. Segundo o psicólogo e pesquisador Cristian Nabuco, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, estudos em animais indicam que a exposição leva ao desenvolvimento de uma consciência social precoce. Na prática, isso significa que a fama pode forçar as crianças a amadurecer mais rápido, além de tornar o ambiente mais propício para a sexualização e a exposição a conteúdos violentos.

“Quando se está na internet, não há punição imediata para os atos. Não é como quando os pais dão bronca quando veem a criança fazendo algo de errado para ela entender que aquilo não está certo. Então parece que tudo é permitido, porque demora para a criança perceber as consequências”, explica Nabuco. “Por isso, é importante que os adultos criem mecanismos de conscientização, mantendo diálogo com os filhos e permitindo que eles utilizem os dispositivos apenas em locais públicos.” Além disso, segundo os especialistas, é preciso que os pais tenham bom-senso para lidar com a fama das crianças e, principalmente, supervisionem elas a todo o momento.

Outra preocupação é em relação à publicidade infantil. O Instituto Alana, uma ONG de proteção da infância, denunciou ao Ministério Público mais de 20 empresas nos últimos três anos, afirmando que elas se aproveitam da fama dos pequenos youtubers para promover ações de marketing voltadas diretamente a crianças menores de 12 anos – algo que, por lei, é proibido. Qualquer anúncio de produtos ou serviços para os pequenos deve ser direcionado aos pais, independentemente da plataforma em que é veiculado. Ainda assim, a advogada do Instituto, Ekaterine Karageorgiadis, explica que, nos canais infantis do YouTube, isso não acontece.

Não só as empresas conseguem dialogar diretamente com as crianças, como também utilizam outras crianças para fazer isso. “A publicidade infantil é considerada abusiva”, afirma. Segundo ela, as empresas se aproveitam da inocência e da falta de discernimento dos pequenos para estimular o consumismo na infância. A maioria das propagandas é feita por meio de vídeos de unboxing, que consiste em gravar a criança abrindo um produto novo e mostrando aos expectadores o que tem dentro.

A política de anúncios do YouTube, no entanto, estabelece que qualquer vídeo patrocinado ou com publicidade deve ser informados à empresa, que pré-aprova todas as propagandas veiculadas na plataforma. Sobre o conteúdo ao qual os jovens são expostos, o YouTube diz, ainda, que os pais podem aplicar filtros de acordo com o que querem ou não que os filhos tenham acesso na plataforma, utilizando o YouTube Kids.

“É importante incentivar os jovens a ter uma voz ativa no processo de criar um ambiente positivo na internet. É por isso que acreditamos que programas educativos são tão essenciais para que os jovens não reproduzam comportamentos negativos online”, afirma Clarissa Orberg, gerente de parcerias de conteúdo infantil e educacional do YouTube. “Nesse sentido, é importante que os jovens e todos os usuários da internet aprendam a denunciar conteúdos que são impróprios.”

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