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Por que o tombo da Nike pode ser uma boa notícia – mas também má – para o Brasil?

Tarifas sobre calçados asiáticos podem abrir espaço para o Brasil no mercado americano, mas também aumentar a concorrência desleal no varejo nacional

Por Luana Zanobia Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 abr 2025, 15h23

A decisão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de intensificar sua guerra comercial contra a China e seus vizinhos desencadeou perdas bilionárias para empresas americanas. A Nike, um dos maiores nomes do setor esportivo, vê suas ações despencarem 15%, reduzindo seu valor de mercado em US$ 13 bilhões após o anúncio do pacote tarifário do republicano. O motivo? A gigante concentra um de seus principais centros de produção no Vietnã. A unidade é responsável por cerca de metade dos calçados vendidos nos Estados Unidos.

A nova configuração tarifária impõe alíquotas pesadas sobre calçados chineses, vietnamitas e indonésios — 51,3%, 63,3% e 49,3%, respectivamente — atingindo países asiáticos onde marcas americanas concentraram sua produção ao longo das últimas décadas. Todos esses países abrigam grandes fábricas da Nike e de outras marcas americanas de artigos esportivos, atraídas pelo menor custo de mão de obra e insumos. O impacto do tarifaço não se limita à Nike: as ações da Adidas e da Puma também recuam, acumulando perdas de 11%.

O aumento das tarifas força uma reavaliação da estrutura global de manufatura e pode abrir espaço para novos fornecedores. É aí que o Brasil entra na equação: as tarifas sobre os calçados nacionais subiram de 17,3% para 27,3%, se mantendo competitivo no mercado americano. Para a indústria calçadista brasileira, que há anos busca expandir sua presença nos EUA, esse movimento pode representar uma oportunidade de elevar sua participação. “Atualmente, o Brasil responde por apenas 0,5% das importações de calçados nos Estados Unidos, mas esse cenário pode mudar com a nova política tarifária”, afirma Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados. Os dados do primeiro bimestre de 2025 já sinalizam essa tendência: as exportações brasileiras para o mercado americano atingiram 1,93 milhão de pares, totalizando US$ 37,17 milhões — um avanço de 0,6% em volume.

Entretanto, as tarifas aos gigantes asiáticos também podem ter consequências negativas para a indústria nacional. “Além da medida diminuir o consumo naquele país (asiáticos), também deve fazer com que eles busquem alternativas para desovar sua produção. E, entre essas alternativas, certamente teremos o próprio mercado brasileiro e países para onde exportamos nossos calçados”, diz Ferreira. O Brasil, que já importa mais de 80% de seus calçados da China, do Vietnã e da Indonésia, pode se tornar um dos alvos preferenciais. Nos primeiros dois meses de 2025, as importações vindas desses países já apresentaram crescimento: 24,2% no caso do Vietnã e 47,2% para a Indonésia.

A Abicalçados alerta que, para que o Brasil realmente se beneficie dessa nova dinâmica do comércio global, é essencial que o governo implemente mecanismos antidumping contra Vietnã e Indonésia, evitando que o excesso de produção desses países, agora barrado nos Estados Unidos, seja redirecionado para o mercado brasileiro a preços artificialmente baixos. “Será fundamental uma resposta rápida para impedir a concorrência desleal”, reforça a associação.

Caso contrário, o que inicialmente parecia uma vantagem — uma tarifa mais branda no mercado americano em comparação aos concorrentes asiáticos — pode se transformar em um problema. Sem medidas de proteção, o Brasil corre o risco de ser inundado por calçados estrangeiros de baixo custo, minando a competitividade da indústria nacional. O país, que vê na guerra comercial uma oportunidade de expansão, pode acabar experimentando os mesmos efeitos colaterais do remédio que os EUA tentam administrar: conter a invasão de produtos asiáticos.

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