Os planos de empresas para promover a saúde mental entre os funcionários
Estresse trazido pela nova realidade do trabalho aumentou o foco das companhias no tema
Em 1869, o neurologista americano George Beard observou que seus conterrâneos estavam exaustos. Trens a vapor corriam rápido demais, jornais despejavam notícias diariamente e o telégrafo espalhava informações urgentes mundo afora. Com os nervos esgotados, todo o corpo sentia. As noites eram maldormidas, dores de cabeça se tornavam comuns e, como efeito direto desse processo, as pessoas demonstravam insatisfação generalizada com o trabalho. Beard chamou isso de neurastenia. Em 1974, um século depois, o psicólogo, também americano, Herbert Freudenberger rebatizou a síndrome como burnout e ligou o termo ao trabalho. Desde então, milhões de pessoas de todas as partes do mundo são acometidas pelo problema — que, registre-se, não para de crescer diante dos desafios da vida corporativa contemporânea.
Uma pesquisa recente realizada pela Gattaz Health & Results (GHR), consultoria especializada em desenvolver soluções para a saúde mental e o bem-estar no ambiente de trabalho, mostrou que o burnout é uma realidade onipresente nas empresas. Segundo o médico Wagner Gattaz, fundador da GHR, cerca de 20% dos profissionais consultados na pesquisa sofrem do transtorno. Outro estudo, este feito pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho, apontou que aproximadamente 30% dos trabalhadores brasileiros enfrentam crises desse tipo. Apesar de detectado no ambiente corporativo há muito tempo, o burnout despertou maior preocupação após a pandemia de covid-19. Desde então, a proliferação de casos de afastamentos por transtornos mentais é uma realidade nas estatísticas do Ministério da Previdência. Em 2023, foram 288 000, um avanço de 38% sobre 2022.
O crescimento do número de casos obrigou o governo a se mobilizar. Em março, uma lei sancionada pelo presidente Lula criou uma certificação para empresas que promovem a saúde mental dos funcionários. “Com o certificado, todo mundo ganha”, diz a deputada Maria Arraes (Solidariedade-PE), autora do projeto. “A empresa e o governo param de gastar com o afastamento do trabalho, e o funcionário fica protegido.” Os requisitos para o certificado incluem a oferta de apoio psicológico e psiquiátrico, capacitação de lideranças para lidar com o tema, combate à discriminação e ao assédio e a promoção de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A expectativa é de que a regulamentação saia até o final do ano.
Com duas décadas de serviços prestados à americana Johnson & Johnson, uma das maiores empresas de saúde do mundo, a gerente de tributos Marcela Andrade consulta-se com um psicólogo indicado pela companhia uma vez por semana. A terapia faz parte do Programa de Apoio ao Empregado, criado pela J&J para oferecer amparo psicológico aos seus empregados. O programa inclui assistência 24 horas, serviço que é fundamental nos casos em que um funcionário enfrenta situação considerada crítica. “Esta é uma empresa que se preocupa com o bem-estar físico e mental dos funcionários”, diz Marcela, que também participa de programas de corrida promovidos por lá. Líder em saúde e bem-estar da própria J&J, a médica Gisela Figueiredo argumenta que a estratégia faz parte da cultura global da multinacional. Em 2023, 15 000 funcionários no mundo completaram o treinamento de bem-estar, refletindo o peso dado ao tema.
Gisela ressalta que programas bem-sucedidos de saúde mental devem incluir ferramentas e métricas que avaliem a participação e o engajamento dos funcionários em iniciativas como terapias e workshops. Além disso, pesquisas de clima ajudam a entender a percepção sobre o apoio da empresa e a participação em campanhas de conscientização. “Temos observado resultados muito significativos”, afirma a médica. “Um dos exemplos é a taxa de 88% de concordância dos funcionários com a afirmação de que a J&J apoia a saúde e o bem-estar dos colaboradores.” Entre as unidades da América Latina, os cerca de 4 000 funcionários do Brasil se destacam no uso do reembolso financeiro de 2 050 reais anuais para a compra de itens de exercício físico, nutrição ou serviços de bem-estar emocional.
Um dos pontos centrais para a efetividade dos programas de saúde mental é o treinamento das lideranças. Na linha de frente da relação com o funcionário, os gestores têm peso enorme na satisfação no trabalho. Um relatório da americana UKG, empresa que desenvolve sistemas de tecnologia para as áreas de recursos humanos, indica que o papel do chefe no ambiente de trabalho tem um impacto expressivo (de 69%) na saúde mental dos empregados, uma taxa de influência semelhante à de um parceiro em uma relação pessoal. “O maior desafio é preparar as lideranças para lidar adequadamente com o tema da saúde mental, sem estigmas ou velhos preconceitos”, afirma Andrea Ziravello, gerente-geral no Brasil da Thomson Reuters, empresa global de conteúdo e tecnologia.
Assim como na J&J, a saúde mental está na agenda da alta liderança da Thomson Reuters. “Nós fomentamos diálogos, com exemplos de vulnerabilidade de executivos, e preparamos líderes para acolher pessoas com esse tipo de problema”, diz Andrea. Em setembro de 2020, por iniciativa do presidente global, Steve Hasker, foi criado o Dia da Saúde Mental. A cada semestre, funcionários têm folga para cuidar de questões emocionais. No segundo semestre, o feriado é perto de 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental. “Outubro é dedicado à questão, com palestras e treinamentos”, acrescenta Andrea. A empresa também dá apoio psicológico e jurídico em caso de necessidade e faz parcerias para oferecer sessões periódicas de terapia para o time.
A saúde mental está, de fato, na lista de preocupações de empresas de diversos setores. A cervejaria Heineken oferece há um bom tempo apoio psicológico aos funcionários, mas a agenda ganhou força na gestão do presidente da empresa, Mauricio Giamellaro, que em 2021 propôs ao RH um estudo sobre felicidade corporativa. No ano seguinte, a companhia começou a pesquisar, duas vezes por mês, os índices de felicidade dos 14 000 funcionários, o que resultou na criação de uma diretoria voltada para o tema, algo único entre todas as unidades da cervejaria holandesa no mundo.
No cargo há um ano e meio, Lívia Azevedo diz que a adesão às pesquisas sobre felicidade é surpreendente. “Fazer um levantamento quinzenal voluntário com 14 000 colaboradores é um grande desafio”, diz a executiva. “Conquistamos 80% de participação em dezembro de 2023 e mantivemos esse nível até agora.” Na Heineken, aponta ela, os líderes são estimulados a conversar com a equipe a partir dos resultados apurados. “Não sou eu que trago felicidade, é a liderança”, diz Lívia. Com ações que vão de workshops a capacitações sobre como lidar com o estresse, a Heineken vem mantendo um nível de felicidade entre os funcionários de 8,5, numa escala que vai de 0 a 10. “Cria-se um ambiente em que as pessoas sentem que podem ser ouvidas”, diz a diretora de felicidade. Na era moderna do trabalho, a saúde mental é, de fato, um bem inestimável.
Publicado em VEJA, setembro de 2024, edição VEJA Negócios nº 6

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