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O produto é você

Um café nos Estados Unidos oferece bebidas e internet em troca dos dados pessoais dos clientes — e levanta discussão sobre o valor da informação digital

Os estudantes da Universidade Brown, nos Estados Unidos, demoraram a acreditar. Bem próximo ao câmpus, foi aberto um café repleto de mesas de estudo e poltronas confortáveis, com wi-fi de ótima qualidade, tomadas à vontade para carregar celulares e computadores e distribuição de café, chá e sucos de graça. De graça para os alunos, que fique claro. Para terem acesso ao Shiru Café e suas comodidades, os jovens devem fazer um cadastro e consentir em dividir seus dados pessoais com a empresa, que, por sua vez, os negocia com anunciantes que queiram fazer propaganda direcionada aos clientes, de acordo com seus interesses e hábitos, nos telões e copos da lanchonete. A cereja do bolo: o café divide esses dados com recrutadores e departamentos de RH de empresas interessadas em contratar estagiários e recém-formados da prestigiosa universidade. Nissan, Basf e o banco J.P. Morgan usam o serviço.

O negócio fez tanto sucesso que 75% dos alunos da Brown frequentam o café, e outras unidades já estão em construção nas universidades Yale, Princeton, Harvard e Amherst. “Eu dou um monte de informações a sites na internet que não me oferecem nada em troca. O Shiru é transparente e ainda pode me render um emprego”, diz Jacqueline Goldman, estudante de saúde pública na Brown.

A ideia de disponibilizar serviços grátis em troca de dados pessoais não tem nada de novo. Na verdade, é o modelo de negócios de gigantes da tecnologia como Facebook e Google: o usuário tem acesso à rede social e à ferramenta de busca sem pagar nada, e as empresas lucram bilhões de dólares vendendo anúncios personalizados baseados no rastro de dados pessoais que cada um deixa em seus sites. Já virou até ditado no Vale do Silício, adaptado de uma conhecida máxima das mesas de pôquer: “Se você não paga pelo produto, o produto é você”.

O Shiru Café, fundado no Japão em 2013, já tinha vinte lojas em seu país de origem e na Índia antes de entrar nos Estados Unidos. Sua criação aponta para o futuro da economia digital ao escancarar o valor que o rastro de informações pessoais pode ter. Cada vez mais gente ao redor do mundo enxerga os dados pessoais como uma matéria-prima fundamental das empresas de tecnologia — tão importante quanto os algoritmos que processam toda a informação. “Uma usina siderúrgica precisa de ferro e carvão para fazer e vender o aço, e paga muito bem por eles. Por que as empresas de tecnologia não pagam por nossas informações, se sem elas seus algoritmos são inúteis?”, questiona Glen Weyl, pesquisador-chefe da Microsoft Research e autor do livro Radical Markets.

As implicações dessa ideia são bem maiores do que pode parecer. Há quase um consenso de que a evolução da tecnologia em geral, e mais especificamente a inteligência artificial, vai causar desemprego em massa ao substituir a mão de obra humana em muitas funções. Nesse processo, o fornecimento de dados por parte dos usuários de serviços digitais exerce um papel importante. As máquinas aprendem comportamentos, gostos e preferências individuais, e novos produtos e serviços são desenhados com base nisso. No modelo atual, as empresas que coletam os dados pessoais (quase todas no mundo digital) são donas dessas informações — e nada pagam por isso. Weyl defende a ideia de que os dados deveriam ser propriedade de cada um e que se faça o que bem entender com eles: dar de graça ao Google e Facebook em troca de seus serviços, guardar para si em nome da privacidade, ou ainda vender a quem oferecer o melhor preço. Diz Weyl: “A rede de supermercados Walmart gasta 40% de suas receitas em salários. O Facebook gasta 1%, porque o resto do trabalho nós lhe damos de graça”.

A ideia é interessante, mas de difícil execução. A chanceler alemã Angela Merkel anunciou que pretende criar um imposto sobre os dados, sob o argumento de que são maté­ria-prima digital. Mas até agora não se sabe como será feita essa cobrança. E o imposto iria para o Estado, não diretamente para o bolso das pessoas. Atualmente, já existem algumas startups tentando a mediação entre usuários e grandes empresas. Killi, DataCoup, Digi.Me e DataWallet constituem bons exemplos, mas ainda não são tecnicamente sofisticadas e não têm um amparo jurídico claro. O físico britânico Tim Berners-Lee, considerado o pai da web por ter criado o www (sistema de distribuição e conexão de informação em hipertexto), criou o protocolo Solid, em que os dados dos internautas ficam armazenados em seus próprios computadores ou smartphones, e só podem ser acessados com autorização expressa. Mas sem a adoção dessa tecnologia pelas empresas, que não têm nenhum interesse em fazê-lo, o esforço é inútil.

Para quem espera ganhar dinheiro com seus dados, no entanto, há esperança. Com a sofisticação da tecnologia e da inteligência artificial, as empresas vão precisar de informações de melhor qualidade do que as que conseguem hoje. Na verdade, isso já vem acontecendo: a Mighty AI, uma startup americana, paga a milhares de freelancers ao redor do mundo para que eles classifiquem imagens de ruas. O objetivo é treinar um algoritmo que desenvolve softwares para carros autônomos. O que essas pessoas estão fazendo é, simplesmente, fornecer dados de altíssima qualidade. É o mesmo que fazem os estudantes na universidade de Brown quando entram no Shiru Café, onde tudo parece de graça, mas, como se diz no Vale do Silício, o comércio ali se resume no seguinte: “O produto é você”.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606