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CVM investiga se investidor usou avó para operar no mercado

Órgão de fiscalização do mercado diz que ex-funcionário de banco fez operações complexas usando informação privilegiada em nome de uma senhora

Por Da redação
Atualizado em 11 mar 2021, 15h50 - Publicado em 3 ago 2017, 17h30

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu uma investigação inusitada envolvendo o então funcionário do Credit Suisse Securities (USA) Luiz Mori e sua avó nonagenária, a senhora Mituco Haga. O inquérito da xerife do mercado de capitais investigou indícios de uso de uma conta de Mituco pelo neto em operações de “front running”.

A prática acontece quando um intermediário de mercado usa informações sobre uma ordem em bloco, capaz de influenciar o preço de um ativo, em proveito próprio. A CVM rejeitou proposta de acordo e vai levar à frente uma acusação de suposta prática não equitativa no mercado.

A suspeita surgiu da BM&FBovespa Supervisão de Mercados (BSM), que constatou operações atípicas de day trade realizadas de forma sistemática pela investidora. Os negócios foram realizados na bolsa por intermédio da XP Investimentos e da Itaú CV S.A., em especial de junho de 2012 a fevereiro de 2013. Segundo o inquérito, Mori se valia do conhecimento prévio sobre operações realizadas por clientes do Credit Suisse Brasil e do Deutsche Bank para se antecipar a elas e ganhar na outra ponta.

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Entre as evidências de irregularidades apontadas pela CVM está o perfil incompatível de Mituco com o grau de sofisticação das operações. As investigações mostram que ela iniciou suas operações na bolsa de valores aos 92 anos, idade bastante atípica, considerando o tipo de operação realizada (day trade), a diversidade de ativos operados, que incluem várias small-caps com baixa liquidez e a frequência das operações.

Essas foram realizadas por meio de serviços de homebroker ou mobile (smartphones ou tablets). O órgão regulador destaca que isso demandaria um conhecimento de tecnologia incomum às pessoas dessa faixa etária.

A CVM rastreou o envio de ordens por aplicativos, portal e homebroker das corretoras a partir de dispositivos móveis localizados nos Estados Unidos, onde Mori residia. Também foram levados em conta na acusação a elevada taxa de sucesso das operações. A principiante Mituco teve lucro em 311 das 432 operações day trade realizadas, um ganho de 450.700 reais. A probabilidade de sucesso nesse nível é de uma em 87 quintilhões, diz a acusação.

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A improvável concentração de ordens tendo como contrapartes clientes do Deutsche e do Credit Suisse também foi considerada um indício, assim como a proximidade de horários de inserções das ordens de ambos e da avó de Mori.

O inquérito aponta que Mori teve ajuda de Bruno Guisard, responsável por 28% do volume negociado pelo fundo Deutsche Bank AG London por meio da corretora do banco e pelo envio de ordens do Deutsche London nas operações em que Mituco Haga foi contraparte, com 67% da quantidade de ações negociada.

Além da conta dela, ele usou também as contas de Rafael Spinardi e da sua empresa Catarsis na Um Investimentos. Segundo a CVM, os dois teriam sido coniventes com o esquema em troca de vantagens financeiras. O lucro total do esquema de junho de 2012 a abril de 2014 foi de 1,84 milhão de reais.

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A CVM analisou a ligação entre Mori, Spinardi e a Catarsis, cujas operações foram encerradas no mesmo mês em que Mori voltou ao Brasil. As operações feitas pelas contas desses clientes seguiram o mesmo padrão das realizadas por Mituco. Em sua investigação, a CVM cruzou dados bancários que revelaram a transferência de recursos e depósitos realizados por Spinardi na conta de Mori, de sua avó, de seu pai e de outros funcionários do grupo Credit Suisse, quitando possíveis débitos de Mori.

Até mesmo o pagamento de fatura de cartão de crédito de Luiz Mori foi identificado. A Catarsis era utilizada para movimentar o dinheiro entre as contas de Spinardi, da Um e de terceiros.

Na tentativa de negociação com a CVM, Mori propôs pagar 100.000 reais e deixar de atuar no mercado por cinco anos. Já Guisard tentou encerrar o processo pagando 80.000 reais, e Spinardi e Catarsis se comprometiam a não atuar, direta ou indiretamente, na negociação ou na intermediação de operações, por um período de cinco anos e pagar à CVM, em conjunto, o montante total de 150.000 reais. A CVM rejeitou o acordo, que encerraria o caso sem julgamento e assunção de culpa.

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Após negociações com o Comitê de Termo de Compromisso, Bruno Guisard apresentou nova proposta, majorando o valor da proposta de acordo para 130.000 reais. Mori, por sua vez, elevou a proposta a 500.000 reais e afastamento do mercado por uma década. O colegiado da CVM, acompanhando o entendimento do Comitê, decidiu, por unanimidade, rejeitar as propostas apresentadas levando em conta a gravidade das acusações.

As informações foram divulgadas nesta quinta-feira, 3, pela autarquia em seu site. O diretor Pablo Renteria foi sorteado como relator do processo sancionador 03/2015, que deverá ir a julgamento.

Defesas

A defesa de Mori afirmou no processo que o termo de acusação não foi capaz de comprovar a existência de irregularidades concretas contra seu cliente, nem que o mesmo operou em nome da avó ou que teve acesso a informações privilegiadas.

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Os advogados de Guisard refutam a existência de prática não equitativa que tenha colocado outros clientes em desvantagem, já que as operações foram postas contra o mercado e estavam sujeitas a interferências de outros participantes. Além disso, diz que não foi comprovado dolo, essencial para configurar o ilícito.

De acordo com a defesa, Guisard era responsável pela maioria das ordens do Deutsche London para o Brasil, a partir dos EUA, o que inclui as de Mituco Haga.

Os advogados de Bruno Guisard destacam que ele e Mori moraram no mesmo prédio em Nova York, mas que isso não os torna próximos.

Já Spinardi explica que conheceu o ex-marido da mãe de Mori, filha de Mituco, em uma padaria. Foi ele quem os apresentou, para que Spinardi investisse a herança do marido de Mituco no mercado. Foi assim que ele passou a movimentar o dinheiro dela por meio de contas na XP e Itaú. Segundo o documento, ele apenas cumpria ordens.

Procurado pela reportagem de VEJA, o Credit Suisse disse, por meio de sua assessoria, que não comentaria o caso porque o acusado não tem mais ligação com a empresa. O Deutsche Bank afirmou que também não vai se pronunciar.

Segundo fontes do setor, Mori nunca foi colaborador do Deutsche Bank.

(Com Estadão Conteúdo)

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