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Incerteza doméstica e crise hídrica levam a inflação alta, e não lockdown

Na ONU, Bolsonaro creditou o fechamento de atividades a alta dos preços; em 12 meses, IPCA chega a 9,68%

Por Larissa Quintino Atualizado em 21 set 2021, 12h30 - Publicado em 21 set 2021, 11h42

A inflação oficial do Brasil, IPCA, bateu 9,68% em 12 meses terminados em agosto. A  desvalorização do real — que afeta o preço de commodities em dólar, como combustíveis e dos alimentos — aliados à crise hídrica são responsáveis pela pressão dos preços e o aperto no orçamento das famílias. No discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a culpa da inflação alta é da política de lockdown, imposta por governadores e prefeitos no combate à pandemia do novo coronavírus.

“O lockdown foi um freio na inflação de 2020”, afirma André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).  Com o fechamento de atividades de serviço, por exemplo, não era nem possível medir a variação de preços, já que não havia atividade em si.  Vale lembrar que nos meses em que as medidas restritivas foram mais duras no Brasil, o IPCA registrou deflação. Em abril e maio do ano passado, o índice de preços marcou -0,31 e -0,38%, respectivamente, grande parte devido a queda do valor do petróleo no mercado mundial, por causa do menor deslocamento. Em abril deste ano, em que as medidas de distanciamento social foram novamente endurecidas devido à segunda onda de Covid-19, o IPCA registrou 0,31%, a segunda menor alta do ano, atrás apenas de janeiro.

Braz explica que o aumento da incerteza na economia brasileira leva à desvalorização cambial e tem um grande efeito na inflação.  “O câmbio influencia de duas maneiras: torna os produtos que a gente importa mais caros e transforma o Brasil em uma grande vitrine em promoção. Se a gente exporta mais, o que é bom para a balança comercial, desabastece o mercado interno. E, pela oferta, os preços sobem”, explica. Do período pré-pandemia — fevereiro do ano passado — até ontem, o dólar se valorizou cerca de 18% em relação ao real, passando de 4,48 reais para 5,32 reais. “Toda vez que o presidente fala em não tomar vacina, ele aumenta a incerteza doméstica”, diz.

Fora do país, a inflação mundial tem sido impulsionada pela desorganização da economia, e não consequência das medidas dos governadores e prefeitos brasileiros, como sugeriu Bolsonaro. A alta dos preços de commodities no mercado internacional e pela demanda concentrada em alguns setores da economia são fenômenos em todos os países.

Comportamento

A aceleração da inflação, em 2020, era considerada passageira pelo governo e pelo Banco Central, que creditavam o comportamento do indicador aos alimentos, tanto para o aumento da demanda, quanto para os preços. No início do ano, o aumento no valor dos combustíveis passou a pressionar o IPCA enquanto a inflação dos alimentos recuava. A alta, inclusive, motivou uma intervenção de  Bolsonaro na Petrobras, com  a troca do presidente da estatal. A partir de maio, o valor da energia elétrica passou a pesar, devido à crise hídrica e ao aumento de tarifas. “A crise hídrica está dissemina a inflação. Os serviços ficam mais caros, a indústria tem mais custos, houve quebras de várias cadeias produtivas do agronegócio”, explica Braz.

Era esperado pelo governo que o preço dos combustíveis e dos alimentos cedesse a partir do segundo semestre, mas o cenário não é este.  Segundo um levantamento feito pela Fundação Getulio Vargas, os itens gasolina, etanol, diesel, gás de botijão, energia elétrica e carnes vermelhas foram responsáveis por mais da metade da taxa acumulada em 12 meses até agosto, respondendo por 5,31 pontos percentuais do IPCA. Ou seja, sem esses 6 itens, a inflação seria de 4,37%, em vez dos atuais 9,68%.

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