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Ensino superior a distância dispara no Brasil, mas há desafios para garantir a qualidade

Dados do INEP apontam que quase 5 milhões de alunos se matricularam em cursos desse tipo no Brasil em 2024

Por Rodrigo Loureiro
Atualizado em 23 dez 2024, 12h28 - Publicado em 20 dez 2024, 06h00

Camila Peres e Juliana Souza conversam quase todos os dias. Elas se tornaram amigas neste ano, quando passaram a ser frequentadoras da mesma sala em um curso de graduação em administração de empresas. O assunto das conversas quase sempre gira em torno das aulas. Elas se ajudam nas tarefas e estudam juntas para as provas. Um detalhe: Camila mora na capital paulista. Juliana vive a cerca de 600 quilômetros de distância, em Belo Horizonte.

As duas estudantes fazem parte de um grupo que cresce a cada ano: o de estudantes em cursos de ensino superior oferecidos na modalidade de educação a distância (EAD). Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira apontam que quase 5 milhões de alunos se matricularam em cursos desse tipo no Brasil em 2024. O número quase quintuplicou na última década e representou 49% do total de ingressantes em cursos de ensino superior no país. Enquanto o EAD cresce, o presencial enfrenta desafios, com menos matrículas que o modo a distância em 2021 e 2022. A projeção é que esse cenário persista em 2025.

O EAD faz sucesso por dois motivos. O primeiro está relacionado ao acesso ao ensino. Juliana, por exemplo, não conseguiria cursar o bacharelado em administração se tivesse de assistir às aulas presencialmente. “Além da distância física, há a questão de que eu consigo acompanhar as aulas em diferentes horas do dia”, diz a estudante. “Isso ajuda para quem tem uma rotina mais corrida.”

arte ensino a distância

A oferta de instituições de ensino superior em Belo Horizonte é farta se comparada, por exemplo, com a de cidades do interior de regiões como Norte e Nordeste, onde o acesso a cursos presenciais é limitado pela distância e pela infraestrutura educacional insuficiente. “Em um país continental como o Brasil, a única maneira de alcançar alunos em diferentes regiões é com o uso da tecnologia”, afirma Francisco Borges, consultor da Fundação de Apoio à Tecnologia, de São Paulo.

Mas não é apenas pela distância que alguns estudantes optam pelos cursos de educação superior ofertados remotamente. O custo também impacta a decisão da escolha pela modalidade. “Por muitos anos, o ensino superior foi elitista, para alunos que faziam cursos particulares no ensino médio e iam para escolas públicas no superior”, afirma Borges.

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É o caso de Camila. “Quando fui pesquisar, vi que era possível economizar mais da metade do valor se eu optasse pelo curso a distância”, afirma ela. Um levantamento realizado pela consultoria Hoper Educação com dados de 2023 aponta que a mensalidade média dos cursos a distância era de 223,90 reais. Nas graduações presenciais, o valor chegava a 750 reais. O preço dos cursos a distância é mais baixo porque o custo é menor. Diferentemente do que ocorre no ensino presencial, as turmas podem contar com centenas de alunos e não necessitam de espaços físicos. As aulas também podem ser gravadas, sem que o mesmo professor tenha de repetir o conteúdo em diferentes classes ao longo do mesmo dia.

Para Mary Murashima, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o ensino a distância pode não apenas trazer vantagens de economia e tempo para os alunos, mas também ganhos acadêmicos. “O EAD abre possibilidades que hoje são indispensáveis e que envolvem o letramento digital. Inserido nesse ambiente, o estudante precisa aprender a lidar com diferentes ferramentas”, afirma a diretora adjunta da divisão on-line da FGV. “A tecnologia já conta com ambientes de imersão propícios, em que o ensino em qualquer área pode ser atendido, desde que com as estratégias corretas.”

Mais de 500 alunos por professor

O problema nessa economia está no impacto na qualidade. No começo deste ano, o Ministério da Educação divulgou uma lista com onze instituições de ensino privadas em que professores eram responsáveis por mais de 500 alunos. O número é muito acima da média (já elevada) de 171 alunos por docente observada no presencial.

Mackenzie: universidades tradicionais também oferecem EAD
Mackenzie: universidades tradicionais também oferecem EAD (Wilson Camargo/Divulgação)
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Entre as faculdades avaliadas estavam algumas das que concentram o maior número de alunos no EAD. O Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi), por exemplo, com sede em Indaial, no norte de Santa Catarina, conta com contingente superior a 500 000 estudantes matriculados em cursos de ensino superior oferecidos a distância. A mensalidade para seus cursos de administração e pedagogia sai a partir de 99 reais na modalidade EAD.

A Uniasselvi compete diretamente com grandes grupos de educação de alcance nacional, como a Yduqs, do Rio de Janeiro, dona das marcas Estácio, Damásio, Ibmec e Idomed, entre outras. Ao todo, o Yduqs conta com mais de 540 000 alunos em cursos de graduação a distância. O presencial, por sua vez, soma 273 000 estudantes matriculados.

“A expansão do EAD não é um fenômeno recente, nem é produto da pandemia. A modalidade cresce há vinte anos porque se encaixa na realidade brasileira e atende a uma necessidade enorme”, afirma Aroldo Alves, presidente da rede Estácio. De acordo com o executivo, o faturamento dos cursos de graduação EAD ofertados pela Estácio somou 1,1 bilhão de reais nos primeiros nove meses de 2024.

Questionado sobre a qualidade dos cursos a distância, Alves afirma que a pergunta é “oportuna” e que “hoje circulam ideias sobre qualidade que não estão alinhadas” com o que é visto nas salas de aula e nos indicadores do setor. Ele cita como exemplo as comparações de resultados obtidos pelos estudantes no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, o Enade. Esse exame foi utilizado como indicador para que o Ministério da Educação avaliasse a qualidade dos cursos de ensino superior no Brasil. Na modalidade EAD, apenas 26% dos cursos obtiveram avaliação satisfatória. No modo presencial, o resultado foi melhor: 38%.

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Aroldo Alves, CEO da Estácio: receita de 1,1 bilhão de reais em nove meses
Aroldo Alves, CEO da Estácio: receita de 1,1 bilhão de reais em nove meses (./Divulgação)

Para o CEO da Estácio, fatores como escolaridade dos pais e renda familiar são os que têm maior peso no desempenho dos estudantes no Enade. “Quando os resultados são colocados lado a lado, estamos comparando segmentos diferentes desse universo”, diz Alves. “É necessário lembrar também que o EAD recebe um aluno que terminou o ensino médio há mais tempo, porque precisou trabalhar entre a escola e a universidade, e que vem do ensino médio público.”

O EAD é oferecido também por instituições mais tradicionais e renomadas no mercado. As operações, no entanto, são bem mais enxutas. A Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, por exemplo, tem apenas 5 200 alunos nos cursos de graduação a distância. No modo presencial, são mais de 18 000 estudantes.

Para Marcos Nepomuceno, pró-reitor de graduação do Mackenzie, houve uma mudança em relação às prioridades do setor. “O mercado passou a ser pautado por volume e ganho de escala”, afirma. Segundo ele, no Mackenzie, as turmas raramente congregam mais de 100 estudantes. “Quando você se pauta por resultado financeiro, pode haver dificuldade de manter o padrão de qualidade”, diz ele. Conciliar quantidade e qualidade deve permanecer como um dos grandes desafios do setor.

Publicado em VEJA, dezembro de 2024, edição VEJA Negócios nº 9

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