ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Classe média alta cresce nos EUA, impulsiona consumo e amplia desigualdade

Avanço de renda nas últimas décadas amplia parcela mais rica da população, enquanto classe média tradicional encolhe e desigualdade se reconfigura

Por Ernesto Neves 6 abr 2026, 15h15 • Atualizado em 6 abr 2026, 15h21
  • O retrato da classe média americana está mudando. Nas últimas cinco décadas, uma parcela crescente da população ascendeu para faixas de renda mais altas, enquanto a base da classe média encolheu.

    O movimento, apontado por estudos recentes do American Enterprise Institute e do Pew Research Center, revela uma transformação estrutural na economia dos Estados Unidos, com efeitos diretos sobre consumo, mobilidade social e percepção de bem-estar.

    Hoje, cerca de 31% dos americanos estão na chamada classe média alta, mais que o triplo do registrado no fim dos anos 1970, segundo levantamento do AEI.

    Ao mesmo tempo, a fatia de famílias consideradas pobres ou próximas da pobreza caiu de cerca de 30% para 19% no período.

    Ascensão silenciosa e novo padrão de renda

    A expansão da classe média alta ocorreu de forma gradual e, muitas vezes, imperceptível para as próprias famílias. Em geral, trata-se de profissionais com ensino superior, inseridos em ocupações estáveis e bem remuneradas, especialmente em áreas técnicas, corporativas e administrativas.

    O critério varia, mas o AEI define como classe média alta famílias de três pessoas com renda anual entre US$ 133 mil e US$ 400 mil em valores atualizados.

    Continua após a publicidade

    Já o Pew considera como alta renda aqueles que ganham mais que o dobro da renda mediana, algo próximo de US$ 200 mil.

    O avanço é sustentado por fatores estruturais. Salários de trabalhadores qualificados cresceram acima da inflação ao longo das últimas décadas, impulsionados pela demanda por mão de obra especializada e pela valorização do ensino superior.

    Dados indicam que mais da metade dos americanos com diploma universitário já está nas faixas mais altas de renda.

    Consumo sofisticado impulsiona economia

    O crescimento desse grupo tem impacto direto na economia. A classe média alta sustenta uma parcela relevante do consumo, especialmente em setores premium.

    Continua após a publicidade

    Entre os gastos mais comuns estão serviços personalizados, produtos de alto valor agregado, viagens internacionais e experiências de luxo moderado.

    Esse padrão tem levado empresas a reposicionar produtos e estratégias, ampliando a oferta de bens e serviços voltados a consumidores com maior poder aquisitivo, mas que não se identificam como ricos.

    Ao mesmo tempo, trata-se de um grupo que ainda enfrenta dilemas financeiros. Custos elevados com educação superior, saúde e moradia seguem como fontes de preocupação, mesmo entre famílias com renda elevada.

    Gerações e mobilidade social

    A ascensão da classe média alta atravessa diferentes gerações. Os chamados baby boomers, beneficiados por décadas de valorização imobiliária e do mercado financeiro, chegam à aposentadoria com maior estabilidade.

    Continua após a publicidade

    Já os millennials, inicialmente impactados pela crise de 2008, conseguiram recuperar renda e ampliar patrimônio nos anos seguintes.

    Ainda assim, a mobilidade social futura é incerta. O aumento do custo de vida, especialmente em grandes centros urbanos, levanta dúvidas sobre a capacidade das novas gerações de manter o padrão de ascensão observado até aqui.

    Classe média tradicional encolhe

    O crescimento da classe média alta não significa uma melhora homogênea. A classe média tradicional, situada no centro da distribuição de renda, perdeu participação relativa.

    Parte dessas famílias ascendeu, mas outra parcela ficou mais próxima da vulnerabilidade econômica.

    Continua após a publicidade

    Embora a renda tenha crescido em todas as faixas ao longo do tempo, os ganhos foram mais expressivos entre os mais ricos.

    Segundo o Pew Research Center, a renda das famílias de alta renda subiu cerca de 78% desde 1970, acima do crescimento observado na classe média e nas camadas mais pobres.

    Pressão de custos e percepção de insegurança

    Mesmo entre os mais ricos, a sensação de segurança financeira não é plena. A inflação recente, combinada ao encarecimento de itens essenciais, como imóveis e educação, contribui para uma percepção de instabilidade.

    Esse paradoxo, maior renda com sensação persistente de aperto, ajuda a explicar por que muitos americanos que hoje pertencem à classe média alta ainda se veem como “classe média comum”.

    Continua após a publicidade

    A transformação em curso aponta para uma economia mais concentrada em faixas superiores de renda, mas também mais pressionada por custos estruturais.

    O resultado é uma nova configuração social: mais famílias no topo da classe média, porém com desafios que mantêm a insegurança econômica como elemento central da experiência americana

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login