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Carta ao Leitor: Uma reflexão necessária

Debate econômico e científico sobre a maconha merece ser encarado com seriedade e não contempla argumentos simplistas e enviesados

Por Redação 14 Maio 2021, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 13h49
  • Não faz muito tempo, falar sobre maconha significava, inevitavelmente, discutir os seus efeitos entorpecentes e viciantes sobre os usuários e todo o aspecto policialesco que envolve drogas ilícitas no país. Na outra ponta do debate, os defensores procuravam minimizar os riscos e invocar a defesa dos direitos individuais para sua utilização, como vem acontecendo desde os tempos do movimento hippie, celebrado em festivais como o de Wood­stock. Esse embate, carregado de conotações ideológicas, começa a perder espaço para outro tipo de discussão, agora pautada por princípios científicos e econômicos.

    Diversos países, entre eles México, Uruguai, Canadá, Holanda e Estados Unidos, descriminalizaram o uso recreativo da maconha. Um brasileiro que desembarque em Los Angeles não tem como deixar de se surpreender com a quantidade de outdoors de empresas que oferecem a venda on-line da substância. Em paralelo, é crescente o número de nações que permitem a venda, fabricação e importação de produtos que usem derivados da planta da maconha (a Cannabis sativa) na elaboração de medicamentos para o tratamento de doenças como epilepsia, esclerose múltipla, artrite e outras que provocam dores crônicas. França, Reino Unido e Alemanha, para citar apenas alguns exemplos, se enquadram nessa categoria.

    O processamento dos derivados da cannabis, livres dos componentes que provocam efeitos alucinógenos e dependência, se transformou em um pujante ramo da indústria farmacêutica, com potencial para movimentar 62 bilhões de dólares nos próximos três anos. Empresas conceituadas como os gigantes alemães Bayer e Merck realizam pesquisas na área e fundos de investimentos aportam recursos em startups que exploram esse novo mercado.

    No Brasil, em que pese a resistência do governo de Jair Bolsonaro e seus seguidores, existe um promissor segmento de pesquisa farmacêutica e de negócios. Atualmente, já se produz em território nacional e se comercializa nas farmácias um derivado da cannabis para tratamento de um tipo raro de epilepsia. Uma série de empresas dos mais variados portes se dedica a importar e oferecer versões feitas no exterior de medicamentos que beneficiam cerca de 30 000 pessoas devidamente autorizadas pela Anvisa para compra e consumo, com acompanhamento médico. Com leis menos restritivas, esse contingente pode passar de 1 milhão de beneficiados e criar um mercado de 4,7 bilhões de reais. É um cenário que merece ser encarado com seriedade e não contempla discussões simplistas e enviesadas, baseadas em visões anacrônicas. Confira a reportagem que se inicia na página 44.

    Publicado em VEJA de 19 de maio de 2021, edição nº 2738

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