Carta ao Leitor: Biografias em risco
De proporções inéditas no país, o escândalo da Americanas lança desconfiança sobre as demais companhias do poderoso trio Lemann, Sicupira e Telles
O trio de banqueiros e investidores retratados na foto são autores de um feito notável. Jorge Paulo Lemann (sentado), Carlos Alberto Sicupira (à esq.) e Marcel Telles (à dir.) escreveram seus nomes na história do capitalismo brasileiro ao criar um modelo imbatível de negócios, com foco absoluto na alta performance e na lucratividade das empresas que controlam. Nos últimos quarenta anos, modelaram colossos empresariais que exportaram sua agressividade comercial para a Europa e os Estados Unidos ao forjar uma cultura corporativa única, talhada e voltada para o sucesso. Foi assim que fundaram, em 1999, a Ambev (feito retratado na capa de VEJA, no destaque), que depois se fundiria com a belga Interbrew em 2004, dando origem à Inbev, e — ousadia das ousadias — compraria em 2008 o gigante americano Anheuser-Busch, dono da Budweiser, formando a maior cervejaria do mundo, a AB Inbev.
Tendo como sócio o financista Warren Buffet, o investidor mais celebrado do planeta, estenderam seus tentáculos por outros dois ícones americanos que brilham no panteão do consumo global, a Kraft e a Heinz. Na constelação, coube ainda a não menos famosa e onipresente rede de fast food Burger King. Como resultado, Lemann detém o posto de homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em 15,8 bilhões de dólares, e Telles e Sicupira, respectivamente, figuram no segundo e terceiro lugares, com patrimônio de 10,6 e 8,7 bilhões de dólares. No último dia 11, no entanto, essa trajetória estelar sofreu um severo revés. Um dos negócios pioneiros do trio, a rede de lojas e de vendas pela internet Americanas foi sacudida pela revelação de problemas em seus balanços contábeis. Chamadas eufemisticamente de “inconsistências” por alguns e mais diretamente de “fraude” por outros, as irregularidades podem levar a um rombo de pelo menos 40 bilhões de reais, o que lançaria a empresa, com mais de 40 000 funcionários, na lona. De proporções inéditas no país, o escândalo da Americanas transformou-se em um abalo sísmico que ainda deve provocar muitas reverberações nas próximas semanas.
Nos primeiros dias, os efeitos variaram do maior tombo de uma empresa na bolsa brasileira, com perda de mais de 80% de valor em seus papéis, à fúria entre os bancos que financiavam as operações, que podem perder de 1 a 4 bilhões de reais cada um, dependendo da instituição. Também deixou em pânico fornecedores de produtos para a rede de varejo, que, receosos de uma falência, partiram para a busca de novos marketplaces. A hecatombe arrastou até mesmo investidores com aplicações de suas economias em renda fixa que possuíam ações ou debêntures da Americanas em sua carteira. Em resumo: o que se viu foi um desastre que colocou em xeque a credibilidade de todo um espectro de empresas e investimentos, lançando desconfiança sobre as demais companhias do trio. Em meio à intrincada operação para tentar salvar a Americanas, ainda existem muitas dúvidas e elementos perturbadores. A expectativa é que, assim como construíram seu império, Lemann, Sicupira e Telles não saiam desse episódio com suas impecáveis biografias tisnadas, mas que mostrem, mesmo em um capítulo difícil de suas histórias, a razão de sua grandeza.
Publicado em VEJA de 25 de janeiro de 2023, edição nº 2825
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