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São Paulo ganha um novo Masp

Com doações que somam R$ 250 milhões, feitas por famílias do mundo corporativo, o museu paulistano superou problemas e inaugura sua expansão

Por Cinthia Rodrigues Atualizado em 21 mar 2025, 15h23 - Publicado em 2 mar 2025, 08h00

Uma dramática novela paulistana que se arrasta há vinte anos finalmente tem um final feliz. A partir de março, o Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), relevante por sua arquitetura brutalista única e uma coleção de 12 000 obras inigualável na América Latina, abrigará mais exposições e visitantes em sua extensão: um prédio vizinho, reformado com projeto do escritório Metro Arquitetos, de Martin Corullon e Gustavo Cedroni. Lado a lado na Avenida Paulista e interligados por um túnel de 40 metros, os blocos foram rebatizados em homenagem ao casal de imigrantes italianos que fundou o museu e respirou arte por toda a vida. Lina Bo Bardi (1914-1992), nascida em Roma e naturalizada brasileira, arquiteta que criou a estrutura original, e Pietro Maria Bardi (1900-1999), natural da cidade de La Spezia, na Ligúria, diretor da instituição por 49 anos. Uma das mostras inaugurais no dia 28 de março trará treze obras de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) que pertencem ao acervo e foram expostas juntas pela última vez em 2002. Para 2026, o sonho é hospedar uma mostra de Vincent van Gogh (1853-1890), já que o museu tem cinco exemplares do gênio holandês. A nova fase é fruto da necessidade de ampliação do espaço e celebra uma eficiente gestão de recursos de doadores, leis de incentivo e respeito ao diálogo necessário com o cidadão que visita o lugar.

Lina Bo Bardi: ela foi a arquiteta da edificação original, em estilo brutalista
Lina Bo Bardi: ela foi a arquiteta da edificação original, em estilo brutalista (Folhapress/.)

As obras da expansão foram custeadas com a doação de 250 milhões de reais provenientes de famílias da elite brasileira, incluindo Setubal, Ermírio de Moraes, Aguiar e Diniz, entre outras. Ao assumir a direção do museu há onze anos, Heitor Martins, sócio sênior da consultoria McKinsey e presidente do Masp, conseguiu colocar a casa em ordem ao equilibrar receita vinda de patronos, conselheiros, aluguel de restaurante, loja, bilheteria, uso da Lei Rouanet e contribuição da prefeitura para compor o orçamento anual de 90 milhões de reais do “nosso museu”, como ele costuma se referir a seu local de trabalho. “A transparência das operações fez com que as pessoas físicas buscassem se aproximar e começamos a levantar o gigante que estava se afogando em uma poça d’água”, diz Martins, referindo-se à falta de capacidade da instituição de fazer investimentos, dívidas com fornecedores (a luz chegou a ser cortada) e equipe muito envelhecida. Colabora o fato de que Martins gosta do tema — ele é dono de uma coleção de obras de arte junto com a mulher, Fernanda Feitosa, criadora da SP-Arte, uma organizadora de feiras artísticas. E celebra os passos largos que foram dados sob seu olhar. “Trouxe a Lia D Castro, uma artista trans, para exibir seu trabalho. Tenho orgulho de celebrar o contemporâneo, mas eu calço a sandália da humildade, deixo as descobertas para os curadores”, afirma Martins.

Com sua reforma concluída no ano passado, o “Pietro”, nome do novo prédio do Masp, imediatamente suscitou uma polêmica estética e foi chamado de “gabinete de computador” — um monólito com revestimento de chapas metálicas pretas perfuradas que controlam a incidência de luz. “Era um problema para a cidade, uma ruína no meio da Avenida Paulista”, afirma Corullon. Ele e o parceiro de escritório optaram por não começar algo do zero e houve uma requalificação do edifício existente.

Pietro Maria Bardi com tela de Holbein: ele dirigiu o Masp durante 49 anos
Pietro Maria Bardi com tela de Holbein: ele dirigiu o Masp durante 49 anos (Juan Esteves/Folhapress/.)
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A dupla já trabalhava junto ao museu antes, fazendo o que chamam de “arqueologia”. Os arquitetos criaram um plano diretor de atualização do espaço, que trouxe de volta, por exemplo, os cavaletes de vidro que exibiam obras de arte — eles estavam guardados. Cuidar do projeto foi uma consequência natural para os profissionais. O investimento foi feito com a captação de dinheiro de empresas privadas e pessoas físicas e as obras duraram três anos. O resultado são cinco novas galerias para exposições, duas áreas multiuso, salas de aula, laboratório de conservação, área de acolhimento, restaurante e café, além de depósitos e docas para carga e descarga.

A entrega da expansão consagra uma trajetória de 25 anos do Metro, na qual eles destacam que o grande mérito foi tirar as coisas do papel. “Aprendemos como funcionam o poder público, os órgãos de preservação do patrimônio, os museus, o mercado imobiliário. Acreditamos que a melhor hipótese está sempre no fazer e partimos de mecanismos de negociação”, afirma Cedroni. Essa diplomacia conquistada rendeu um elenco de encher os olhos: o retrofit de joias do centro de São Paulo como os prédios tombados Renata Sampaio Ferreira e Basílio 177, os masterplans do parque e galeria de arte Inhotim, em Minas Gerais, do museu Instituto Brennand, em Recife, e do Refettorio Gastromotiva, legado da Olimpíada 2016, no Rio. Ainda sob a tutela deles está o Cais das Artes, complexo monumental com museu de 2 300 metros quadrados e teatro com 1 400 lugares localizado em Vitória. O último projeto de Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), um dos maiores arquitetos e urbanistas brasileiros e Prêmio Pritzker, ficou parado por uma década e deve ser entregue em breve — Corullon e Cedroni trabalharam lado a lado com o mestre, que também opinou sobre a expansão do Masp. “Não pode ser nem menor nem maior do que a joia que Lina criou”, disse Mendes da Rocha a Heitor Martins.

O 'Abaporu': filas imensas para ver a obra-prima de Tarsila do Amaral exposta em 2019
O ‘Abaporu’: filas imensas para ver a obra-prima de Tarsila do Amaral exposta em 2019 (Jardiel Carvalho/Folhapress/.)
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O debate em torno da aparência do Pietro Maria Bardi foi bem recebido entre especialistas. Para Raquel Schenkman, presidente da seção paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil, ter uma equipe dedicada e convivendo com o museu há tantos anos é uma prática pouco vista no mercado. “Existe uma delicadeza nesse projeto, com uma equipe que está ali no dia a dia, construindo relações, tomando decisões a longo prazo”, diz ela. Uma política duradoura pode evitar desastres sem conserto, como o incêndio que ocorreu no Museu Nacional, no Rio, em 2018. Para Laura Janka, coordenadora do Núcleo de Arquitetura e Cidade do Insper, a expansão do Masp chega para discutir como as cidades se movimentam para incorporar novos hábitos e soluções mais modernas. “Não podemos permitir edifícios ociosos em São Paulo, que chegam a 600 000. A experiência humana deve definir o nosso relacionamento com os espaços, esse desenho acompanha o desenvolvimento urbano, é uma ferramenta de transformação e aceleração”, diz Laura.

A nova edificação tem catorze andares e dobra a área útil do Masp (de 10 485 para 21 863 metros quadrados). As estruturas preexistentes foram reaproveitadas, gerando baixa pegada de carbono e já conquistaram a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Janelas se abrem para a paisagem do entorno e também para o “Lina”, criando uma conversa lírica. A torre original (o residencial Dumont-Adams, com dez andares), projetada e entregue em 1958, celebrava a união de duas famílias da elite paulistana: o casal Adélia Santos Dumont (1901-1982), sobrinha do aviador brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932), e Plínio de Oliveira Adams (1899-1966), que fez o projeto. Na década de 1980, enfrentou a decadência e foi abandonado pelos moradores — ficou uma carcaça em plena Avenida Paulista. Em 2005, foi comprado pela Vivo e doado ao Masp para ser um futuro anexo. A empresa patrocina diversas ações no museu desde então, e neste ano assinará duas exposições: Histórias da Ecologia e Frans Krajc­berg, em linha com sua política ESG e o eixo curatorial do diretor artístico, Adriano Pedrosa. Depois de décadas, Pietro Maria Bardi, o edifício, está pronto para criar novas histórias assim que os primeiros visitantes entrarem pela porta da frente — de vidro, igual às paredes do prédio vizinho, relembrando o diálogo que existiu entre o casal das artes mais poderoso que São Paulo já teve.

Publicado em VEJA, fevereiro de 2025, edição VEJA Negócios nº 11

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