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Os relógios inteligentes que ajudam na busca do sono perfeito

Eles auxiliam a mapear padrões noturnos, orientar ajustes na rotina e melhorar a qualidade do descanso, com impactos na saúde e no humor

Por Giuliana Bergamo 29 mar 2026, 08h30 •
  • Dormir mal não é apenas um incômodo — é um fator de risco. Noites fragmentadas ou insuficientes comprometem o humor, a memória e o desempenho ao longo do dia e estão associadas ao agravamento de doenças como diabetes, obesidade, depressão e Alzheimer. A literatura já captou esse mal-estar com precisão. Em A Metamorfose, de Franz Kafka, Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos transformado em um inseto, uma imagem extrema, mas familiar, para quem convive com a privação de sono. Não por acaso, o próprio Kafka sofria de insônia. Lá se vai mais de um século desde a publicação do livro e os problemas noturnos estão cada vez mais comuns. O modo de vida contemporâneo tem causado o que os médicos já consideram uma epidemia de escassez de descanso. “Nos últimos 100 anos, a tecnologia evoluiu muito mais rapidamente do que a nossa biologia”, afirma o especialista Sergio Brasil Tufik, do Instituto do Sono e presidente da Afip, a Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa. “Nossos comportamentos mudaram, mas a fisiologia, não.” Com isso, algumas populações têm índices altíssimos de distúrbios graves, como a apneia, quando a respiração é interrompida repetidamente durante a noite. É o caso de São Paulo, onde um terço dos habitantes enfrenta episódios de falta de ar ao dormir. E muitos apenas sofrem as consequências, sem nem sequer identificar a origem do problema.

    Felizmente, a mesma tecnologia que atrapalha o descanso também avança para protegê-lo. Populares entre praticantes de atividades físicas, os smart­watches têm se revelado aliados úteis no monitoramento das noites. Ajustados ao pulso, os relógios medem o tempo total dormido, a frequência e a duração de despertares, os estágios do sono — do mais leve, chamado N1, ao mais profundo, o REM — e até detectam falhas na respiração que podem indicar apneia (veja o quadro).

    arte smartwarches

    Para Stefanie Ferracciu, 37 anos, diretora de recursos humanos da empresa de dados BigDataCorp, os smartwatches se tornaram parte da rotina. “Se o relatório indica que dormi pouco ou muito mal, reduzo a quantidade de reuniões no dia seguinte, principalmente as que envolvem gestão de equipe, quando preciso estar emocionalmente estável”, diz. Para ela, as noites maldormidas afetam diretamente o humor, a disposição e até a qualidade das decisões — no trabalho e na vida pessoal. Por isso, também costuma cancelar treinos ou optar por séries mais moderadas nesses dias. Foi sua personal trainer quem sugeriu o uso do dispositivo, não apenas para acompanhar a atividade física, mas para avaliar o descanso. “Quando comecei a treinar, estávamos saindo da pandemia, eu tinha acabado de ter um bebê e não estava conseguindo perder o peso da gravidez”, lembra Stefanie. O monitoramento a ajudou a perceber como a qualidade da noite interferia em seu estado geral e, desde então, ela passou a se aprofundar no tema. Hoje, dorme sempre com o relógio no pulso.

    Mapear o que acontece durante a noite e ajudar a construir um diário de sono estão entre as principais contribuições dos smartwatches para o bem-es­tar. Com base nos dados do dispositivo, é possível, por exemplo, adaptar-se a uma nova rotina sem comprometer a saúde. Foi o que fez há oito anos Alexandre Galvão, hoje com 47. Sócio-fundador da V3A, empresa de live marketing, ele sempre teve uma agenda intensa, com eventos noturnos e compromissos espalhados por todos os dias da semana, incluindo fins de semana. Em uma nova fase da vida, porém, decidiu equilibrar melhor trabalho, saúde e vida pessoal. A virada veio com o triatlo, mas a nova atividade exigiu algo que nunca havia sido seu foco: regularidade. “Tive que reorganizar minhas rotinas”, diz ele. “Foi quase como reprogramar meu ciclo circadiano. E o smartwatch foi, e continua sendo, crucial para isso.”

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    O empresário Alexandre Galvão: “O smartwatch é crucial para a minha rotina”
    O empresário Alexandre Galvão: “O smartwatch é crucial para a minha rotina” (Paulo Mumia/.)

    Vale ressaltar, no entanto, que toda essa evolução tecnológica ainda não transformou os smartwatches em ferramentas médicas confiáveis. “Por enquanto, eles podem apenas fazer uma triagem de distúrbios, principalmente a apneia e a insônia”, afirma Tufik, do Instituto do Sono. O modelo mais recente da Apple, por exemplo, tende a ser preciso quando aponta um problema: se o dispositivo indica a presença de falhas na respiração, o resultado quase sempre coincide com o do exame médico. Já o rival direto, o da Samsung, mostra-se mais sensível — capaz de detectar até episódios discretos de falta de ar —, o que pode ser uma vantagem, mas também um risco: a maior acurácia na captação pode gerar alertas mais alarmantes do que a realidade clínica justifica.

    Os smartwatches, de fato, ainda não podem ser considerados métodos de diagnóstico preciso — e isso tem uma razão clara. Quem não dorme bem costuma apresentar alterações complexas, que exigem avaliação e acompanhamento médico especializado. “Para isso, o exame padrão ouro é a polissonografia”, afirma o otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono George Pinheiro, do Laboratório do Sono do InCor, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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    Realizada em clínicas especializadas, a polissonografia é incomparavelmente mais sofisticada que qualquer relógio de pulso. Eletrodos acoplados à cabeça medem a atividade cerebral, enquanto sensores colados no rosto, próximos aos olhos e às bochechas, e nas pernas rastreiam os movimentos noturnos com enorme acurácia. Além disso, cintas atadas ao tórax e cânulas inseridas no nariz e na boca monitoram cada detalhe da respiração, e microfones registram roncos e outros ruídos. Diante de tamanha precisão, fica evidente quanto os smartwatches ainda têm a avançar.

    Há ainda outro risco, menos óbvio, mas igualmente relevante: o monitoramento exagerado pode se tornar um problema em si. “Dos mesmos criadores da contagem obsessiva de calorias, agora temos pessoas que fazem um controle extremo das noites de sono”, afirma Pinheiro. O comportamento já tem até nome: ortosonia. Candidatas a desenvolvê-lo são, por exemplo, pessoas obcecadas em verificar nos relatórios do relógio quanto atingiram de sono REM, sigla em inglês para movimento rápido dos olhos, estágio profundo em que ocorrem a consolidação de memórias, o aprendizado, a regulação emocional, o fortalecimento do sistema imunológico e a estimulação do desenvolvimento neural. Esses são processos vitais, sem dúvida. O problema é que os smartwatches ainda têm precisão limitada para mensurá-los, já que isso exige o monitoramento da atividade cerebral. Mais do que isso: a própria lógica por trás da obsessão é questionável. “É importante ter em mente que o sono não é tão matemático assim”, alerta o médico George Pinheiro. “Ele é uma variável que tentamos objetivar.”

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    Com ou sem tecnologia, o ponto central é adotar o que os médicos chamam de higiene do sono. Isso significa manter horários regulares para dormir e acordar, garantir duração adequada do descanso e reduzir estímulos à noite, sobretudo telas, luz intensa e atividades físicas ou mentais mais excitantes nas horas que antecedem o sono. Quando sintomas como cansaço persistente, sonolência diurna ou despertares frequentes se tornam recorrentes, a avaliação médica é indispensável. São medidas simples, mas decisivas, para evitar que o dia comece no piloto automático, ou pior, com a sensação de não ter descansado nada.

    Publicado em VEJA, março de 2026, edição VEJA Negócios nº 24

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