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Alexandre Schwartsman

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Economista, ex-diretor do Banco Central

O novo choque do combustível

Sua alta não empobrece o Brasil, mas pressiona a inflação

Por Alexandre Schwartsman 20 mar 2026, 06h00 •
  • A nova escalada militar no Oriente Médio fez o preço do petróleo disparar. Em meras três semanas o preço do barril do Brent, um dos marcos da commodity, saltou de pouco menos de 70 para 100 dólares, variação proporcional similar à observada depois da invasão russa na Ucrânia. Tais fenômenos trazem de volta à memória outros choques do petróleo, como os de 1973 e 1979, ambos seguidos por forte elevação da inflação mundial e redução da atividade econômica.

    Apesar disso, não se espera, hoje, desenvolvimentos semelhantes aos registrados naqueles momentos. Do ponto de vista da atividade, houve redução expressiva da relevância do petróleo para o PIB. Em 1973 estimava-se que, para produzir 1 000 dólares (a preços constantes de 2015), era necessário cerca de 1 barril de petróleo; hoje essa razão se encontra ao redor de 0,43, graças a avanços tecnológicos, alterações na matriz energética, assim como o aumento do peso dos serviços no PIB.

    Já no que se refere à inflação, a mudança foi tanto institucional quanto de entendimento do fenômeno. Enquanto hoje Bancos Centrais têm como objetivo manter a inflação próxima a determinado patamar, naquela época sua postura foi muito mais acomodatícia. Por receio de agravar a recessão, não ajustaram a política monetária como requerido.

    O resultado foi o descolamento das expectativas de inflação, fator que permitiu repasse muito maior do choque inicial para os demais preços da economia, notadamente salários, levando ao que ficou conhecido então como “espiral preço-salário”. Hoje, em contraste, o histórico dos principais BCs do mundo, em particular no que se refere ao controle da inflação, ajuda a manter as expectativas ao redor de suas metas (“ancoradas”), o que limita a contaminação dos outros preços, inclusive os salários.

    No caso do Brasil, soma-se a isso a mudança no perfil do comércio exterior. Até os primeiros anos deste século, o país era um importador líquido de óleo bruto, equivalente a pouco menos de 0,5% do PIB. Hoje o país registra saldo positivo na balança de petróleo, da ordem de 40 bilhões de dólares (1,7% do PIB) nos doze meses até fevereiro.

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    “A persistir o conflito e, com ele, o encarecimento do petróleo, será preciso realinhar preços domésticos”

    Em outras palavras, enquanto no passado o aumento dos preços do petróleo reduzia a renda nacional, hoje o efeito é o inverso: para o Brasil, o aumento dos preços do petróleo equivale a um choque positivo de demanda.

    Há, ainda assim, efeitos sobre a inflação. Mesmo superavitário em petróleo, o Brasil permanece um importador líquido de derivados. Em 2024, importações respondiam, respectivamente, por 8,5%, 23% e 24,5% do consumo de gasolina, diesel e GLP.

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    Assim, a opção de ignorar o custo de oportunidade desses produtos, defendida por alguns, esbarra em considerações de ordem prática. Caso os preços domésticos fiquem abaixo dos internacionais, importadores se retrairão, comprometendo a oferta de derivados. A persistir, portanto, o conflito e, com ele, a alta dos preços de petróleo e derivados, haverá necessidade de realinhar os preços domésticos, elevando a inflação em 2026.

    A persistência desse fenômeno depende, como notado acima, da capacidade do BC ancorar as expectativas. O petróleo pode ter mudado de papel na economia, mas continua sendo um teste difícil para a gestão de política monetária.

    Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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