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. Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Cargo de Guedes depende do Congresso

Como seus antecessores, ministro da Economia precisa da boa vontade dos políticos

Por Thomas Traumann 26 out 2021, 16h03

Contrariando Tolstoi em “Ana Karenina”, todos os ministros da Fazenda e da Economia são felizes a sua maneira, mas se parecem na infelicidade. Todo comandante da economia assume exibindo um cheque em branco assinado pelo presidente, assumindo como seu um poder que apenas está sendo delegado a ele pelo chefe do Executivo. Os ministros que entendem esse limite e se adaptam aos desígnios do presidente, como Delfim Netto com Figueiredo e Pedro Malan com FHC, tem sua lealdade paga em mais poder. Os que acham que são mais importantes que o chefe _ de Dílson Funaro com Sarney a Paulo Guedes e Bolsonaro _ são invariavelmente fritados até a humilhação. Quando o ministro da Economia se fragiliza, a sua sobrevivência passa a depender do Congresso. 

O presidencialismo brasileiro tem uma dinâmica própria de fritar ministros da economia. A sua autoridade é dada pelo presidente, mas o poder é despedaçado pelo Congresso. Mário Henrique Simonsen era tão poderoso no governo Geisel (1975-79) que para permanecer com João Figueiredo exigiu a criação de um novo ministério, capaz de controlar o orçamento da União, incluindo os gastos das estatais, e as secretarias de fiscalização de preços administrados. Cinco meses depois, desgastado pelas brigas com outros ministros, Simonsen foi desancado por um deputado do baixo clero arenista. Quando ninguém do governo o defendeu, Simonsen viu que não tinha o que fazer em Brasília.

Depois do naufrágio do Cruzado, em 1987, Dílson Funaro caiu quando o PFL se uniu pela sua queda, e o PMDB viu na substituição uma oportunidade para impor o novo nome a Sarney. O substituto de Funaro, Bresser Pereira, renunciou quando o Congresso boicotou sua proposta de reforma administrativa e privatização de estatais. Ministra que baixou o pacote mais radical de intervenção do estado na economia, Zélia Cardoso de Mello não caiu pelo confisco da poupança ou pelo caso com Bernardo Cabral, mas por ter perdido a briga pela indicação na Suframa com um senador. 

Mais importante ministro do início do governo Lula, Antonio Palocci se inviabilizou ao mentir numa CPI no Senado, em 2005, e arrastar o escândalo do mensalão para a economia. Em 2015, no segundo governo Dilma, Joaquim Levy foi atropelado pela aliança Eduardo Cunha e Aécio Neves pelas pautas bombas de mais gastos. Com a oposição velada do PT e escancarada do PSDB e PDMB, Levy caiu pela pressão política, não econômica.

Em seu pior momento no governo, Paulo Guedes está com o pescoço na guilhotina do Congresso. Com sua conhecida habilidade política, Guedes culpou o Senado pela proposta que acaba com o Teto de Gastos e vai agora depender dos votos dos senadores para que o benefício do programa sucessor do Bolsa Família seja de R$ 400 e que sejam rejeitadas as propostas de mensalidades de R$ 500 e R$600. Também vai depender de aprovação de lei pelos senadores e deputados que se quiser levar mesmo à frente a proposta de privatização da Petrobras via pulverização das ações quando a companhia for ao Novo Mercado da Bolsa de Valores. 

Em duas semanas, Guedes terá de ir à Câmara explicar por que manteve ativa contas bancárias conjuntas com sua mulher e filha no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. Perder o controle emocional _ como já aconteceu com Guedes no debate da reforma da previdência _ será fatal. Como vários de seus antecessores em momentos de fragilidade, Guedes recebeu o cargo do presidente, mas só vai sobreviver nele se o Congresso quiser.

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