Tarja - Hugo Chavez 2

Venezuela

Morre Hugo Chávez, 58 anos, e com ele o chavismo

Doença venceu um político que tentou manter uma imagem de invencibilidade até quando o agravamento de seu estado de saúde já mostrava outra realidade

  • Cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Juan Barreto/AFP

  • Caixão de Hugo Chávez é carregado para cortejo pelas ruas da capital Caracas

    Reuters

  • Caixão de Hugo Chávez é carregado para cortejo pelas ruas da capital Caracas

    Reuters

  • Cerimônia de posse do presidente interino da Venezuela Nicolas Maduro

    Jorge Silva/Reuters

  • Cerimônia de posse do presidente interino da Venezuela Nicolas Maduro

    Jorge Silva/Reuters

  • Chefes de estado se reúnem na Venezuela para funeral de Estado de Hugo Chávez

    Presidência da Venezuela/AFP

  • O vice-presidente da Venezuela Nicolas Maduro, no funeral de Estado de Hugo Chávez

    Miraflores Palace/Reuters

  • O vice-presidente venezuelano Nicolas Maduro, o ex- presidente do Brasil Lula e a presidente Dilma Rousseff no velório de Hugo Chávez, na Academia Militar de Caracas

    Miraflores Palace/Reuters

  • Presidente do Irã, Mahmud Ahmadineyad chega a Venezuela para velório de Hugo Chavez

    Alejandro BolÌvar/EFE

  • Milhares de pessoas acompanham cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Ricardo Mazalan/AP

  • Presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, Uruguai, José Mujica, e Bolívia, Evo Morales, comparecem ao velório de Hugo Chávez na Academia Militar de Caracas

    AFP

  • Presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, Uruguai, José Mujica, e Bolívia, Evo Morales, comparecem ao velório de Hugo Chávez na Academia Militar de Caracas

    AFP

  • Milhares de pessoas acompanham velório de Hugo Chávez em Caracas, na Venezuela

    AFP

  • Vice-presidente venezuelano, Nicolas Maduro e presidente da Bolívia, Evo Morales andam na frente do veículo que transporta o caixão do falecido Hugo Chávez

    Carlos Garcia Rawlins/Reuters

  • Milhares de pessoas acompanham cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Dan Lopez/Reuters

  • Milhares de pessoas acompanham cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Luis Camacho/AFP

  • Milhares de pessoas acompanham cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Carlos Garcia Rawlins/Reuters

  • Milhares de pessoas acompanham cortejo fúnebre de Hugo Chávez pelas ruas da capital Caracas

    Jorge Dan Lope/Reuters

  • Apoiadores foram à frente do Hospital Militar para adeus a Hugo Chávez em Caracas, nesta quarta-feira (06)

    Ariana Cubillos/AP

  • Apoiadores foram à frente do Hospital Militar para adeus a Hugo Chávez em Caracas, nesta quarta-feira (06)

    Leo Ramirez/AFP

  • Ex-juiz afirmou que Hugo Chávez forçou juízes para que réus fossem condenados

    Juan Barreto/AFP

  • 'Eles proclamam minha morte', diz o mandatário venezuelano, Hugo Chávez

    Juan Barreto / AFP

  • Hugo Chávez cercado por repórteres após ser solto de prisão devido a participação na tentativa de golpe em 1992 contra o presidente Carlos Andres Peres em Caracas, Venezuela, em 26/03/1994

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez em passeata no Dia do Trabalho em Caracas, Venezuela, em 1996

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez chegando ao conselho eleitoral para registrar seu partido "Movimiento V Republica" em Caracas, Venezuela, em 29/07/1997

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez e sua esposa Marisabel durante marcha que atravessou Caracas que abriu oficialmente sua campanha eleitoral para presidente na Venezuela, em 08/08/1998

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez dá o primeiro arremesso de partida amistosa entre estudantes da Universidade Central de Caracas e atores de televisão em Caracas, Venezuela, em 14/06/1998

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez durante passeata de sua campanha eleitoral para presidente da Venezuela, em Caracas, em 08/08/1998

    Keith Dannemiller/Corbis

  • Hugo Chávez, sua esposa Marisabel e sua filha Rosaines durante comício de sua campanha eleitoral em Caracas, Venezuela, em 03/10/1998

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez em conversa com o presidente Rafael Caldera após vencer as eleições de 06/12/1998 com 56% dos votos em Caracas, Venezuela, em 09/12/1998

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez ao receber o colar de Simon Bolívar durante cerimônia de sua posse como presidente em Caracas, Venezuela, em 02/02/1999

    Rodrigo Arangua/AFP

  • Hugo Chávez e sua esposa Marisabel caminhando para o palácio presidencial em Caracas, Venezuela, em 02/02/1999

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez com o arcebispo de Caracas Mario Moronta na catedral de Caracas, Venezuela, em 03/02/1999

    Bertrand Parres/AFP

  • Hugo Chávez com militares do exército em Valência, Venezuela, em 27/06/2000

    Fernando Llano/AP

  • Presidente cubano Fidel Castro e Hugo Chávez no Parque Nacional do Canaima, Venezuela, em 12/08/2001

    Egilda Gomes/AP

  • Presidente cubano Fidel Castro e Hugo Chávez durante apresentação de novo plano econômico para pescadores na baía de Pampatar, Venezuela, em 12/08/2001

    Jose Goitia/AP

  • Hugo Chávez com um papagaio usando sua boina durante passeata a seu favor em Caracas, Venezuela

    Fernando Llano/AP

  • Hugo Chávez no palácio de Miraflores, na frente de quadro de Simon Bolivar, durante coletiva de imprensa em Caracas, Venezuela

    Juan Barreto/AFP

  • Hugo Chávez durante coletiva de imprensa em reunião da cúpula mundial na sede da ONU em Nova York, em 15/09/2005

    Gregory Bull/AP

  • Hugo Chávez e Lula durante cerimônia de inauguração de uma refinaria de petróleo montada em acordo dos dois países no Recife

    Evaristo Sá/AFP

  • Hugo Chávez durante passeata de abertura de sua campanha para reeleição como presidente em Caracas, Venezuela, em 04/02/2006

    Marcelo Garcia/AFP

  • Hugo Chávez em frente a bandeira da Venezuela no Panamá

    Kent Gilbert/AP

  • Hugo Chávez no Conselho Eleitoral Nacional após sua reeleição em Caracas, Venezuela, em 05/12/2006

    AP

  • Hugo Chávez durante coletiva de imprensa no palácio presidencial de Miraflores em Caracas, Venezuela, em 09/11/2006

    Fernando Llano/AP

  • Hugo Chávez durante visita ao Brasil em Curitiba, em 20/04/2006

    Orlando Kissner/AFP

  • Evo Morales, presidente da Bolívia, Hugo Chávez e Lula durante 1º Encontro da Cúpula Energética Latino Americana em Ilha Margarita, Venezuela, em 17/04/2007

    Antonio Gauderio/Folha Imagem

  • Hugo Chávez durante desfile a caminho do congresso após ser reeleito em Caracas, Venezuela, em 10/01/2007

    Leslie Mazoch/AP

  • Hugo Chávez durante comício em Caracas, Venezuela

    Giampiero Sposito/Reuters

  • Hugo Chávez conversa com Lula sobre questões de energia em Recife

    Hans Von Manteuffel/Agência O Globo

  • Lula com Hugo Chavez em Miraflores, Caracas, Venezuela – 06/08/2010

    Ariana Cubillos/AP

  • Hugo Chávez, Raul Castro, Evo Morales e Lula durante reunião de Cúpula Extraordinária da Unasul e da Cúpula da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento na Costa do Sauípe, Bahia

    Celso Junior/AE

  • Hugo Chávez durante posse da presidente Dilma em Brasília

    Adriano Machado/AFP

  • Chávez anuncia exumação de Bolívar

    AFP

  • O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, apresentou nesta terça-feira, em Caracas, uma imagem do rosto do herói da independência nacional, Simon Bolívar. A imagem é uma reconstrução digital a partir do crânio e do material genético do corpo de Bolívar

    Juan Barreto/AFP

  • Hugo Chávez em seu primeiro discurso após a quimioterapia em uma passeata em Caracas, Venezuela, em 13/11/2011

    Juan Barreto/AFP

  • Chávez discursou nesta segunda-feira à nação venezuelana após quase um mês de ausência

    Juan Barreto / AFP

  • Os ditadores Fidel Castro, eterno caudilho de Cuba, e Hugo Chávez, da Venezuela: regimes siameses

    AFP

  • Chávez encontra Raul Castro em Havana: tratamento contra câncer

    EFE

  • Hugo Chávez e Hillary Clinton

    Marcelo Garcia/AFP

  • Hugo Chávez e Dilma Rousseff, durante encontro no Palácio do Planalto

    Evaristo Sá/AFP

  • O presidente da Venezuela, Hugo Chávez durante visita na cidade de Guaira, em 2010

    AFP

  • Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na chegada ao local de votação durante a eleição presidencial, em Caracas, Venezuela

    Luis Acosta/AFP

  • Sob chuva, o presidente Hugo Chávez participa do último comício de campanha para tentar a reeleição

    Jorge Silva/Reuters

  • Hugo Chávez segura a bandeira venezuelana ao falar para a milhares de pessoas que se reuniram em Caracas após a confirmação da reeleição do presidente

    Carlos Garcia Rawlins/Reuters

  • O presidente da Venezuela, Hugo Chávez brinca sobre o corte de cabelo em Caracas (2011)

    Jorge Silva/Reuters

  • O presidente da Venezuela, Hugo Chávez durante coletiva de imprensa em Caracas (2012)

    Juan Barreto/AFP

  • Hugo Chávez encontra o ministro da Defesa, Diego Molero Bellavia, ao voltar para Caracas depois de uma viagem a Cuba para realizar um tratamento de saúde

    Marcelo García/EFE

  • Hugo Chavez durante transmissão nacional, no Palácio Miraflores, na Venezuela

    Reuters

  • Fotografia divulgada pelo governo venezuelano mostra Hugo Chávez com as filhas Rosa Virginia (dir) e María Gabriela. Segundo informações do governo, a foto foi tirada nesta quinta-feira, dia 14 de fevereiro

    Imprensa de Miraflores/EFE

  • Chavistas se emocionam em frente ao Hospital Militar em Caracas

    Leo Ramirez/AFP

  • Apoiadores foram à frente do Hospital Militar para adeus a Hugo Chávez em Caracas, nesta quarta-feira (06)

    Leo Ramirez/AFP

  • Apoiadores foram à frente do Hospital Militar para adeus a Hugo Chávez em Caracas, nesta quarta-feira (06)

    Leo Ramirez/AFP

  • Cartazes, flores e velas são colocados na entrada da embaixada da Venezuela em Moscou, um dia após a morte de Hugo Chávez

    Misha Japaridze/AP

  • Jovem lê jornal local no dia seguinte à morte do presidente da Venezuela Hugo Chávez, em Caracas

    Geraldo Caso/AFP

  • Clima de tristeza na Venezuela após anúncio da morte de Hugo Chávez

    Jorge Silva/REUTERS

  • Chavistas fazem vigília no centro de Caracas

    Jorge Silva/Reuters

  • Clima de tristeza na Venezuela após anúncio da morte de Hugo Chávez

    Carlos Garcia Rawlins/Reuters

  • Chavistas lamentam a morte de Hugo Chávez

    Fernando Llano/AP

  • Chavistas lamentam a morte de Hugo Chávez

    Fernando Llano/AP

  • Chavistas lamentam a morte de Hugo Chávez

    Ariana Cubillos/AP

  • Chavistas lamentam a morte de Hugo Chávez

    Fernando Llano/AP

  • Chavistas lamentam a morte de Hugo Chávez

    Juan Barreto/AFP

  • Vice-presidente venezuelano Nicolás Maduro, anuncia a morte de Hugo Chávez

    Reprodução/Telesur

  • Jogadores venezuelanos do Deportivo Lara lamentam ao saber da morte de Hugo Chávez, recebida antes da partida contra o time paraguaio Olímpia pela Libertadores da América, em Assunção

    Jorge Adorno/Reuters

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Em mais de uma ocasião, o presidente Hugo Rafael Chávez Frías disse que pretendia permanecer no poder na Venezuela até 2031. Na tarde desta terça-feria, contudo, as complicações advindas de um câncer na região pélvica abreviaram seus planos: Chávez morreu às 16h25 (17h55 de Brasília), e com isso teve fim um governo que já durava 14 anos. Junto com Chávez morre o chavismo, que mistura o pior do populismo, do ultranacionalismo, do caudilhismo e do 'socialismo do século XXI' - tão nefasto quanto o do século XX. A morte deixa um vácuo difícil de ser preenchido, já que nenhum sucessor tem a mesma ascendência sobre os membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e as Forças Armadas, nem o mesmo carisma para conduzir as massas.

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Chávez morre aos 58 anos. No início de dezembro, ele viajou a Havana, Cuba, para submeter-se a quarta cirurgia para combater o tumor diagnosticado em junho de 2011 e que nunca foi tratado de maneira inteiramente transparente pelo governo venezuelano – nem mesmo a localização exata do tumor foi revelada. Em 18 de fevereiro deste ano, após 71 dias de ausência, ele anunciou seu retorno à Venezuela pelo Twitter. No entanto, nenhuma imagem do coronel havia sido divulgada desde então. Ele estaria recebendo tratamento no hospital militar da capital, e nesta terça-feira o governo informou que seu estado de saúde havia sofrido uma piora após "nova e severa infecção".

A doença venceu um político que vendia uma imagem de invencibilidade e que tentou mantê-la até quando o agravamento de seu estado de saúde já mostrava que a realidade era outra. O carismático Chávez deverá ser lembrando pelo estilo espalhafatoso – que causou a célebre reação do Rei Juan Carlos, da Espanha, num encontro de governantes: “Por que não te calas?” – e pela maneira como usou uma das ferramentas da democracia, as eleições periódicas, para desmontar instituições e concentrar poderes. Ao longo de mais de seus anos no poder, ele criou uma milícia própria, manobrou para garantir resultados favoráveis em eleições, confiscou empresas, perseguiu opositores e a imprensa e submeteu a Justiça aos seus interesses.

Origens – Nascido em 28 de julho de 1954, o segundo filho de dois professores da cidade venezuelana de Sabaneta, no oeste da Venezuela, chegou a pensar em se dedicar profissionalmente ao esporte mais popular do país, o beisebol. A mudança de rumo veio depois que entrou para o Exército, aos 17 anos, com o objetivo inicial de se mudar para a capital, Caracas, onde seu talento esportivo poderia ser mais facilmente reconhecido.

Acabou mergulhando no campo militar e foi um dos fundadores do grupo que ficou conhecido como Movimento Bolivariano Revolucionário – em homenagem ao líder da independência da Venezuela, Simon Bolívar. Começou então a organizar seus aliados para tomar o poder. A tentativa de golpe fracassada contra o governo de Carlos Andrés Pérez, em 1992, resultou na morte de 18 pessoas e na prisão de Chávez. Depois de dois anos preso, ele foi perdoado pelo presidente Rafael Caldera e libertado em 1994.

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Quatro anos depois, o coronel paraquedista assumiu o comando da Venezuela ao ser eleito com 56% dos votos. Diante de um cenário político marcado pela corrupção, Chávez apresentou-se como um representante das classes mais baixas que promoveria uma melhor distribuição da riqueza vinda do petróleo. De fato, a maior fonte de recursos do país financia os programas assistencialistas conhecidos como “misiones”, que consistem basicamente em uma fórmula para distribuir pequenas quantias de dinheiro aos beneficiários. Há misiones de alfabetização de adultos, de cooperativas agrícolas, de atendimento médico e de venda de alimentos subsidiados, entre outras. Todas estabeleceram uma dependência entre a população pobre e a figura onipresente de Chávez.

O medo de perder os benefícios sociais ou um cargo público manteve a população fiel ao coronel, em um estilo de governo batizado por opositores de “medocracia”. A suspeita de que o sigilo do voto poderia ser violado buscava alicerces em momentos como o verificado em 2004, quando aliados do presidente elaboraram uma lista com o nome de todos os venezuelanos que foram a favor da convocação de um referendo contra Chávez. Além disso, ao longo de seus três mandatos consecutivos, outras irregularidades foram relatadas, como mesários votando no lugar dos eleitores ausentes ou permitindo que militantes chavistas acompanhassem eleitores na cabine de votação. Até sua saída de cena, as artimanhas foram alteradas, mas nunca eliminadas.

 
Trajetória – Logo depois de assumir o poder, Chávez convocou um referendo em abril de 1999, conseguindo autorização popular para eleger os representantes da Assembleia Constituinte que elaboraria a nova Constituição da República Bolivariana da Venezuela, então renomeada. A Constituição acabou com o sistema legislativo bicameral – desde então, o Parlamento é dominado por aliados do presidente. Novas eleições foram convocadas para julho de 2000, e Chávez foi eleito com quase 60% dos votos. Pouco depois, foi aprovada a chamada Lei Habilitante, permitindo ao coronel governar por meio de decretos.

A era Chávez foi um período de intensa polarização no país. Os opositores, vendo na figura do presidente uma ameaça comunista, começaram a alertar a classe média sobre os planos de Chávez de nacionalização de toda a iniciativa privada. O mandatário acusava a oposição de ser “burguesa”, “oligárquica” e influenciada pelo “imperialismo americano”.

As diferenças ficaram evidentes em 2002, quando Chávez demitiu os gestores da PDVSA, substituindo-os por pessoas da sua confiança. A decisão, associada à insatisfação com as medidas como a desapropriação de latifúndios, provocou uma tentativa de golpe de estado. Em protesto, a Fedecámaras, entidade representante dos empresários, convocou uma greve geral para o abril, que terminaria com 13 mortos. O descontentamento com a liderança de Chávez atingiu também alguns setores do Exército, e antigos apoiadores do coronel o abandonaram. No dia 12 de abril do mesmo ano, um grupo de oficiais anunciou que Chávez tinha renunciado e que o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, havia assumido o comando do país. Mas o plano deu certo apenas por 47 horas. Partidários de Chávez, apoiados por comandantes militares, pediram a volta do mandatário, e Carmona abandonou o posto. Depois de reassumir o posto, Chávez passou a reprimir os meios de comunicação independentes, com a acusação de que eles estariam distorcendo as informações em favor da oposição.

Mas a insatisfação resultou em novos protestos e greve geral, que afetou a produção de petróleo na Venezuela. Afetados pelo problema, os Estados Unidos pressionam a oposição por um acordo com o governo. Em 2003, uma coligação de partidos opositores convocou um referendo sobre a permanência ou não de Chávez no poder. A consulta popular foi realizada no ano seguinte, com a maioria dos eleitores apoiando o presidente – sob acusações de fraude por parte da oposição, que, no ano seguinte, boicotou as eleições parlamentares.

Em dezembro de 2006, Chávez foi reeleito para um terceiro mandato, com quase 63% dos votos. No ano seguinte, decidiu não renovar os direitos de transmissão da emissora de TV mais popular do país, a RCTV. Governando sem oposição no Parlamento, o caudilho ganhou poderes para atuar novamente por meio de decretos. Ainda em 2007, no entanto, sofreu um revés quando os venezuelanos votaram contra a proposta de reforma constitucional que previa, entre outras medidas, o direito de reeleição ilimitada para a Presidência. A derrota foi logo revertida pelo ditador, que convocou no ano seguinte uma nova consulta popular para aprovar o item que lhe permitiria perpetuar-se no poder. A aprovação, mais uma vez, foi feita com amplo uso da máquina pública.

Em 2010, a oposição recebeu a maioria dos votos na eleição parlamentar. Mas Chávez conseguiu garantir mais representantes do PSUV na Assembleia Nacional ao alterar os mapas dos distritos eleitorais, dando mais peso aos votos das zonas rurais, onde tinha mais apoio.

Nas últimas eleições presidenciais, em 7 de outubro de 2012, Chávez voltou a usar a máquina para impor toda sorte de obstáculos à campanha do opositor, Henrique Capriles, governador do estado de Miranda. Logo depois da unificação opositora em torno do nome de Capriles, ele foi punido com um corte no orçamento do seu estado. O governo nacional também tirou de sua administração todos os hospitais e postos de saúde. Ao longo da campanha, Chávez lançou mão do expediente antidemocrático de usar a cadeia nacional de rádio e TV para interromper transmissões de atos políticos de Capriles pelas emissoras. E chegou até mesmo a acusar a oposição de fazer bruxaria contra sua campanha. Divulgado o resultado que assegurou um quarto mandato presidencial ao coronel, a oposição afastou a hipótese de fraude, mas destacou que a campanha fora feita em condições desiguais.

Bufão – Internamente, Chávez usou com desenvoltura as emissoras de TV para cantar, fazer longos discursos e palhaçadas. Essa personalidade excêntrica também foi apresentada a líderes mundiais em diversas ocasiões. Uma das mais marcantes foi seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2006, quando chamou o presidente americano George W. Bush de “demônio” e recomendou a leitura de um livro de Noam Chomsky, conhecido crítico do governo dos EUA, sobre os perigos do imperialismo americano.

No ano seguinte, no entanto, ele encontrou um interlocutor com pouca paciência. O rei da Espanha, Juan Carlos, disse a Chávez a célebre frase "¿Por qué no te callas?” durante uma Cúpula Ibero-Americana, em Santiago, no Chile. A reação do rei ocorreu depois que Chávez chamou o ex-premiê espanhol José Maria Aznar, um aliado de Bush eleito democraticamente, de "fascista".

As ações de Chávez no exterior, contudo, foram muito além das bravatas. Além de financiar o assistencialismo que deu origem a uma fiel base eleitoral na Venezuela, o dinheiro do petróleo foi usado pelo ditador para comprar aliados na América Latina, como Cuba e Bolívia. O petróleo também estreitou as relações entre a Venezuela e a China. O governo chinês financia projetos na Venezuela e recebe petróleo em troca. Com isso, Chávez pretendia reduzir a dependência dos Estados Unidos, realidade da economia de seu país, a despeito do declarado antiamericanismo do caudilho.

Em nome de alianças, Chávez não se constrangeu ao enviar um navio com petróleo para a Síria em fevereiro de 2012, quando a comunidade internacional tentava isolar o governo de Bashar Assad. Chávez não deixou igualmente de apoiar Mahmoud Ahmadinejad, apesar dos esforços do Ocidente para dissuadir o Irã dos planos de desenvolver armas nucleares.

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A tentativa de ampliar sua influência na América Latina – por meios tortos ou equivocados – nunca foi abandonada. Suas ações incluíram financiamento de insurreição em países vizinhos e até a criação da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), anunciada em 2005 como uma resposta à Alca, a área de livre-comércio das Américas proposta pelos Estados Unidos. Em outra frente, o coronel foi grande apoiador das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Documentos encontrados em poder da narcoguerrilha colombiana revelaram que a ajuda vinha na forma de dinheiro, guarida, armas e assistência médica.

Uma das últimas intervenções do ditador teve como alvo o Paraguai. Chávez mandou o então chanceler Nicolás Maduro reunir-se com a cúpula das Forças Armadas paraguaias para incitar uma reação a favor de Fernando Lugo, alvo de impeachment em junho do ano passado. As relações entre os dois países estão estremecidas desde então.

A doença que derrubou Hugo Chávez

Desde o início da doença, o governo venezuelano nunca deu informações claras sobre o estado de saúde do coronel Hugo Chávez. Nem mesmo a localização exata e o tipo de tumor foram divulgados oficialmente. Opositores sempre reclamaram mais transparência, pedido rebatido com ameaças aos “inimigos” do país e desmentidos. A luta de Chávez para combater o câncer foi marcada por vários períodos de internação em Havana, tanto para tratamentos como para cirurgias. A estreita ligação com o governo cubano também levou a protestos contra a ingerência dos irmãos Castro sobre a Venezuela. Saiba quais foram os principais fatos dos quase dois anos de batalha de Chávez contra a doença que finalmente o derrubou:


Doença — Desde junho de 2011, quando revelou que enfrentava um câncer, Chávez viajou diversas vezes a Cuba para dar continuidade ao tratamento, sem detalhar sua situação. As informações sobre a doença foram desencontradas desde o início — nem o tipo nem a localização dos tumores foram revelados com exatidão. Até mesmo os comentários de Chávez sobre o câncer oscilavam. Em um momento, ele parecia otimista e se dizia “curado”. Em outro, alertava para uma queda de ritmo. Depois, prometia voltar “com mais energia”.

 

Em novembro de 2012, seis meses depois da última sessão de quimioterapia e após ficar semanas sem aparecer em público, voltou a Cuba para um tratamento especial. Oficialmente, anunciou que as sessões de oxigenação hiperbárica "consolidariam o processo de fortalecimento" de sua saúde. Depois de ficar mais de uma semana na ilha, voltou à Venezuela. Porém, apenas dois dias depois, informou que viajaria novamente a Cuba para se submeter à quarta cirurgia em 18 meses. Admitiu que a nova intervenção cirúrgica apresentava um risco e, pela primeira, vez falou em um sucessor: o vice-presidente, Nicolás Maduro. Depois meses após o início da internação em Cuba, o governo divulgou fotos do mandatário com as filhas. Ele aparecia sorridente. 

Ao longo do tratamento, Chávez apelou para a fé. Durante a Semana Santa de 2012, o ditador venezuelano demonstrou um fervor religioso fora do comum. Logo ele, que costumava condenar a Igreja e sua hierarquia, insultando cardeais, bispos e até mesmo o Vaticano. No feriado religioso, Chávez participou de uma missa em Barinas, seu estado natal, onde se mostrou um católico devoto.

Chávez casou-se duas vezes. A primeira mulher foi Nancy Colmenares, com quem teve três filhos: Rosa Virginia, María Gabriela e Hugo Rafael. A segunda foi a jornalista Marisabel Rodríguez, de quem se separou em 2003, com quem teve uma filha, Rosinés. Chávez também teria mantido uma relação amorosa por cerca de dez anos com a historiadora Herma Marksman, enquanto era casado com sua primeira mulher.

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