Internacional
Argentina
Reeleição faz do governo Kirchner o mais longo da história
Cristina é a primeira mulher a conquistar segundo mandato no país; mas, após festa da vitória, presidente deve pensar em ajustes no governo, diz especialista
Cristina Kirchner durante o primeiro discurso como reeleita (Marcos Brindicci/Reuters)
"Se vários partidos se unissem, ficariam mais fortes. Cristina talvez ganhasse de toda forma, mas com uma diferença menor. O cenário seria outro. Do jeito que estão agora, não há espaço no governo de Cristina."
Jorge Liotti, professor de Relações Internacionais da Universidade Católica Argentina
A Argentina, que já está há oito anos sob o comando dos Kirchner (desde 2003, quando Néstor foi eleito), abriu caminho neste domingo para tornar este o governo mais longo de toda a história do país. Com a reeleição de Cristina - que deve ficar no cargo até dezembro de 2015, serão doze anos e meio no poder - os recordistas anteriores, Juan Domingo Perón e Carlos Menem, não passaram de dez anos cada. Porém, para chegar até o fim do mandato sem quebrar a economia nem ver sua popularidade cair vertiginosamente, a mandatária precisará repensar a maneira como vem guiando o estado. "Se ela não fizer ajustes, terá dificuldades para governar", destaca o professor de Relações Internacionais da Universidade Católica Argentina (UCA), Jorge Liotti, em entrevista ao site de VEJA. Quando escolheram Cristina Kirchner para continuar no cargo de presidente, os argentinos tinham consciência de que o futuro não seria fácil. Mesmo assim, acabaram votando pela continuidade. A má performance da oposição, enfraquecida e dividida, ajudou bastante. Além disso, ela soube modificar sua imagem, mostrando-se menos agressiva e abusando do tom emocional em seus discursos, usando até o marido morto há um ano como cabo eleitoral.
E foi a Néstor que ela recorreu, mais uma vez, em seu discurso da vitória, quando a apuração já apontava quase 54% dos votos e a maior distância porcentual frente a um segundo colocado, o socialista Hermes Binner, que ficou não chegou a 17%. "Quero agradecer a alguém que já não posso chamar, mas é o grande fundador da vitória dessa noite. Nunca acreditei nem pensei em fazer sem ele, sem sua incomensurável coragem", declarou a primeira mulher reeleita presidente na América Latina, aos 58 anos. Voltando ao lado racional, prometeu cooperar com a Argentina, para que o país siga crescendo, "gerando mais postos de trabalho, mais valor agregado, mais ciência e tecnologia, mais escolas, mais saúde". A presidente se gaba pelo fato de sua nação não ter sido afetada pela crise econômica mundial. Contudo, isso pode começar a mudar nos próximos meses, alerta Jorge Liotti. Primeiro, pelo contágio através do Brasil - principal comprador de sua pequena estrutura industrial - e segundo, pelo menor consumo de produtos agrícolas pela China. "A Argentina não está blindada frente à crise internacional e terá de mudar. Se não, a primeira parte de seu governo será mais desfavorável", avalia o especialista.
Presidente mostra quadro em que aparece ao lado do marido, Néstor, morto há um ano
As dificuldades políticas também virão, pois o governo vai aglutinar tanto espaço político dentro de si mesmo, que pode enfrentar problemas dentro do próprio espaço kirchnerista. Considerando que Cristina não poderá se reeleger novamente em 2015 - a seu contragosto, obviamente -, haverá instabilidades internas para a sucessão da Presidência e para o governo da província de Buenos Aires. "Vamos ver como a presidente vai manejar essas fraturas internas. Se o governo continuar relativamente bem, será fácil ganhar as internas, mas se começar a ter dificuldades econômicas e sociais, vão começar a surgir rapidamente alternativas dentro do próprio partido kirchnerista, o que vai lhe custar muito mais",analisa o professor. Esse panorama será resultado do monopólio político que o país vive hoje. "O governo de Cristina nunca mostrou vontade de incluir em seu governo outros partidos. A lógica do kirchnerismo, historicamente, tem sido governar com os próprios membros", exemplifica. Assim, a oposição continuará sem forças. "Se vários partidos se unissem, ficariam mais fortes. Cristina talvez ganhasse de toda forma, mas com uma diferença menor. O cenário seria outro. Do jeito que estão agora, não há espaço no governo de Cristina."
Oposição - A profunda divisão das legendas opositoras ainda é consequência da recessão enfrentada pelo país em 2001. Até então, o sistema de partidos era mais ou menos estável: havia o peronismo e o radicalismo, além de uma terceira força que varia entre a centro-esquerda e a centro-direita. Depois da grave crise econômica - que levou a protestos populares por todo o país e resultou em cinco trocas de governantes no prazo de apenas duas semanas - a oposição nunca mais conseguiu a mesma solidez. "O kirchnerismo tem um pouco do peronismo, mas são movimentos distintos. O peronismo hoje não diz nada. Há peronistas que são a favor do governo, e outros contra", explica Liotti. Antes, estava previsto que surgissem dois grandes polos opositores: o progressista, onde se enquadrariam o radicalismo, o socialismo e algumas outras forças de centro-esquerda; e o de centro-direita, onde estaria o peronismo não-kirchnerista e o partido Proposta Republicana (PRO), de Maurício Macri, prefeito da cidade de Buenos Aires. Contudo, a morte de Néstor enfraqueceu ambos os lados, que estavam unidos contra a figura dele. Assim, o número de candidatos contra Cristina, que seria dois ou três, dobrou. "O monopólio de uma força política é muito perigoso", alerta o especialista.
E a economia - que, ao contrário do início da década, goza de um franco crescimento desde Néstor Kirchner foi eleito, em 2003, e segue dessa maneira com Cristina - ainda é o principal diferencial. Depois de uma crise muito severa em que o sistema econômico, político e institucional se rompeu, agora a alta inflação é abafada por um forte poder de consumo e uma certa estabilidade. Consequentemente, a população sente algum conforto, o que se reflete de forma direta nas eleições. No segundo mandato, porém, tudo tende a ser mais difícil. O modelo de governo tem funcionado até agora, mas não deve durar os próximos quatro anos. "Há sintomas e evidências de que alguns aspectos não são mais tolerados, fundamentalmente o gasto público, que serviu para superar a crise, mas que já está em um nível complicado", alerta Liotti. Será preciso, ainda, favorecer os investimentos privados em uma economia que funciona essencialmente graças à exportação de produtos primários e, por isso, está muito exposto às variações dos preços internacionais. Por fim, destaca o analista, outro grande desafio da presidente será baixar o nível de consumo, uma vez que é impossível manter uma economia por muitos anos com uma taxa de 25% de inflação. A tarefa não será fácil e, pelo visto, o slogan da campanha de Cristina parece um prenúncio do que o país precisa agora: "Força, Argentina".
Leia no blog de Reinaldo Azevedo:
"A consagração das urnas tende a reforçar seu lado delirante. Hoje, está naquela categoria de governantes que acreditam que a popularidade lhes serve para violar as leis que existem e impor as que não existem, sempre em benefício da manutenção do próprio poder."





Comentários
van.der.burg
Na argentina os mortos continuam a influir na política. Agora a assossiação das mães da praça de Maio convoca para uma manifestação em que pretendem falar com Nestor Kirchner : El jueves se cumple un año del día en que Néstor, sin avisarnos, se mudo a otro planeta. Pero aunque no nos avisó, porque se fue de golpe, nos dejó (..)
24.10.2011
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observadordepirata
America Latrina. Só escolhe presidente ruim. Leve excessão ao Chile e à Colombia.
24.10.2011
John Silver
Os 'LULA' também vão ficar 12 anos no poder no Brasil. Salve-se quem puder.
24.10.2011